12.1.09

Víque através

Rezando, de cara a la pared, se hunde la ciudad.

Hunde, como em afundar? Afundaria minha cara contra a parede se fosse possível, ou se houvesse parede e não janela, se fosse parede e não montanha mato alto casa latifúndio casa cabras montanha casa, é engraçado até, isso de olhar o mundo correr. Fugir. Foge mundo. De mim, foge! Foge como se fosse um filme fugindo, uma cena atrás da outra, o elevador fugindo de Nicolas Cage fugindo de Merryl Streep fugindo de Nicolas Cage assim como o agora fugiu do agora a pouco, e é tudo fuga, covardia, cinema, tempo e  janela, todos, nenhum existiria sem a covardia da fuga, isso de já não ser mais. Hunde, como em fundir? Outra cabra mato cabra. Víque recusa a janela, olha para o banco do lado, o teto, provavelmente ultrapassou o teto e corre com os olhos em direção ao céu que não foge nem jamais fugirá, essa coisa absurdamente imóvel que talvez seja mesmo o que é Víque, essa paralisia metódica, ambiciosa, admito, danou-se afinal com o teto, mas ainda assim. Para o céu. Para mim. Agora olha para mim, o olhar sério, demais talvez, e não acho que haveria razão para isso agora, ao menos que eu me lembre não haveria e de modo então que talvez não seja um olhar sério, talvez um olhar contundente, sereno, fugaz, diabos, Víque, diabos, o que você é afinal? Hunde, como en hundir. O ônibus segue atravessando uma estranha zona rural onde nada parece ser um lugar só, os horizontes são confusos demais, casas cabras montanhas casas não parecem começar onde termina a outra, não terminam onde começa a outra, se misturam demais, se fundem demais, e é tudo muito impressionista, não há contornos, não há fronteiras, não há. Claro, há sempre a geopolítica e a cartografia no mundo servindo ao desmanche de qualquer arte que quaisquer olhos (meus) possam atribuir a qualquer artista (Deus?) absurdo (ainda eu, em última instância). Há, também sempre, Víque para lembrar, não sei quando abandonou o teto e o céu, acho que foi por um instante e záz, placa de trânsito e olho na placa, para lembrar que passávamos da fronteira, e que havia fronteira, linha imaginária entre um mato e outro, um daqui pra lá, e um daqui pra cá, salto fantástico que para Víque significava prerrogativa para que para trás ficasse o português, daqui pra lá, a fala forçosa e golpeada do castelhano, daqui pra cá. Em seu olhar Víque trazia certa glória vingativa, essa inversão de natividade, esse avesso súbito de nós e agora Víque mão segurando o queixo aceitando a janela largava o céu e se borrava de vez aos meus olhos, e ouvidos, e palavras, também borradas. Hunde, como em borradas. Não enxergava o céu de Víque, sou incapaz de compreender a janela de Víque, droga, quase não enxergo Víque, agora bastante compenetrada, matocabrmatomorrvíquecabraato, sem começo, sem fim, sem meio, e não sei se falo, se me arrisco, se expulso Víque de sua janela rumo a mim, provavelmente tão borrado quanto a janela, ou mesmo, se Víque quer ser expulsa, se Víque quer minha palavra, se quer que eu emita, crie sons, Víque posso até berrar, Víque, se quiser. Me vem a vontade de estalar os dedos, um dedo contra o outro dedo, esse quase monossílabo que não chega a precisar caber em letras e que me abriga (não, não me abriga) de tradutores, me abriga de intérpretes, me abriga, leitor, de ti. Estalo e o estalo é o primeiro som nesse dia que me faz sentido, tlac, tlac, tlac está no dicionário, letra tlac, primeira letra e última, tlac, um alfabeto inteiro, tlac, essa palmada na atenção, pancada na paisagem, a violência que a todo verbo conjuga, e Víque me olha, relutante com o canto do olho, a boca talvez pudesse ter sorrido, talvez. Hunde, como em afundar. E olho nos olhos de Víque. E não sei se Víque olhava em meus olhos. Talvez olhasse através dos meus olhos, como olhava antes, através do teto, e depois, através da janela. Não saberia então dizer o que ela veria. O que havia afinal através? O que há antes de mim? Víque, que não se importa, através olhava para as costas (devo dizer barriga) do banco vazio a sua frente. Vazio não completamente, ocupado que era, sim, por pernas que se espreguiçavam e que prolongavam o corpo que ocupava o banco (barriga, costas) ao lado, e sei que havia um fim de pé que tocava a janela, tocava, não atravessava, não assistia, um meio de cintura que se permitia visível entre um banco e outro banco, meio princípio de jeans, meio final de moletom, azul, escuro, e sei da mão, ligeiramente peluda e dependurada, despencando pelo encosto de braço que dava para o corredor. O que havia afinal através? Um senhor de idade, um jovem, cansado, era uma longa jornada de trabalho, aonde, mineração, de carvão, ah, sim, um trabalho cansativo, sim, fadigante, perturba a saúde, minhas mãos, pretas e é o carvão, que sobe pelos braços, sobe pelos ombros, alcança pescoço boca e nariz, trata-se de um senhor completamente coberto de carvão, uma sombra deitada e que viaja a minha frente, carvão sobre os olhos e ele já não enxerga, embriagado de si próprio, nem a janela, nem o mato, nem as cabras, o sol que começa a se pôr, as costas (longe demais, para mim, lejos, muy lejos) do banco da frente, o de trás (costas, barriga, intestino já enjoado, essa viagem que não acaba, que hunde, como em enjoar), nem o teto, o céu, nem Víque, nem através, nem depois, talvez antes, olhos virados para dentro, é o que lhe resta. Ele se move, senta-se e, no chão do corredor agora o sol projeta sua sombra, sombra da sombra. Talvez sejam exatamente iguais, e então não seria sombra, projeção, seria espelho, realidade, carvão do carvão, e já não se poderia mais dizer quem é espelho de quem, o que é o um do outro, seria sombra enfim em glória, sombra enfim não como projeção, sombra como tradução. Penso em perguntar-lhe. Hesito, penso que seria absurdo perguntar-lhe, moço, carvão, afinal, qual é você? Qual ao invés de quem, está aí toda a diferença. Víque novamente observa a janela, através, cabra cabra mato mato mato cerca, e o sol que persiste, que não foge, covarde como os outros, que fica simplesmente, como se olhasse, de volta, através. Hunde, como em... Noto que Víque dorme, cabeça encostada contra a janela, quase incendiada pelo sol, dorme, apesar de tudo, de mim, cabeça encostada contra mim, quase incendiada por mim, dorme. E penso que não lhe basto. Estranho afinal, Víque não estava cansada, Víque havia dormido bem antes da viagem, Víque ria de minhas piadas, Víque ria através da janela. Mas dorme e agora noto que enxergo melhor, o rosto amarelado e o cabelo liso caído, essa franja reta pela testa, os dentes que se sobressaem, um mais, outro menos, o ar que entra pelo nariz, através, o ar que sai. Avermelhada pelo sol, Víque já é quase poema, quase palavras, posso quase dizer, Ví-que, se o momento pelo menos durar mais, se pelo menos houver tempo, mais tempo, e as palavras se sedimentem e, quietas, imóveis, caladas, possam ser ouvidas, e penso na máquina fotográfica, que tiro do bolso e olho, através de sua lente, Víque, a boca caída de Víque (o ar que sai agora pela boca, essa quase palavra, esse quase monossílabo, esse quase estalo, esse diálogo concreto sem língua, tradutores, dicionários!), a janela, mato mato mato mato, o sol sempre lá, olho através de sua lente. E disparo. Vem uma fotografia tremida, uma mistura de Víque com mato, de mato com sol, de sol com janela. E disparo. Outra fotografia, a mistura agora também é outra, a boca de Víque engole uma cabra, que é pedaço do estofamento do banco da frente, a franja pende sobre o sol e o amarra, e tudo se borra, hunde como em borrar, e nada se vê, nada, está tudo ali, a minha frente, posso (quase) tocá-los, são quase palavras, seriam. E disparo, os dedos firmes sobre a câmera, o corpo preso ao banco, firmado pelo cotovelo sobre o encosto da cabeça. E já não é mais Víque, e já não há janela, a franja, reta, já não pende mais sobre a testa, já não há mais cabras sobre gramados esverdeados delineando a estrada, e já não há sono, ou talvez haja, e já não se fala portugês, castelhano, diabos, Víque, diabos, que raio de língua é essa, que raio? Hunde, como en hundir. O sol enfim termina de se pôr. Afinal também foge, como o mato, como as cabras. Do senhor do banco da frente, já não há mais a sombra no chão do corredor, resta a manga do moletom azul, escuro mas azul, apoiada na braçadeira do banco, sem sombra, sem espelho, sem costas ou cabeça, somente uma manga. Víque, acordada, já não vê através da janela. O ar lhe entra novamente pelo nariz, e seus olhos olham nos meus. Ou através. Antes. O que há, afinal, antes de mim? E o que haverá depois?


(*) Terceiro capítulo para livro, que atrasou e virou quarto capítulo. Seqüência (não necessariamente linear) de "Duro, frio e branco", ainda que seqüência não se note nenhuma. 

3.1.09

Duro, frio e branco

Primeiro eu:

Sentado no banheiro, estou cansado e minha mente me ensurdece. Tenho os olhos voltados para dentro já há dois dias, dois dias ao contrário, sou paisagem hipertrofiada de mim, sou redundância e já não me agüento mais. Fugo, e é para o chão, esse piso duro e frio e branco de cerâmica.

Segundo eu:

Dezoito quadrados brancos de cerâmica compõem o chão, frio e duro, branco. Não completamente branco, posto que são, ou estão, invadidos por minúsculos pontinhos pretos. Os pontinhos pretos são inúmeros, quase infinitos, seriam infinitos, se eu quisesse, se acreditasse. Na multidão, começo a procurar por alguém.

Terceiro eu:

Na multidão, encontro de perfil uma senhora, já de idade, veste um chapéu ou possui um grande topete, tem ar altivo, provavelmente pelo nariz, que se sobressalta, certamente não pelos olhos, que tenho mais dificuldade em encontrar, um olho não se vê, o outro é formado por um único ponto. Perco e reencontro seu olho a cada instante, de tão pequeno, e o confundo com outro pontos, e o reinvento, me forço a reinventá-lo. Com todos os seus olhos, porém, a senhora, de longe, olha fixamente em minha direção sem jamais piscá-lo. Ainda que a cada vez com um olhar diferente. Agora outro olhar, e me sinto outro

Quarto eu:

completamente estranho ao anterior, e ao anterior, e ao anterior. Já não sou mais redundância, sou especulação.

Quinto eu:

Meu problema é que me entrego demais às especulações. E me perco.

Sexto eu:

Retiro da senhora seu olho e ela agora é só nariz, chapéu ou topete, e talvez alguma boca. Uma imagem deformada, um estranho eufemismo para a alteridade, ou talvez eufemismo de mim mesmo, ora, posso no chão infinito reinventar o universo por inteiro, posso me reinventar, posso nele me esconder, e o que faço (realmente não imaginei chegar a esse ponto e talvez agora deva começar a me preocupar) é fabricar uma senhora de nariz sem olho e talvez boca para que não me veja. Talvez nem me fale. Algum tipo de ode bizarra da solidão. Basta mesmo o nariz, grande, para que respire. Talvez para que me sufoque, mas pode ser apenas piedade minha.

Sétimo eu:

Me passa pela cabeça agora perdê-la. Deve ser fácil. Basta piscar os olhos.

Oitavo eu:

Ainda está lá, nariz, topete, boca. Não sei como, mas sei que é ela. Poderia ser qualquer outra coisa, qualquer outro conjunto de pontos em qualquer outro quadrado de qualquer dos dezoito quadrados que formam este piso de cerâmica, branca, dura, fria, e ainda assim sei que não, que é aquele, é aquela figura, aqueles pontos, ela. Não a perco e não consigo entender como não a perco. Como eu entendo o que é uma coisa, e o que já não é mais, o que é jurisdição do teto, o que é jurisdição do chão, e porque eu não sou o chão nem o teto, e porque aquela senhora não é qualquer outra coisa? Como?

Nono eu:

Talvez eu não entenda.

Décimo eu:

Pisco novamente, agora mais longamente, e sinto o mundo desbotando, como memória esquecida, branca, fria, dura.

Décimo-primeiro eu:

Abro os olhos e procuro, lá não está mais a senhora, insisto com meus olhos que agora a perseguem, e não a encontram, e me desespero, e sinto que posso transformá-la em obsessão, e vejo um senhor, de bigode e que me olha sério, um cachorro com as orelhas levantadas, e vejo um palhaço, nariz de palhaço, boca pintada, fechada, e os perco todos até reencontrar a senhora, longo nariz e topete, sem olhos, agora uma boca maior e orelhas salientes mas é ela, sei que é. Ao seu lado, também de perfil, quase disfarçado por um aspecto sorridente que eu normalmente não reconheceria, estava eu, e era como um espelho, se ao menos fosse reflexo de algo.

Primeiro outro:

Agora me levantei e me pus a andar. Olho novamente para dentro, e já não me vejo mais. Aliás, já não sei quem é. Sei que move-se, segue pela sala e olha pela janela aberta. É dia, e pela rua vejo carros passarem, pedestres, um ou outro, esperando o semáforo. É dia, e é como um filme.

19.12.08

Sobre a torneira


E se eu te escrevesse agora com palavras de pia? Se eu saltasse de cima da ponte galáctica de poeira cósmica, do viaduto que cruza Orion, de um lado a outro, para debaixo do teto, branco, piramidal que me esconde em dias nublados, ou azuis, ou roxeados, ou quando foge, ou se parece noite. E se eu tropeçasse ao invés de escrever? Palavras? O vento. O vento, O vento que já tanto te soprei, instituição que contratei para te arremessar poesia, quilômetros e quilômetros, vento como meio de transporte para a metáfora, serviço postal dos telegramas cósmicos e dos intergalácticos, elo de conexão entre eu e talvez o teu rosto, tu e talvez o meu rosto, departamento nacional do trânsito da paixão e seus calores, igreja da compressão do espaço e implosão da matéria que não importa para a humanidade, ou seja nós mesmos, ou seja, a humanidade, eu e você no altar orando para nós mesmos e pelo sacrifício de nós mesmos para e por nós mesmos, revolucionário dos estudos cartográficos mundiais, redesenhista do traçado Brasília-Goiânia, não mais hifenizado, não mais fronteira, não mais metrópole, não mais sertanejo, não menos, nem Brasília, Planalto, Central, BR-, Anápolis, BR-, Goiânia, nenhum aonde.
— Uma passagem, por favor.
Esse mundo, essa coisa, essa hipérbole de nós mesmos, é tão feito de palavras de pia, tanto de pia quanto eu, quanto tu (imagino). E quando digo de pia, quero dizer de janelas mais ou menos emperradas, de escrivaninha de madeira descascada, pia, BR-253, de televisões em salas ao lado, Charlie Sheen esboçando em voz alta uma filosofia da vida prática, pia, minha porta fechada e que antes deixei encostada por simpatia pelo senhor da sala ao lado, ouvindo Charlie Sheen, pia, fechada ou aberta.
— Para onde senhor?
Esse mundo, essa coisa, essa metonímia de nós mesmos, e que decidiu sem maiores deliberações, ou representações democráticas, ou pressões partidárias, deste lado um poeta, daquele um prosador, do outro um senhor calado, do outro uma pia, decidiu univocamente (e com plena aceitação do mundo, nós mesmos), que a chuva te leva pedaços sinestesiados de mim e que o vento, o vento, o vento me traz teus sussurros agarrados a folhas de outono, e parece agora que, assim, portanto, logo, que a chuva não me molha se eu não me cuidar e não fosse o heroísmo da varanda do primeiro andar do prédio verde do bloco F, parece que eu não poderia ter me resfriado, ainda mais com o vento, e parece que não fugi covardemente da poesia, e que não me entreguei ao primeiro abrigo que encontrei, que não há prostituição atmosférica e, logo, que não há pia. Disparate.  
— Não para Goiânia.
A poesia torna o dia de hoje impossível. Indizível.
— Senhor, para onde?
Não. Um homem não pode se dividir assim. Indizível. Impossível.
Hoje.
Hoje acordei de um longo sonho, tentei me lembrar dele, de partes dele, do que me restava dele na mente, uma diretora de escola, travesti, eu preso, havia um regulamento. Senti a garganta seca, o mau hálito na boca. Tentei voltar ao sonho, mas não consegui, e podia ser mesmo a secura, e me levantei. No banheiro, o chão era frio e me arrependi dos pés descalços. Como estavam distantes os chinelos, optei pela pia, e pela água, e pelo chão duro, e pelo frio. A torneira gotejava. Sempre gotejava. Estava gotejando ontem, gotejava quando fui dormir, e teria de estar gotejando hoje de manhã, a não ser que se secasse a água de vez a água do mundo, de vez esvaziada pela minha torneira, a água do mundo no meu ralo. O som das gotas caindo, no ralo da pia, ecoavam pelo banheiro, e invadiam o quarto, e não me deixavam dormir, e quando deixavam, serviam de percussão aos meus sonhos, ploc, ploc, ploc. Talvez eu tivesse sonhado com isso mesmo, eu preso, a diretora, e o ralo como trilha sonora daquilo que sonho. Ploc, ploc, ploc, abri a torneira e enchi o rosto de água, fechei a torneira e já não havia mais sonho, e a diretora, travesti, e eu preso, jamais passariam novamente pela minha cabeça, e o ploc, ploc, ploc do ralo da pia voltariam a ser, não mais, do que trilha sonora para a minha própria vida, realidade, meu dia. Hoje.
Impossível, indizível.
— Não para Brasília.
Para ti, ou para nós, decerto para nós, nunca houve hoje. Nos situarmos no tempo, no ontem, na semana, na outra, nos três ponteiros, o pequeno, o grande, o maior que se mexe, de novo, de novo, no depois ou no agora (até no agora), parece absurdo. Eu flutuo, pairo, o mundo lá embaixo, não só esse mundo-espaço, esse mundo-coisa, que minha flutuação vai além do tridimensional, latitude, longitude, não, olho para baixo e vejo minutos, olho, e vejo a madrugada, quase manhã, Orion amando Eos, olho, e vejo leite, uma caixa de leite, ao fundo de uma geladeira, a validade se expirando, lentamente, e vejo pessoas, expirando, e vejo a chuva chegando, e passando, e mesmo o vento, a tal instituição literária, mesmo o vento eu vejo de cima, junto com a chuva, que cai contra mim e ao avesso de mim. Nada me vê. Sou intransitável. De mim no mundo, esse mundo-coisa-instante de que te falo, só se vê sombra, minha sombra projetada por um Sol sabe-se lá escondido aonde, minha sombra projetada sobre o tudo e o todo, e sobre você, lá embaixo, debaixo de mim, e se antes você (ao menos) me visse por um binóculo, uma luneta, e que fosse côncava demais, ou convexa demais, e que fosse empoeirada, que fosse até mesmo um espelho, que fosse, mas não,
— não sei. Qualquer lugar.
pois que de mim o que via era mesmo a sombra, projetada por um Sol sabe-se lá aonde escondido, essa exibição do meu negativo sobre o mundo-coisa, sobre o mundo-instante, ou nem negativo, não bastava revelar-me, inverter-me, fazer um blow up imenso de mim mesmo e ter um eu fotografado em detalhe. Não, sombras não são isso. Nem são as sombras partes de um todo, meu todo, minha parte. Nem minha metáfora, não, nem um eu figurado, meta-narrativa de mim, não. Queria dizer que talvez pudesse ser, talvez fosse meu eclipse, eu eclipsado, pelo Sol, pela Lua, por um pássaro, um poste, melhor ainda um poste, ou prédio, coisas que costumam e que gostam de nos eclipsar no Dia-a-Dia. Dia-a-Dia. Dia, a, Dia. Que expressão! Não. O eclipse era do próprio Sol, eu na frente do Sol, tapando, me esfregando sobre o Sol. E você, lá embaixo, contemplava meu eu em branco, uma grande folha de eu, branca, preta, pronta para você, e para que você nela escrevesse aquilo que quisesse. E que me entendesse, como quisesse.
— Temos um ônibus saindo em meia hora (instante) para São Paulo (coisa), você quer?
Latitude, longitude, impossível, indizível,
— um homem não pode se dividir assim. A realidade e a poesia são demais para um só homem. Nem Brasília, nem Goiânia. Não há o que dizer. Não há 
Impossível, não diga!
— Tem algum banheiro por aqui?
Disparate.
Entrei, e o banheiro era sujo o bastante, nem pouco, nem demais, e a torneira, entreaberta, pingava, ploc, ploc, ploc, e eu mal podia escutar os ruídos da rodoviária, ensurdecedora, quem diria. Ainda teria de esperar por vinte minutos antes de entrar no ônibus e não fazia idéia, idéia, de como passá-los, idéia, parecia absurdo, vinte minutos, olhei para o relógio, o ponteiro pequeno apontava o seis, o grande, o quarenta e cinco, enquanto o terceiro se movia mais rapidamente, quatorze, quinze, dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, vinte, vinte e um, vinte e dois, e parou.
(*) Segundo capítulo para livro. Seqüência (não necessariamente linear) de "18:45".

28.11.08

18:45

Fiquei olhando para a grande imensidão de chão cinza que me rodeava e me fazia como que ilha. Mas ilha de quê? Um grande pedaço de carne humana cercado de chão por todos os lados, até por baixo, que era o chão mesmo cinza que me segurava, e então eu já não era mais ilha, e nem me afogava. A entrada para o cinema formava um cubo megalomaníaco, teto, chão, teto, parede, uma dessas grandes bolsas de concreto da capital federal, a vidraça, o letreiro, o azulejo solto, o pequeno buraco no chão de nome Latour, o segundo era o Vilar, não sei por que, mas eram milimétricos e eu só os via por estarem a alguns centímetros da ponta do meu pé e eu sentado a tempo suficiente para conceder-lhes uma ontologia, cosmogonias e pequenos monólogos, e tudo isso parecia ser parte da megalomania do cubo, um grande plano, era tudo parte do grande plano, o meio-fio, o fusca em fila dupla, eu, Vilar e Latour, até a multidão que não comparecia e o grande vazio cotidiano que se instalava e que fazia notar-se o próprio cubo, todos sempre programados para preencherem nossos respectivos espaços dentro do grande plano do cubo megalomaníaco.

— São seis e quarenta e cinco. Aliás, quarenta e três.

Tyu chegaria em quantos minutos? Vilar discorria agora sobre o olfato, o menosprezo do sentido olfativo pelo mundo ocidental, essa coisa onde se pode viver muito bem sem que se cheirem flores, mofos, manteigas, o ralo, mas que

— ora, culturas inteiras se formam por aí baseadas sobre o sentido do olfato. Me parece necessário que estejamos perdendo pelo menos alguma coisa aí.

O Vilar seria capaz de grandes conversas com Tyu, disse isso a ele, Tyu se impressiona facilmente com essas histórias, odores, filosofias dos sentidos, aquilo que tocamos, que nos toca, essa coisa impressionista que não se explica. Tyu era bastante impressionista, não no sentido que se dá a uma pintura impressionista, um poema, ou uma etnografia que deixasse de lado a população guarani para discorrer sobre o próprio etnógrafo, achismos acadêmicos ou algo do gênero. Tyu era impressionista no sentido mais egóico da coisa, de que explicava pela sensação e que portanto não podia explicar,

— são seis e quarenta e cinco. Aliás, quarenta e quatro.

era composta por um grande amontoado de idéias vagas e abstratas, pôsteres na entrada do cinema, vago, meus óculos, vagos, pedaço de chão quadriculado do boteco da 209, lindamente vago. Eu olhava para o lado e via o Latour, agora calado, ruminando qualquer coisa, não pude ouvir, enquanto o Vilar continuava a todo fôlego,

— é uma outra forma de comunicação essa, isso de usar palavras, esse totalitarismo das palavras, é uma celebração bisonha do racional. Não se pode verbalizar tudo, não se pode verbalizar

Passava alguém, de longe era Tyu, os cabelos encaracolados presos, a expressão ainda a se definir, o vestido, amarelo, agora mais perto, o vestido se alaranjava e o cabelo se desprendia e se encurtava, ainda podia ser Tyu, já se passavam tantos meses, porque não, mas Tyu se aproximava e se desfazia, se desmanchava como meteoro invadindo a atmosfera terrestre, se queimava com o atrito do ar, e chegava ao solo, se chegava, só como rastro, poeira cósmica, cinco bilhões de anos sopráveis. A moça de vestido avermelhado e boina na cabeça se aproximava, agora era parte do cubo gigante, se integrava à megalomania arquitetônica do projeto, preenchia e esvaziava o espaço simultaneamente, aquele vazio inelutável cujos esforços de invasão serviam-lhe somente de marca-texto. O encher, o preencher sendo marca-texto do vazio, um vazio manchado de amarelo-fosforecente, eu, Vilar, Latour e a moça agora de costas, mini-saia jeans, pedaços de vazio.

Latour e Vilar, vistos de perto, e de cima. Eram como restos de meteoro.

— São seis e quarenta e cinco. Aliás, quarenta e seis.

Latour agora se inquietava com as argumentações de Vilar, com o mundo não-verbalizável de Vilar, e que era também o mundo não-verbalizável de Tyu, esse não-mundo sobre o qual não se pode falar,

 — sobre o que não se pode falar, deve-se calar.

mas como não falar, o pôr-do-sol que avermelhava a grama do cerrado e a aspereza da parede do Instituto de Ciências Humanas resvalando contra as costas das mãos o atentavam, a árvore retorcida do jardim da Faculdade de Direito em busca do sol, o atentava, não podia, não queria, não resistia a tradução, a tentação de carregar as coisas do mundo na bagagem compacta que é a palavra, não aceitava, non, ça ne marche pas,

— sobre o que não se pode calar, deve-se falar.

A moça ou o vazio da moça observava os pôsteres que adornavam as vastas paredes de concreto do grande cubo retangular, do grande retângulo da entrada do cinema, da grande entrada do cinema cúbico. Aqui se via Grande Otelo, ali Hugo Carvana, mais para a esquerda, Dina Sfat, ao lado de Jece Valadão, e ali mais para cima acho que era Oscarito, ela agora está no Jece, anda um pouco mais, agora sim Oscarito, que olha para a nossa direção, olhos arregalados, e agora noto, todos eles, olham para a nossa direção, uns com o canto, outros de olho quase inteiro, nunca um olho completo, que olhar nos nossos olhos seria olhar nos olhos da câmera que representaram nossos olhos décadas atrás – pela imagem, preto e branco, a do Jece deve ser de setenta e pouco – e nos olhos da câmera não se olha.

— São seis e quarenta e cinco. Aliás, quarenta e oito.

Nos olhos da câmera não se olha, pensava também o Latour, agora mais calmo, agora o pequeno buraco no chão se associando com o relevo irregular do grande chão cinza, grande cinza do chão, para formar uma boca, fazer parte de algo maior enquanto Vilar ainda era o mesmo pequeno buraco. Pensava em uma imagem, grande tela de cinema, cinema grande de tela, uma senhora nordestina olhando para os olhos da câmera, encarando o Latour, no dia em que o Getúlio morreu lá na Bahia, eu fiquei cega aqui também, escancarando o Latour, ele às oito horas do dia, eu às oito horas da noite, carrega o mundo com os olhos, somente os olhos, não importam as palavras, Latour acuado na cadeira, olha para fora da câmera, desconcertado, qualquer fora, os olhos gigantes o esmagavam em toda a sua megalomania ótica que abarcava a tudo no mundo, olhos como bagagem compacta para as coisas do mundo, e era como se tudo estivesse lá para aqueles olhos, um plano, um grande plano, até mesmo ele, Latour, e eu, e o Vilar, e a moça do jeans, todos inseridos dentro daquele grande plano, talvez por ordem do diretor, como figurantes, ou para compor o cenário, que seja, o fato é que saíam da tela, os olhos deixavam a tela no momento em que olhavam para os olhos do Latour, que eram os olhos da câmera,

— se ela não tivesse cegado, ele às oito horas do dia, ela às oito horas da noite, e por isso, não estivesse olhando para a câmera, olhava para baixo, na diagonal, para a direita, e de qualquer forma, não olhava,

e Latour se sentava confortavelmente, mais uma vez, em sua poltrona imaginária.

— São seis e quarenta e cinco. Aliás, quarenta e nove.

            ***

            A moça da mini-saia jeans e do vestido, agora roxeado, seguia caminho, agora circular, através das várias quinas do grande cubo. Talvez por circular, e por ser um cubo, toda essa subversividade geométrica da moça, e ela parecia mais ser rebatida pelas quinas, mais do que andar de fato, por vontade própria. Mais inércia do que vontade, mais vício do que inércia, mais cubo do que círculo, e pensei então em olhá-la. Mas olhá-la mesmo, diretamente na câmera, o estonteante olhar nos olhos, o esmagador olhar nos olhos, queria cegá-la, ousar cegá-la, ou a ela ou a mim, ela às oito horas do dia,

— sobre o que não se pode cegar, deve-se olhar.

eu às oito horas da noite, era quase mesmo como um desafio, retirá-la do transe, roubá-la dos olhos do Grande Otelo, agora o Oscarito, Sfat, Otelo de novo, como dar fim ao vício, dar fim ao círculo, quase uma ode ao cubo, grande, cinzento. Latour e Vilar estavam agora calados, talvez um pouco em agonia, ou por cansaço, ou por tédio mesmo.

Aliás, Latour e Vilar, vistos de perto, e de cima. Eram dois pequenos olhos.

Iria esperar para quando passasse por perto de mim novamente, teria de passar por mim, sempre passara, eu era parte do vício, do cubo, do círculo, iria passar, com o olhar perdido como sempre, ou não, talvez atento demais, procurando por algo novo, um pequeno detalhe na parede que tivesse passado despercebido nas dezessete voltas anteriores, um novo ângulo possível de quina para voltar a ser rebatida e aí sob nova forma já mais trapezoidal, ou uma falha de continuidade, um anacronismo na cena do Jece Valadão com o Carvana jamais percebido, seu olho era livre, Valadão não lhe olharia de volta, nem o Carvana, e se libertava cada vez mais, e cada detalhe era cada vez mais seu, pequenos rabiscos na parede, juras de amor escritas na década de setenta, bituca de cigarro no chão, outra, o Latour, o Vilar, e de repente eu, visto de perto, dois pequenos olhos, esbugalhados. Virei-me. Ele às oito horas do dia, eu...

 — São seis e quarenta e cinco. Aliás, são oito horas da noite.

Virei-me. Não agüentei e virei-me. Disfarcei o atentado ótico com as vestes de uma passagem de olhos, panorâmica, uma vontade súbita de absorver o todo com um rápido movimento de pescoço, 180º, ela estava no caminho, fazer o quê, naquele momento ela era tão paisagem, tão parte do todo, quanto o grande chão cinzento, o grande cubo de entrada, o Grande Otelo. Talvez ela tenha acreditado, pouco importa. Vilar estava inconformado, me berrava ao ouvido, acabava comigo. Vilar não teria se virado, 180º. Vilar não é dos que se cegam. O Vilar abre os olhos,

— sobre o que não se pode olhar, deve-se cegar.

já eu não.

            Ia tentar de novo. Décima nona volta, ela vinha, mais uma vez, círculo do cubo, passava por Oscarito, Sfat, deixava para trás o carro de pipocas – abandonado, desde o início, esteve sempre ali, só agora o notei –, outra quina, agora parecia mudar seu trajeto ligeiramente, passava mais distante e já quase não valia mais a pena, mas não interessava, olharia ainda assim, em seus olhos, câmera, e seguia caminho, a bituca, a outra, o Latour, o Vilar, e de repente eu, visto de longe, dois pequenos pontos, talvez outras duas bitucas, esbugalhadas. Não me virei. Nem precisei. Acho que não me viu. Ou me viu, como via tantas coisas, inseriu meu olhar em seu caderno de notas totalitárias do grande cubo cinzento, e tinha lá todo um inventário, bituca de cigarro, Oscarito, eu, dois olhos, às vezes grandes, às vezes pequenos, às vezes abertos, às vezes não.

            Tyu também não teria se virado. Tyu nesse sentido era o oposto de mim. Aliás, era o oposto de mim em muitos sentidos. Tyu não inventaria Latour e Vilar, nem sequer os teria notado (aliás, é interessante como não se virar não significa necessariamente notar). Teria notado o carro de pipocas muito mais cedo do que eu, isso certamente. Mas também não conversaria com o carro de pipocas, ou com o pipoqueiro, que de qualquer forma, não estava lá. De novo, e eu já disse, não palavras, imagens. O carro de pipocas de Tyu não seria dizível, verbalizável, não sairia pela boca como o meu. Seu carro seria uma cena, complexo de imagens em seqüência mais ou menos linear, antes com o pipoqueiro, depois sem, e ficaria somente ele, ali, parado, outro vazio, ilha cercada de mim, Latour, Vilar, Tyu, e a moça do vestido avermelhado, por todos os lados. E de repente se notariam sobre a prateleira do carro três pequenos sacos de pipoca, já cheios, como que prontos para serem vendidos, três sacos, e nada mais, nem dentro, nem fora dos sacos, como se fosse essa sua expectativa para a noite, público contado, éramos eu, Vilar, Latour, Tyu, a moça do vestido alaranjado, cinco no total, um ou dois sem fome, outro sem dinheiro, éramos três sacos de pipoca. E para Tyu, seria poético, não sei se um poético melancólico, ou um poético kitsch, o pobre pipoqueiro, pipoqueiro pobre e cinzento, que nem estava lá, ou um poético colorido (só agora noto que é vermelho o carro, a Tyu adora o vermelho, vermelho não é palavra, nem é dizível como palavra, gostava do vermelho como olho, vermelho como cor que olha para a câmera), mas de qualquer forma, enfim, um poético que não está nestas poucas linhas, e nem estaria em muitas, mesmo em um longo e absurdo soneto, não, o pipoqueiro não se renderia, jamais, a essa minha obsessão, esse autoritarismo da palavra que a tudo quer render, materializar, guardar em bolsos, meus ou alheios. Para Tyu, o pipoqueiro ou o carro de pipocas jamais seriam meus. A moça do vestido amarelo agora também olhava para o carrinho. Agora, de costas, parecia-se muito com Tyu. Também, já se passavam tantos meses, Tyu para mim se desmanchava, como meteoro invadindo a atmosfera terrestre. Arrisquei-me.

— Moça, por favor, você tem as horas?

— São seis e quarenta e cinco. Aliás, são oito horas da noite.

Latour e Vilar, aliás, vistos de perto, e de cima, eram crateras.

11.11.08

Informações pessoais


"Tiende a vestir de negro, de gris, de pardo. Nunca se lo ha visto con un traje completo. Hay quienes afirman que tiene tres pero que combina invariablemente el saco de uno con el pantalón de otro. No sería difícil verificar esto".

Sou do Rio de Janeiro, filho de mãe cearense com pai gaúcho, que trabalhava com análise de sistemas até ser chamado para a guerra do Golfo, de onde nunca mais voltou. Minha mãe era solteira e me criou sozinho em um casebre em Ipatinga no interior de Minas Gerais, onde em geral vivíamos de uma pequena porção de dois pães de queijo diários que recebíamos em troca de mão-de-obra em uma plantação de cana-de-açúcar, de onde fugi aos doze anos para virar trapezista infantil em um circo finlandês que fazia um tour pela região rumo a Jacarepaguá. Lá encontrei meu pai que era contador e que foi quem me ensinou várias formas de burlar a receita federal que utilizei incessantemente até os trinta e dois anos, quando fui delatado por uma garota moçambicana que conheci em um vôo para o Marrocos e com quem me casei dois dias depois, após cinco anos de noivado em que adiamos nosso casamento inúmeras vezes devido a guerra dos Bálcãs ou por causa da chuva. Fui caminhoneiro na península ibérica durante a adolescência levando carregamentos de munição bélica para uma empresa ucraniana clandestina de produção de confetes coloridos da qual minha mãe foi CEO por cinco anos e meio. Passei minha infância no norte de um país da ex-união soviética do qual agora não me lembro o nome e vim para o Brasil somente a três meses atrás, e desde então venho tendo aulas de português intensivo com enorme sucesso, praticando diariamente através de cartas poéticas que troco com uma paixão minha de Goiânia que jamais vi, e que conheci no meio de uma multidão em um concerto de Philip Glass no sul da Austrália dois meses antes de nosso primeiro beijo em um bar na beira de uma rodoviária federal ao sul do Amapá onde ela ganhava alguns trocados como vidente e previu que eu morreria de morte violenta no dia 2 de agosto de 2089 logo após terminar meu bacharel em Antropologia pela Universidade de Brasília e provavelmente por efeito de drogas alucinógenas que havia tomado na noite anterior para escrever um grande livro de 734 páginas que dedicava inteiramente a uma garota que havia conhecido em um grande jardim de pés de figo na França e que vivia de esmolas que recebia de descendentes diretos da aristocracia do Faubourg Saint-Germain e que servia para sustentar seus sete filhos e mais uma mansão ao sul do país. Passei onze anos e sete meses da minha vida alimentando-me somente de chá preto e biscoitos até que resolvi comer cinco pizzas de calabresa com anchovas sem razão nenhuma. Sou vegetariano desde que me formei em agronomia em Bratislava e desde então tenho mantido no quintal de casa uma plantação de praticamente tudo o que se pode comer e que vai até mais ou menos o horizonte ou aquela região onde a vista alcança. Uma vez fiquei sem palavras por não saber como utilizá-las se não fosse em forma de soneto. Sou exatamente quem você pensa que eu sou. Semana passada, passei cinco dias e meia hora escrevendo longamente sobre um muro de uma mansão no sul do Mato Grosso do Sul até que todas as frases estivessem sobrepostas de tal forma que formassem um imenso muro negro ônix. Um dia, já fui ninguém, por quatro ou cinco horas, até que isso passou e agora só volta esporadicamente, quando esqueço de me medicar. Passei vinte e poucos anos, ou foram trinta, isolado no topo de uma montanha muito muito alta em um cume nevado ao leste de um desses países de forma trapezoidal para filmar um documentário sobre o restante do planeta e a vida de todos os seres humanos, a exceção de uma pessoa no centro-oeste brasileiro sobre a qual nada sei. Desde que voltei, tenho trabalhado em uma fábrica de barbantes coloridos no noroeste do Chile a cinco pesos e meio por mês onde passo o tempo conversando com uma operária equatoriana sobre os últimos desdobramentos do movimento de translação de Óreon em relação a via láctea e desde então tenho tentado com pouco sucesso saber mais detalhes de sua vida pessoal fazendo uso somente de vocabulário astronômico, dado meu conhecimento parco de língua quéchua. Fui feliz em nove de dezembro de 1952, mas desde então isso tem sido raro. Trabalhei como secretário de Lech Walesa na Polônia e escrevia todos os seus discursos e falas desde os seus sete anos de idade até ser demitido por deixar mensagens subliminares sobre mim mesmo em meus próprios discursos e que levariam a um golpe estatal meu sobre a minha pessoa. Recebi ontem a penúltima edição do Correio Braziliense antes do fim da série, mas já imagino que o mocinho morra no final. Passei a infância assistindo televisão no canal de teste de cores todas as manhãs antes de ir para a escola e desde então tenho dificuldades para respirar quando não estou diante de um arco-íris. Um médico neozelandês detectou em mim uma doença congênita que me levará a morte em cinquenta e oito anos pelo excesso do uso de vírgulas no meio das frases. Trombei contigo hoje no café da manhã, por isso a mancha na sua blusa. Cursei artes cênicas na Bélgica por sete anos e cheguei ao auge da minha carreira participando dos três filmes da trilogia das cores do Kieslowski fazendo o papel da idosa que era incapaz de jogar o lixo no lixo durante o curto período de cinco segundos em que aparecia, sendo que cerca de 203 pessoas no planeta tomaram conhecimento de que a cena se repetia nos três filmes, isso ao menos de acordo com os dados atualizados até ontem. Faço bolinhas de papel e jogo para o alto para saber aonde vão cair, às vezes provocando acidentes aéreos como os da semana passada, que deixaram três milhões e meio de mortos e uma pessoa se molhando apesar do guarda-chuva, mas parece que ela não se importa. Minhas canetas costumam secar antes que a tinta acabe. Neste instante há uma parede branca em minha frente. Não sei o que há atrás de mim, mas vou olhar.

23.10.08

A chuva ou o que se vê entre pessoas e um toldo verde

"Vos no elegis la lluvia que te va a calar hasta los huesos quando salís de un concierto".

Tem essa figura que me atormenta hoje já a horas, um casal ou seriam talvez só amigos, não sei, estão de mãos dadas, pressuponho que sejam um casal, um casal e um toldo, desses verdes de padaria em que não se entra para comprar pão pois nem se sabe que a padaria está lá, o cheiro do pão não se desprende e flutua com o ar àquela hora da tarde e de qualquer forma, só estão ali pelo toldo. E a chuva. Que chove. As pessoas que andavam calmas, lentamente pela praça - agora vejam só que percebo que a tal imagem se dá perto da Praça da Sé, que a chuva também molha o Viaduto do Chá e os chafarizes que bom, sempre molhados, chovem para cima e para baixo em conformismo - agora mudam de passo, e se apressam e correm como se todos estivessem atrasados ou se a chuva molhasse os minutos e agora, com vinte e cinco úmidos minutos, mal dá para fazer seis ou sete. Mas isso eu até entendo, e perdôo, que parece que é isso que as pessoas fazem agora, nem que se perdoe com processo na justiça e indenização milionária e que em última instância seja culpa do sistema, mas perdoai-vos, eles não sabem o que fazem e agora tá ali o tempo todo molhado. Não, eles eu não culpo. Culpo os outros que já estavam apressados - ali o seu Silveira correndo com a valise preta de couro nas mãos de quase sempre, cena grotesca, o Silveira e a poça dágua, a água voando, o Silveira e as gotas dágua voando, agora eles se encontram, gotas dágua e um pouco de barro nas calças de veludo do Silveira e agora o pássaro voando assutado -, os que já estavam apressados e que agora pararam, um paradoxo, pararam, e entraram nos mercados, ali na venda de sorvetes - o Silveira pediu um de morango e baunilha agora, está se sentando mas não pegou o trocado -, outro na lotérica, não ganhou, nem apostou, tem um ali que vinha quatro, cinco passos para cada dois ou três chãos, já estava prestes a decolar, ganhando altura, o nariz embicando para o céu, e aí foi a gota dágua cair no nariz embicado que desequilibrou a coisa e que sete mariposas passaram naquele instante formando uma forma geométrica absolutamente revolucionária para as pessoas que se importam ou são formas geométricas, e que não posso descrever porque o senhor do vôo abortado preferiu o chão, e depois a padaria aqui atrás do nosso casal, ou talvez tenha simplesmente adotado o toldo verde.

E a rua enfim ficou vazia.

Parece que agora sou eu quem tem que escrever sobre isso. Bom, o que posso falar do toldo verde é isso, que está manchado, ali quase na ponta esquerda tem um buraco de onde agora a chuva se cachoeira, agrupamento de gotas este que chocou deveras os poucos focos de resistência da secura local que ainda lá restavam, e na outra ponta tem uma beira de toldo que costuma passar o tempo, quando não colhe esses derramamentos esporádicos de céu, segurando folhas secas que se jogam de quando em quando de uma árvore de lá de cima que de vez em quando caíam e era de tanto bater e se esfolar contra o toldo azul escuro do quinto andar.

Dizem aliás que uma imaginação absurda e ainda inexistente desse lado de cá do universo, quando fosse juntar esses quandos de folhas secas caindo com outros quandos duas semanas depois de outra folha seca caindo, e assim por diante de quando em quando, teria uma percussão absolutamente aleatória de sons que se encaixariam em algumas músicas do segundo álbum do Velvet Underground, principalmente a dois e a sete.

Claro que agora são folhas molhadas.

Debaixo do toldo, tem duas pessoas. O outro senhor definitivamente preferiu a padaria e os pães da padaria, e o pacote marrom papel que faz barulho de padaria.

Agora um guarda-chuva cobre as duas pessoas e não posso mais vê-las - sim, às vejo de cima, entre o toldo e as duas pessoas ou, agora, entre o toldo e o guarda-chuva. Imagino que esteja dependurado no teto do toldo, suspenso por algum tipo de corda ou algum gancho despropositado que me serviu de apoio, demonstrando uma força descomunal para um toldo que, lembrem, já estava parcialmente rasgado.

Vejo mãos se chacoalhando para os dois lados. De um lado, com uma manga branca listrada, camisa social e mãos peludas, do outro manga de moletom verde claro, pele mais escura e menos agitada e, mas agora desce de volta e já não a vejo. Suspeito que ainda sejam duas pessoas.

A chuva cai mais forte. Agora são folhas despedaçadas. 

Estou nesse momento planando sobre a rua terminantemente vazia. Ao longe uma padaria e um toldo verde e um casal que agora vem correndo na minha direção. Nas mãos um guarda-chuva, e balança de um lado para o outro. A água entra por vários furos e chove uma chuva única e personalizada, com gotas mais grossas do que o normal, mas que caem mais lentamente, em lenta câmera - vejo meu reflexo em uma delas, estou acenando, a gota me acena de volta, eu de novo, agora não mais - dando tempo para que o cérebro perceba a primeira, no ombro, agora a segunda, na cabeça, escorrendo pelos fios de cabelo e indo de encontro com a outra do ombro, agora outra por detrás da orelha do outro lado. Verdadeiro conta-gotas imaginário, uma dessas maravilhas da mente. Daqui a trinta segundos já serão dezesseis gotas. Não chuva. Gotas.

Afinal, é a contagem que separa uma da outra. Sincronia perfeita de eu com nuvem.

Não-chuva. Gotas.

Continuam correndo cada vez mais para perto de mim. Agora chegaram, passaram direto, mas ainda posso vê-los. Cada vez mais solitários e quase desaparecendo no branco de neblina que se forma mais a frente, que nem o Viaduto do Chá mais eu vejo. Vai ver já nem é mais São Paulo. Ele já desapareceu, a manga verde, a chuva, mal guardada, e que se perde por aí até o próximo colecionador passar ou o Sol.

Novamente o vazio da rua. Nem apressados, nem os mais calmos. Vários vultos preenchem os tetos. Na neblina, um casal vive provavelmente a maior emoção que viveriam pelos próximos seis meses e doze dias, além de alguns segundos.

23.9.08

O Mainá e o chinês solitário


Na China, um senhor de classe média de uma cidade de porte também médio, ao leste do país, resolveu adquirir um Mainá, ave típica local e que, dizem, consegue imitar sons tão bem quanto papagaios.

O solitário senhor, já de meia-idade, misantropo primeiro por medo de rejeição, depois por segurança, mais tarde por hábito e agora, enfim, por tradição, fazia mais uma tentativa de substituição do contato humano. Afinal, não era avesso aos diálogos. Era capaz de travá-los longamente consigo próprio. Não monólogos, diálogos, no sentido estrito do termo. Uma arte, dizia ele mesmo, que se considerava capaz de simular inúmeras personalidades dentro de sua própria mente, capazes de conversarem entre si, exporem longos argumentos e defenderem posições ideológicas inteiramente antagônicas de tal forma que ele próprio se sentia muitas vezes incapaz de tomar partido de uma ou de outra.

Agora, o solitário chinês alimentava novos projetos, especialmente depois de ter se encantado com uma conversa instigante que tivera com um pombo de rua em uma simulação inusitada que fizera em sonho, durante uma noite mal-dormida. Acordou inspirado, e desde então colocou na cabeça que não só queria, como que seria possível ensinar uma de suas personalidades, parcialmente ou por completo, a um pássaro, como quem ensina mandarim a um papagaio. Em princípio queria mesmo um pombo, que demonstraria o aprendizado através de manifestações corporais, como um bater de asas que refletisse esse ou aquele humor e, de fato demorou a ser convencido de que uma ave falante poderia se expressar com muito mais desenvoltura do que um simples pombo com gestos abstratos e uma vontade questionável de aprendizado. Contudo, como a loja de animais somente teria papagaios em duas semanas, decidiu-se enfim pelo Mainá.

Desde o primeiro dia, seu novo proprietário começara suas primeiras aulas. Teria uma personalidade semelhante à do pombo do sonho, com quem havia tido uma longa conversa sobre a filmografia de Michelangelo Antonioni. Ele falava de forma polida, mas com um orgulho de fundo que se manifestava quando se indignava com as motos demasiadamente ruidosas que entravam pela avenida vizinha e que, de meio em meio minuto, insistiam em interromper bruscamente a conversa. O plano didático incluía longas discussões com o Mainá sobre o cineasta, nas quais ele próprio faria o papel do pombo, que o Mainá deveria imitar, e Os débeis sucessos da primeira semana serviram somente para que o velho chinês intensificasse suas aulas e, ao término da segunda semana, passava quase que a totalidade de seus dias incorporando mentalmente a personalidade do pombo dos seus sonhos. 

Ao término das duas semanas, o Mainá já possuía um vocabulário expressivo. Havia praticamente se transformado em uma enciclopédia do cinema novo italiano, e estava prestes a memorizar o elenco completo de 'Blowup'. Muito mais, sem dúvida, do que poderia imaginar o vendedor da loja de animais, ou qualquer estudioso das aves que tivesse algum mínimo conhecimento das limitações naturais das aves Mainá. Mas para o solitário senhor chinês, o que se via era somente um pássaro memorizando e repetindo palavras, quase que aleatoriamente, sem se preocupar com sintaxe e muito menos com características de personalidade e, quando voltara a loja na segunda à tarde resoluto a comprar dois de quatro papagaios que haviam chegado de navio da Nova Guiné na noite anterior, teria mesmo devolvido o esforçado Mainá não fosse a recusa tão veemente do vendedor em aceitar de volta a ave, já que, afinal, não seria possível revendê-la agora como se fosse nova um animal que já tinha adquirido um vocabulário tão extenso. Aceitara enfim que teria que trazer o Mainá de volta. Porém, posto que seu entusiasmo com a dupla de papagaios agora era grande, a rejeitada ave chinesa acabou esquecida em uma gaiola improvisada com um caixote de madeira que, outrora, havia sido recipiente de frutas exóticas que trouxera em uma de suas raras viagens pelo país - de fato, para uma pequena cidade a poucas dezenas de quilômetros de onde morava - e que somente deixara na sala de estar com os novos residentes da casa por medo de acabar deixando-o morrer de fome no sótão, esquecido entre outras quinquilharias que lá guardava justamente com o propósito de garantir para si próprio que seriam devidamente esquecidas.

Ao contrário do Mainá, que do primeiro dia ao término da segunda semana de aulas sempre parecia mais fazer o tipo do aluno esforçado do que o de um estudante entusiasmado, os papagaios neoguineenses fizeram grandes demonstrações de excitação desde o primeiro instante. Falavam mais do que seu proprietário, conversavam mais entre si do que com seu proprietário e aprendiam mais um do outro do que daquilo que lhes ensinava o seu proprietário. Falavam dia e noite, falavam um na vez do outro, falavam na vez do proprietário falar, e falavam até nos raros momentos em que tentava se pronunciar o recluso Mainá, que por sua vez tentava silenciá-los com uma ou outra das muito poucas falas de Marcello Mastroianni em 'A Noite'. De fato, os papagaios mal ficavam em silêncio para comer, alternavam-se durante o sono, travavam longos monólogos consigo próprios enquanto o vizinho dormia e só se calavam realmente quando o gato de uma casa ao lado miava de fome, uma hora no almoço, outra hora no jantar.

Ao término de duas semanas de aula, o velho solitário estava exausto. Se antes com o esforçado Mainá, havia se disposto a se transformar por completo em pombo-cinéfilo pelo bem da alta educação que deveria receber a jovem ave, agora, com os falantes alunos que trouxera da Nova Guiné, já não conseguia mais ser pombo, já não era mais ele próprio, nem nenhuma de suas milhares de personalidades. Sua mente estava vazia. Ele era o que eram os papagaios. Invadiam sua mente e suas idéias com seus longos debates - que eram realmente sobre qualquer assunto que lhes desse na telha - e o velho, acostumado a longos solilóquios durante décadas de sua vida, provavelmente ouvira naquelas semanas mais do que durante a vida toda. Mal conseguia dormir, e nos curtos silêncios provocados pelo ruidoso gato da vizinha, ele próprio preenchia o vazio de sua mente, como que por inércia mental, com reproduções das conversas de seus animados colegas de apartamento. Sua fadiga a essa altura já era tal que, no primeiro dia da terceira semana de convívio com os papagaios, as nove e quarenta e cinco da manhã, não teria notado nada de estranho no silêncio da casa com o miar de todos os dias, e nem teria percebido que ele já perdurava muito além da normalidade não tivesse sido capaz de estranhar, algumas horas depois, a existência de um segundo miado. Como se retornasse a uma consciência própria pela primeira vez após três semanas, notou surpreso que ainda era pouco mais de meio-dia, e que o primeiro miado havia começado horas antes do que seria o já habitual miado da hora do almoço. Enfim, percebeu que um dos miados era mais forte. Vinha de dentro da casa. Tentou então aproximar-se, aguçando os ouvidos. No caixote de madeira velho, estava lá o jovem Mainá. Tinha os pêlos assanhados de muitas noites mal-dormidas. Nos olhos, trazia um certo tom avermelhado, que um bom veterinário poderia identificar como se tratando de algum tipo de irritação causada por um longo estresse mental. Com sua voz, imitava o miado do gato com uma perfeição que enganara até mesmo a dona do animal na casa vizinha, que estivera a beira de dar-lhe comida antes da hora, e somente se conteve ao ver que o tal ainda dormia, quieto em seu canto, voltando aos seus afazeres maldizendo os maus hábitos dos gatos alheios. Os papagaios, por sua vez, mantinham-se em silêncio religiosamente como que em respeito sacro ao canto de martírio que parecia não mais se cessar. O Mainá sustentou o quanto pôde o miado que se esforçara por memorizar no decorrer de duas longas semanas. Mal se lembrava do que havia aprendido em suas aulas de cinema italiano, provavelmente jamais voltaria a falar em Antonioni ou Mastroianni e apenas esperava que o silêncio, que agora cantava com a própria voz, se prolongasse para além de suas forças para continuar miando, e que pudesse ainda reverberar por um longo tempo pelas paredes da casa, do caixote de madeira, e das jaulas luxuosas de metal dos dois papagaios neoguineenses.

26.11.07

Carta para o outro lado

"Ça fait des siècles que j'attends le vent du desèrt et la pluie..."

Não sei bem como foi, se foi o ar, mas acho que não porque tenho estado cheio dele nos últimos tempos e já mal posso cheirá-lo, não sei, como se eu tivesse cansado dessa coisa toda da respiração. Quando muito respiro pela boca, para enganar os transeuntes e fazer como se ainda me importasse com brisas e ventanias dentro de mim.

Então não, não foi o ar, foi outra coisa, talvez a grama no caminho para a faculdade que me pareceu verde demais, e então veio a idéia de tinta, aos montes, um caminhão de tinta verde como que passando pela rua na surdina da noite e transformando um quadrado de grama meio desbotada, amarelo-outono, outono-quebradiço, em verde-demais. Aliás, vai ver que nem era grama, era cimento que eu, com minhas memórias facilmente perturbadas pela vontade de ver essas coisas, acabou que troquei pedra por mato e se bobear ainda confundo cidade com zona rural e aumento os índices de êxodo urbano em alguma estatística que estará no telejornal local daqui algumas semanas em horário nobre, porque é disso que se gosta hoje em dia, de estatísticas, essa matéria estranha que dá nas pessoas a sensação de que algo que se vê ainda é real. E aí penso que é um mundo estranho esse, de pedras, falso, grama, falso, torre da igreja, falso, poça de água com pomba no meio, falso, jornal atirado no canto da rua como se rua tivesse canto, falso, mosquito que faz barulho no ouvido a noite quando quero dormir e nem lembro que canto de dia quando ele nem tem ouvido para apreciar, falso, porcentagem com número do lado e uma barra vertical roxa ao lado de outra verde, ah, sim, verdadeiro. Apesar de que acho que hoje em dia, nem isso mais serve pra suprir nossa dose diária de realidade.

Talvez uma buzina de carro. Berros em geral são reais. Ao menos, enquanto duram.

Mas também não foi uma buzina até porque realidade não poderia fazer esse tipo de coisa comigo, e a grama ou concreto que era verde-muito na verdade eu já nem me lembrava e lembrei agora só para ter algo para escrever e poder negar depois que não, não era. Acho que essas coisas acontecem como que assim mesmo, como se pega uma gripe por um ar que entra onde não devia ou um nariz que tromba com atmosfera dura demais e se a atmosfera não cai no chão, cai o nariz. Daí que não respiro mais, só pra disfarçar, de vez em quando, no metrô ou no ônibus, esses lugares mais cheios de gente. E com a boca. Mas sim, como uma gripe, ou mosquito que entre bilhões de pessoas pousa exatamente no seu braço, ou entre infinitos mosquitos do mundo, é justamente aquele com corpo marrom escuro, quase preto, e asa que bate tão rápido que você quase não vê, esse justamente que tromba com seu braço, ou perna, e às vezes até no dedo do pé. Enfim, acho que se você tivesse lançado uma garrafa no mar, ou no Tejo, dessas com bilhete dentro, avisando do seu naufrágio, que Santa Cruz afundava por ser mais pesada que a água, ou porque debaixo de Santa Cruz não tem água mas sim uma grande corrente de ar, porque um gigante paleolítico sopra com todos os seus pulmões a milhões de anos para deixar Santa Cruz flutuando. Ou então que Santa Cruz agora é mais leve mesmo que o ar e por isso voa, e por isso você lançava a garrafa ao mar ou ao tejo, ou ao ar, ou mesmo nas mãos do gigante, e ainda assim haveria uma chance maior de ter feito tudo isso se desencadear do que do jeito que foi, se bem que não sei bem como foi.

Sei que as coisas se somaram, e é capaz que nem acontecesse desse jeito se eu não tivesse encontrado a duas horas atrás em um café com uma moça que tocava na caixinha um samba antigo qualquer, desses que nunca se ouviu mas que ainda assim te fazem lembrar e viajar em uma pequena e insatisfatória overdose, ou underdose, se existisse, de nostalgia. E certamente não teria acontecido se não fosse o flamenco esforçado do rapaz que tocou para nosotros no alto do mirante que fica perto da Mesquita Mayor, ali em Granada, e que a corda até arrebentou no meio junto com o som, mas não chegou a arrebentar o flamenco que correu o resto que tinha que correr e chegou sôfrego e quase num fôlego só, ou numa corda só, até o final, que eu nem sei como foi direito que cientistas provam que é fisicamente impossível flamencos correrem tanto com uma só corda e não virarem outra coisa. Mas esse correu, fazer o quê. E no fim virou quase que sinfonia, pois que a corda continuava correndo e fazendo o flamenco seguir, enquanto três gaivotas que voavam por ali perto cantaram simultaneamente com três vozes levemente distintas no momento em que era para a corda soltar um ré-bemol e não ia conseguir, e com as gaivotas saiu até que algo mais ou menos isso, um pouco desafinado mas ninguém reparou. Um senhor sentado para o canto do mirante tentava dormir e se incomodou com um mosquito que lhe zumbia o ouvido, talvez o mesmo de antes com o qual eu poderia ter trombado, e tentando apanhar-lhe com as mãos fez ruído de palmas que os outros confundiram morte de mosquito com flamenco e acompanharam o ritmo. E algumas pessoas que tropeçaram no degrau da escada fizeram o sapateado que durou tempo o suficiente para que eu possa ao menos chamar aquilo de flamenco. Que se fossem só duas pessoas tropeçando, ou se a estátua fosse de um mouro ou uma árvore, já estaria mais para rumba ou salsa e olhe lá porque seria dessas variações modernas sem nenhum respeito à tradição do povo andaluz.

Sem isso, te garanto que não teria acontecido. E é uma pena que acabe tão rápido, e que mundos tão grandes acabem como se muda de assunto, como se agora eu quisesse falar de outra coisa. Mas acho que nem quero. É que quando eu falo demais, você fica assim, calada, em silêncio, ou em Violeta Parra ou em Mercedes Sosa, porque contigo jamais é realmente silêncio e sempre tem algo no lugar, e que só se cala quando você resolve falar de novo, ou mudamos de assunto de novo, e você vem com duas ou três frases, às vezes menos ou mais, fala em agonia ou em casa, e uma coisa leva a outra e subitamente já tem um caminhão de tinta verde andando pelas ruas de Lisboa, de novo, no meio da noite, fazendo o concreto desabrochar.

30.7.07

A culpa, a preguiça, a pressa e o pé


Engatei a marcha à ré do carro mais ou menos no mesmo instante em que ele se aproximou, provavelmente porque seu passo para frente era meu olho cada vez mais fixo no retrovisor. Queria me obcecar pelo retrovisor mas não conseguia, então parei para olhar em seus olhos, bom, quase em seus olhos, um pouco mais para o lado inferior esquerdo dos seus olhos, entre o nariz e parte do lábio superior. E foi minha primeira derrota do dia. Quando os olhos têm medo, pulam de cima de um precipício e se fecham de vez em pálpebra corrida. Mas quando são covardes, esses só descem um ou dois degraus e se fingem de olhos abertos. Ali, entre o nariz e parte do lábio superior.

E nem foi por muito tempo. Só o suficiente para que soubéssemos um do outro. É curioso que precisemos de uma fração de segundo de olho para sabermos do outro. Achava que só precisávamos de um olho inteiro.

Disse-me com a fluência de uma palma de mão aberta que queria dinheiro. Bom, não sei dizer a bem da verdade se era uma palma de mão aberta ou uma camisa rasgada e uma barba mal-feita já que meus olhos desviaram tanto para não bater em nenhum pedaço de constrangimento no meio do caminho que acho que acabava não olhando para pedaço algum. Quando os olhos colidem com pedaços de constrangimento, eles amassam a igualdade. Ou o que tenta se parecer com ela, como pedestre que buzina ou poeta que tem ouvidos. Mas que queria dinheiro, não nessas palavras, queria.

Não sabia se dava. Nessas horas, sempre me perco na trifurcação confusa da culpa, da preguiça e da pressa. Na pressa, deixei minha dúvida para ser resolvida enquanto pegava a carteira, para se fosse o caso. Na preguiça, a carteira já estava na minha mão, demais para ser à toa. A culpa, guardei na carteira no lugar das moedas, pra quando precisasse. Mas foi só quando abri o vidro que percebi que a igualdade já tinha se perdido por aí há muito tempo. Os muros de vidro nós só vemos quando estão na forma de cacos.

Não. Igualdade é pé. Engatei a marcha à ré de novo e foi mais ou menos no mesmo instante em que ele resolveu falar, provavelmente porque o muro para ele ainda era de vidro. Antes de ser pé, aliás, igualdade é troca. Troca de beijos por lágrimas na boca, troca dos exageros disfarçados de intimidade por provérbios disfarçados de conselhos, ou do fogo do isqueiro trocado por palavras de cigarro e fumaça de conversa. No caso, ele achou mesmo que podia trocar um punhado de moedas e de pedaços de olhos entre o nariz e parte do lábio superior que eram quase olho, por palavras. O senhor do cigarro me devolvera o fogo do isqueiro na forma de comentários sobre o programa de pós-graduação em Direito de uma universidade particular e de críticas à falta de uma filosofia jurídica séria e de respeito na academia. Achara que era demais e retornara-lhe o troco balançando a cabeça distraidamente.

O problema de se devolver em palavras é o mesmo daquele do devolver em presentes. O risco de entrarem por um ouvido e saírem desembrulhados. Ou estaríamos a trocar espetáculos e não tédio, e o fogo de artifício seria qualquer coisa. O problema é que somos diferentes demais para que nossas palavras se encaixem na geometria estranha do ouvido aleatório do outro, mas não o suficiente para que o desencaixe nos surpreenda e se transforme em fantástico mundo encantado carnavalesco.

Ele, talvez por reflexo do muro de vidro, achou que meus ouvidos tinham a forma do mesmo triângulo que as suas palavras isósceles. Vai ver tinha. Disse com um sorriso no rosto, despencando olhos em todos os pedaços de constrangimento que podia.

"Andei demais hoje. Meu pé já tá até rachado. Olha só".

Olhei, com os poucos cantos de olho que ainda restavam. "Olha só". Olhei para tudo o que ainda não tinha visto direito. O rosto moreno de sol, a barba descia o queixo e chegava quase a esbarrar na camisa quase em fiapos de um azul desbotado o suficiente para contrastar com o céu. As rugas de seco nos olhos vão lhe dar um aspecto senil um dia e vai ser antes da hora. Por enquanto, o sorriso no rosto daria a idéia de um hippie tardio, se eu tivesse licença poética e alfandegária para exportar anacronismos. "Olha só". Não, os olhos jamais olham para todos os lados. Tropeçamos em um bilhão de paisagens. A cada instante. Que tipo de estética nos faz olhar para cá ou lá? Que tipo de moral? Que remorso é suficiente para que a pressa deixe de lado a pálpebra e olhe, mais e mais, achando que pode tudo ver? Qual é a culpa que deixamos de ter achando que nada fica guardado pela sombra? Muito se esconde. Até em nós mesmos. Até o Sol tem eclipses. Quem é o olho para ficar aberto? "Olha só". Flutuei do retrovisor ao tornozelo. Nessas horas, sempre me perco na trifurcação confusa da culpa, da preguiça e da pressa.

Na pressa, achei que era igualdade. Na culpa, olhar para um pé rachado se confunde com igualdade. E talvez seja, e talvez dure um ou dois segundos como um orgasmo. E na preguiça, talvez dure até mais do que tive vontade de contar.

Mas seus olhos, não. Esses, talvez na pressa, não vi. Agora, forçando a memória, só lembro do que vi uns dois degraus abaixo. Ali, como um covarde, entre o nariz e parte do lábio superior.

12.7.07

Galhos de tempo


Recebi a notícia.

Lembro que uma vez, durante uma aula, me falaram a idéia dos arquétipos, esses rabiscos de pessoas no qual podemos encaixar toda a humanidade. Costumo dizer que é o papel do intelectual esse de reduzir as grandes pedras do mundo a pedregulhos. Nas grandes pedras, se tropeça. Já os pedregulhos, esses nós os jogamos nos lagos e poças de água que acontecem de esbarrar com nossos olhares ansiosos por espetáculos. Como bons gozadores que somos, tropeçamos os lagos nos pedregulhos e rimos com seus círculos de água. Por alguns instantes, eles nos fazem acreditar no infinito. Mas dura pouco.

Se a água parada é o tédio, a onda é o fantástico. Daí os pedregulhos.

Para o intelectual, o pedregulho é aquilo que ele pode levantar. É a pedra que estava no meio do caminho mas que ele pode pegar com a ponta dos dedos e, com olhar de voyeur, observar as marcas daquilo que ela derrubou. Seres humanos, formigas ou lagos.

Não se pode estudar uma pedra sem nela tropeçar. Estudar a pedra que está no meio do caminho é ter uma pedra no meio do caminho. Intelectuais não costumam gostar da realidade. Preferem o mundo dos interruptores. Apaga-se a luz para que se acendam os arquétipos. É a saída do cientista, do filósofo e da mente distraída para o medo do fantástico que é também o medo do tédio. Para quê servem as grandes pedras do mundo quando podemos tropeçar nos pedregulhos da nossa mente?

Dizem que toda história contada, por mais torta ou gaguejada que seja, é um prédio de palavras que só pode ser construído - e, porque não, derrubado - com as mãos de oito pessoas. Minto, pessoas não, pedregulhos. Quer dizer, arquétipos. É necessário um Herói para levantar o prédio. Uma Sombra que o cegue. Um Mentor que o faça enxergar sem olhos. Um Arauto para lembrá-lo que entre cada tijolo, existe um cimento repleto de acaso e que o prédio está sujeito a cada ventania que passa. Ou que deixa de passar.

Quero falar do Arauto. O Arauto é o invasor do normal. Arromba portas de casas e de mentes. Para cadeiras, mesas, papéis e idéias, o vendaval é o mesmo. Ou pior. Não é o mesmo. O Arauto é, afinal, o homem que de tanto respirar, deixou de conformar com a idéia de ser mera fábrica de brisas. Passou a soprar. Cansado de levantar as mesmas folhas, começou a caminhar. Viaja o mundo com seus sopros. Vê graça naquilo que vôa sem saber voar. É o que o diverte. Outros preferem trotes telefônicos.

Posto de outra forma. O Arauto é aquele que conta noticias.

Eu estava sentado, estado daquele que não se conforma com o balançar constante e incerto que é o estar de pé. A sala se encontrava repleta de objetos estáticos, ocupados de nada além do seu próprio silêncio peculiar. Meu olhar estava perdido em algum ponto fixo do cenário e eu, em uma de minhas asserções sempre arriscadas a trombarem-se com as vírgulas alheias, estava prestes a admitir que se poderia viver muito bem dentro de um único e impensado quadrado aleatório de olhar. Vivia a glória de ser Deus de um único ponto.

É interessante perceber que ser Deus está acima da curiosidade de se olhar para o lado. Olhar para o lado é perder o controle. O que é o mesmo que descobrir que algo no mundo ainda pode te surpreender. Há dragões depois do ponto.

E foi sentado que recebi a notícia. Não sabia se havia entrado pelo vão da janela ou pela brecha de minhas pálpebras entreabertas, de modo que avancei rapidamente em direção de ambas para fechá-las. A notícia continuava ali, condenando-me a confundir minha ordem das coisas com a coisa bagunçada do que não é meu. Penso que foi algo parecido com o que acontece quando moscas desavisadas passam por cima dos muros que erguemos como trincheiras em uma guerra contra o acaso. Pois que é isso que faz a mosca. Lança granadas de falta de controle sobre nossos projetos arquitetônicos de bagunça planejada. Voa distraidamente e derruba distração na nossa necessidade olhar para algum lugar. Fixo. Forjando nossa onisciência.

Até a chegada da próxima mosca.

Eu, atordoado com a arrogância da invasão que não bate portas, comecei a andar. Saí pelas ruas, tomando banho de sol, chuva e de acaso. Trazia no bolso a notícia, que ainda tinha dificuldades para se acomodar com
as poltronas difíceis do resto do meu mundo de notícias velhas de revistas do ano passado. Via de um lado da calçada uma mulher, já em seus cinqüenta anos, que carregava nas mãos seus sacos de compras. Caminhava com dificuldade e não percebia que um dos potes de conserva que trazia, mal acomodado, flertava com o chão a cada passo. Do outro lado da rua, uma jovem estava sentada com o olhar de quem olha para o tempo esperado mais do que para o espaço. O olhar passava intacto pelos carros que o atropelava cruelmente a cada segundo. As mãos partiam galhos de árvores caídos, partindo com eles alguns galhos de tempo.

Quanto mais galhos de tempo você quebra, mais você se aproxima de um mundo incerto e sem galhos. Se ela pudesse, quebraria o futuro. Quem não tem o futuro, usa galhos. Com algum esforço, você pode até disfarçá-los de solução.

Continuei andando, e o chão me levou ao encontro de um pedregulho que comecei a chutar, sem pensar. Arrastei-o comigo por diversos quarteirões. Só parei quando cheguei no futuro.