26.11.07

Carta para o outro lado

"Ça fait des siècles que j'attends le vent du desèrt et la pluie..."

Não sei bem como foi, se foi o ar, mas acho que não porque tenho estado cheio dele nos últimos tempos e já mal posso cheirá-lo, não sei, como se eu tivesse cansado dessa coisa toda da respiração. Quando muito respiro pela boca, para enganar os transeuntes e fazer como se ainda me importasse com brisas e ventanias dentro de mim.

Então não, não foi o ar, foi outra coisa, talvez a grama no caminho para a faculdade que me pareceu verde demais, e então veio a idéia de tinta, aos montes, um caminhão de tinta verde como que passando pela rua na surdina da noite e transformando um quadrado de grama meio desbotada, amarelo-outono, outono-quebradiço, em verde-demais. Aliás, vai ver que nem era grama, era cimento que eu, com minhas memórias facilmente perturbadas pela vontade de ver essas coisas, acabou que troquei pedra por mato e se bobear ainda confundo cidade com zona rural e aumento os índices de êxodo urbano em alguma estatística que estará no telejornal local daqui algumas semanas em horário nobre, porque é disso que se gosta hoje em dia, de estatísticas, essa matéria estranha que dá nas pessoas a sensação de que algo que se vê ainda é real. E aí penso que é um mundo estranho esse, de pedras, falso, grama, falso, torre da igreja, falso, poça de água com pomba no meio, falso, jornal atirado no canto da rua como se rua tivesse canto, falso, mosquito que faz barulho no ouvido a noite quando quero dormir e nem lembro que canto de dia quando ele nem tem ouvido para apreciar, falso, porcentagem com número do lado e uma barra vertical roxa ao lado de outra verde, ah, sim, verdadeiro. Apesar de que acho que hoje em dia, nem isso mais serve pra suprir nossa dose diária de realidade.

Talvez uma buzina de carro. Berros em geral são reais. Ao menos, enquanto duram.

Mas também não foi uma buzina até porque realidade não poderia fazer esse tipo de coisa comigo, e a grama ou concreto que era verde-muito na verdade eu já nem me lembrava e lembrei agora só para ter algo para escrever e poder negar depois que não, não era. Acho que essas coisas acontecem como que assim mesmo, como se pega uma gripe por um ar que entra onde não devia ou um nariz que tromba com atmosfera dura demais e se a atmosfera não cai no chão, cai o nariz. Daí que não respiro mais, só pra disfarçar, de vez em quando, no metrô ou no ônibus, esses lugares mais cheios de gente. E com a boca. Mas sim, como uma gripe, ou mosquito que entre bilhões de pessoas pousa exatamente no seu braço, ou entre infinitos mosquitos do mundo, é justamente aquele com corpo marrom escuro, quase preto, e asa que bate tão rápido que você quase não vê, esse justamente que tromba com seu braço, ou perna, e às vezes até no dedo do pé. Enfim, acho que se você tivesse lançado uma garrafa no mar, ou no Tejo, dessas com bilhete dentro, avisando do seu naufrágio, que Santa Cruz afundava por ser mais pesada que a água, ou porque debaixo de Santa Cruz não tem água mas sim uma grande corrente de ar, porque um gigante paleolítico sopra com todos os seus pulmões a milhões de anos para deixar Santa Cruz flutuando. Ou então que Santa Cruz agora é mais leve mesmo que o ar e por isso voa, e por isso você lançava a garrafa ao mar ou ao tejo, ou ao ar, ou mesmo nas mãos do gigante, e ainda assim haveria uma chance maior de ter feito tudo isso se desencadear do que do jeito que foi, se bem que não sei bem como foi.

Sei que as coisas se somaram, e é capaz que nem acontecesse desse jeito se eu não tivesse encontrado a duas horas atrás em um café com uma moça que tocava na caixinha um samba antigo qualquer, desses que nunca se ouviu mas que ainda assim te fazem lembrar e viajar em uma pequena e insatisfatória overdose, ou underdose, se existisse, de nostalgia. E certamente não teria acontecido se não fosse o flamenco esforçado do rapaz que tocou para nosotros no alto do mirante que fica perto da Mesquita Mayor, ali em Granada, e que a corda até arrebentou no meio junto com o som, mas não chegou a arrebentar o flamenco que correu o resto que tinha que correr e chegou sôfrego e quase num fôlego só, ou numa corda só, até o final, que eu nem sei como foi direito que cientistas provam que é fisicamente impossível flamencos correrem tanto com uma só corda e não virarem outra coisa. Mas esse correu, fazer o quê. E no fim virou quase que sinfonia, pois que a corda continuava correndo e fazendo o flamenco seguir, enquanto três gaivotas que voavam por ali perto cantaram simultaneamente com três vozes levemente distintas no momento em que era para a corda soltar um ré-bemol e não ia conseguir, e com as gaivotas saiu até que algo mais ou menos isso, um pouco desafinado mas ninguém reparou. Um senhor sentado para o canto do mirante tentava dormir e se incomodou com um mosquito que lhe zumbia o ouvido, talvez o mesmo de antes com o qual eu poderia ter trombado, e tentando apanhar-lhe com as mãos fez ruído de palmas que os outros confundiram morte de mosquito com flamenco e acompanharam o ritmo. E algumas pessoas que tropeçaram no degrau da escada fizeram o sapateado que durou tempo o suficiente para que eu possa ao menos chamar aquilo de flamenco. Que se fossem só duas pessoas tropeçando, ou se a estátua fosse de um mouro ou uma árvore, já estaria mais para rumba ou salsa e olhe lá porque seria dessas variações modernas sem nenhum respeito à tradição do povo andaluz.

Sem isso, te garanto que não teria acontecido. E é uma pena que acabe tão rápido, e que mundos tão grandes acabem como se muda de assunto, como se agora eu quisesse falar de outra coisa. Mas acho que nem quero. É que quando eu falo demais, você fica assim, calada, em silêncio, ou em Violeta Parra ou em Mercedes Sosa, porque contigo jamais é realmente silêncio e sempre tem algo no lugar, e que só se cala quando você resolve falar de novo, ou mudamos de assunto de novo, e você vem com duas ou três frases, às vezes menos ou mais, fala em agonia ou em casa, e uma coisa leva a outra e subitamente já tem um caminhão de tinta verde andando pelas ruas de Lisboa, de novo, no meio da noite, fazendo o concreto desabrochar.

2 Comments:

Blogger Luiz Felipe Leal said...

mais uma prova de que nossos dias são degraus. que não obrigatoriamente nos levam pra cima.


"mundos tão grandes acabem como se muda de assunto"
é.





abraços.

17 setembro, 2008  
Blogger Jéh.*~ said...

R.,

ai, céu... e eu supostamente não devia chorar... obrigada pelo lápis gasto no rabisco, serviu para lembrar (outra vez) onde me guardei. já não enxergava mais o invisível...

e as asas, as asas... estavam num enquanto de espera por suas palavras que planam. e como planam. dizem que têm andado perdidas, desde que deixaram sua palma, tentavam encontrar a visão irreal. em vão. só a pálpebra originária a guarda nesta íris do mundo.


um tinteiro,

J.

21 outubro, 2008  

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