23.9.08

O Mainá e o chinês solitário


Na China, um senhor de classe média de uma cidade de porte também médio, ao leste do país, resolveu adquirir um Mainá, ave típica local e que, dizem, consegue imitar sons tão bem quanto papagaios.

O solitário senhor, já de meia-idade, misantropo primeiro por medo de rejeição, depois por segurança, mais tarde por hábito e agora, enfim, por tradição, fazia mais uma tentativa de substituição do contato humano. Afinal, não era avesso aos diálogos. Era capaz de travá-los longamente consigo próprio. Não monólogos, diálogos, no sentido estrito do termo. Uma arte, dizia ele mesmo, que se considerava capaz de simular inúmeras personalidades dentro de sua própria mente, capazes de conversarem entre si, exporem longos argumentos e defenderem posições ideológicas inteiramente antagônicas de tal forma que ele próprio se sentia muitas vezes incapaz de tomar partido de uma ou de outra.

Agora, o solitário chinês alimentava novos projetos, especialmente depois de ter se encantado com uma conversa instigante que tivera com um pombo de rua em uma simulação inusitada que fizera em sonho, durante uma noite mal-dormida. Acordou inspirado, e desde então colocou na cabeça que não só queria, como que seria possível ensinar uma de suas personalidades, parcialmente ou por completo, a um pássaro, como quem ensina mandarim a um papagaio. Em princípio queria mesmo um pombo, que demonstraria o aprendizado através de manifestações corporais, como um bater de asas que refletisse esse ou aquele humor e, de fato demorou a ser convencido de que uma ave falante poderia se expressar com muito mais desenvoltura do que um simples pombo com gestos abstratos e uma vontade questionável de aprendizado. Contudo, como a loja de animais somente teria papagaios em duas semanas, decidiu-se enfim pelo Mainá.

Desde o primeiro dia, seu novo proprietário começara suas primeiras aulas. Teria uma personalidade semelhante à do pombo do sonho, com quem havia tido uma longa conversa sobre a filmografia de Michelangelo Antonioni. Ele falava de forma polida, mas com um orgulho de fundo que se manifestava quando se indignava com as motos demasiadamente ruidosas que entravam pela avenida vizinha e que, de meio em meio minuto, insistiam em interromper bruscamente a conversa. O plano didático incluía longas discussões com o Mainá sobre o cineasta, nas quais ele próprio faria o papel do pombo, que o Mainá deveria imitar, e Os débeis sucessos da primeira semana serviram somente para que o velho chinês intensificasse suas aulas e, ao término da segunda semana, passava quase que a totalidade de seus dias incorporando mentalmente a personalidade do pombo dos seus sonhos. 

Ao término das duas semanas, o Mainá já possuía um vocabulário expressivo. Havia praticamente se transformado em uma enciclopédia do cinema novo italiano, e estava prestes a memorizar o elenco completo de 'Blowup'. Muito mais, sem dúvida, do que poderia imaginar o vendedor da loja de animais, ou qualquer estudioso das aves que tivesse algum mínimo conhecimento das limitações naturais das aves Mainá. Mas para o solitário senhor chinês, o que se via era somente um pássaro memorizando e repetindo palavras, quase que aleatoriamente, sem se preocupar com sintaxe e muito menos com características de personalidade e, quando voltara a loja na segunda à tarde resoluto a comprar dois de quatro papagaios que haviam chegado de navio da Nova Guiné na noite anterior, teria mesmo devolvido o esforçado Mainá não fosse a recusa tão veemente do vendedor em aceitar de volta a ave, já que, afinal, não seria possível revendê-la agora como se fosse nova um animal que já tinha adquirido um vocabulário tão extenso. Aceitara enfim que teria que trazer o Mainá de volta. Porém, posto que seu entusiasmo com a dupla de papagaios agora era grande, a rejeitada ave chinesa acabou esquecida em uma gaiola improvisada com um caixote de madeira que, outrora, havia sido recipiente de frutas exóticas que trouxera em uma de suas raras viagens pelo país - de fato, para uma pequena cidade a poucas dezenas de quilômetros de onde morava - e que somente deixara na sala de estar com os novos residentes da casa por medo de acabar deixando-o morrer de fome no sótão, esquecido entre outras quinquilharias que lá guardava justamente com o propósito de garantir para si próprio que seriam devidamente esquecidas.

Ao contrário do Mainá, que do primeiro dia ao término da segunda semana de aulas sempre parecia mais fazer o tipo do aluno esforçado do que o de um estudante entusiasmado, os papagaios neoguineenses fizeram grandes demonstrações de excitação desde o primeiro instante. Falavam mais do que seu proprietário, conversavam mais entre si do que com seu proprietário e aprendiam mais um do outro do que daquilo que lhes ensinava o seu proprietário. Falavam dia e noite, falavam um na vez do outro, falavam na vez do proprietário falar, e falavam até nos raros momentos em que tentava se pronunciar o recluso Mainá, que por sua vez tentava silenciá-los com uma ou outra das muito poucas falas de Marcello Mastroianni em 'A Noite'. De fato, os papagaios mal ficavam em silêncio para comer, alternavam-se durante o sono, travavam longos monólogos consigo próprios enquanto o vizinho dormia e só se calavam realmente quando o gato de uma casa ao lado miava de fome, uma hora no almoço, outra hora no jantar.

Ao término de duas semanas de aula, o velho solitário estava exausto. Se antes com o esforçado Mainá, havia se disposto a se transformar por completo em pombo-cinéfilo pelo bem da alta educação que deveria receber a jovem ave, agora, com os falantes alunos que trouxera da Nova Guiné, já não conseguia mais ser pombo, já não era mais ele próprio, nem nenhuma de suas milhares de personalidades. Sua mente estava vazia. Ele era o que eram os papagaios. Invadiam sua mente e suas idéias com seus longos debates - que eram realmente sobre qualquer assunto que lhes desse na telha - e o velho, acostumado a longos solilóquios durante décadas de sua vida, provavelmente ouvira naquelas semanas mais do que durante a vida toda. Mal conseguia dormir, e nos curtos silêncios provocados pelo ruidoso gato da vizinha, ele próprio preenchia o vazio de sua mente, como que por inércia mental, com reproduções das conversas de seus animados colegas de apartamento. Sua fadiga a essa altura já era tal que, no primeiro dia da terceira semana de convívio com os papagaios, as nove e quarenta e cinco da manhã, não teria notado nada de estranho no silêncio da casa com o miar de todos os dias, e nem teria percebido que ele já perdurava muito além da normalidade não tivesse sido capaz de estranhar, algumas horas depois, a existência de um segundo miado. Como se retornasse a uma consciência própria pela primeira vez após três semanas, notou surpreso que ainda era pouco mais de meio-dia, e que o primeiro miado havia começado horas antes do que seria o já habitual miado da hora do almoço. Enfim, percebeu que um dos miados era mais forte. Vinha de dentro da casa. Tentou então aproximar-se, aguçando os ouvidos. No caixote de madeira velho, estava lá o jovem Mainá. Tinha os pêlos assanhados de muitas noites mal-dormidas. Nos olhos, trazia um certo tom avermelhado, que um bom veterinário poderia identificar como se tratando de algum tipo de irritação causada por um longo estresse mental. Com sua voz, imitava o miado do gato com uma perfeição que enganara até mesmo a dona do animal na casa vizinha, que estivera a beira de dar-lhe comida antes da hora, e somente se conteve ao ver que o tal ainda dormia, quieto em seu canto, voltando aos seus afazeres maldizendo os maus hábitos dos gatos alheios. Os papagaios, por sua vez, mantinham-se em silêncio religiosamente como que em respeito sacro ao canto de martírio que parecia não mais se cessar. O Mainá sustentou o quanto pôde o miado que se esforçara por memorizar no decorrer de duas longas semanas. Mal se lembrava do que havia aprendido em suas aulas de cinema italiano, provavelmente jamais voltaria a falar em Antonioni ou Mastroianni e apenas esperava que o silêncio, que agora cantava com a própria voz, se prolongasse para além de suas forças para continuar miando, e que pudesse ainda reverberar por um longo tempo pelas paredes da casa, do caixote de madeira, e das jaulas luxuosas de metal dos dois papagaios neoguineenses.

1 Comments:

Blogger Jéh.*~ said...

R.,

[ . . . ],
e não é que me coube? o foi suficiente para cada segmento que havia por perto, sobrando ainda espaço com duas almofadas. vou usar em dias que as J.s nos tropeçarmos-me.a espuma e o tecido amorteceram a queda e salto de fuga. ainda não entendi o que usou de tampo. talvez uma espécie de mágica que meu desejo controla a maçãneta e fechadura.

quanto ao dicionário desordenado, fico feliz que tenha dispensado o conta-gotas. até mesmo a chuva dispensa o itinerário de palavras aquosas alinhadas. de pronto, só o balbucio ao pé de ouvido da nuvem acima do seu guarda-chuva para que te (a)guarde um delírio.

uma (a)pena(s),

(ab)sinto,

J.


http://tipografos.net/portugal/penas-escrita.jpg

22 outubro, 2008  

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