<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962</id><updated>2012-02-16T23:49:10.294-02:00</updated><title type='text'>A Pálpebra</title><subtitle type='html'>Adesivo anti-realidade.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>28</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-4713181007793395070</id><published>2010-04-11T00:16:00.005-03:00</published><updated>2010-04-11T00:29:18.456-03:00</updated><title type='text'>Primeira tentativa de controle do tempo</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/S8FBJU02VGI/AAAAAAAAADU/tbdFrYa-MiM/s1600/Clipboard02.jpg"&gt;&lt;img style="display: block; margin: 0px auto 10px; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 213px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/S8FBJU02VGI/AAAAAAAAADU/tbdFrYa-MiM/s320/Clipboard02.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5458715851814753378" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O tempo passava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria ouvir um relógio, para ouvir o tempo passar. É difícil acreditar em um tempo que passa, assim, em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procurei ao meu redor, mas não encontrava nada. A praça estava deserta. Não usava relógios de pulso desde que entrei na faculdade, me apertavam, atrapalhavam o sangue que queria passar, que passavam nervosamente pelas veias do meu corpo nos momentos de angústia, e que passavam nervosamente pelas veias do meu pulso quando a angústia me fazia importar com os momentos, e com o tempo, e com o relógio, que então, justo quando sua existência era devidamente lembrada, mais apertava meu já apertado pulso, mais obstruía minha já obstruída existência. E então me livrei do tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não, só me livrei do relógio, não me livrei do tempo. Ainda que a tentação de confundir ambos seja grande, essa vontade de substancializar o tempo, poder pegá-lo em mãos, fazê-lo andar, e parar, e andar, e parar, e andar, lentamente às vezes, com passos estrondosos em outras, como uma marionete, e eu tivesse em uma das mãos uma corda para puxar os minutos, outra para puxar as horas, outra para os dias, outra para os instantes, outra para o esquecimento, outra para a angústia, outra para as minhas mãos no corpo de Tyu, outra para os braços, outra para a cintura, outra para as suas pernas, brancas, sempre um tanto avermelhadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Roca enfim jogou, meteu um cavalo na lateral atacando o meu bispo. Não era nada grave, eu tinha um bispo na proteção do próprio bispo, e o único problema era ficar com o primeiro bispo preso na defensiva. Éramos os únicos na praça naquela tarde e o céu, cinza, daqueles bem cinzentos – fitei-o por um instante, tinha cor de piche aquele cinza, parecia uma rua, larga, muito larga, e aquela idéia me passou um sentimento confortável, um sentimento de solidão, de solidão fácil e confortável – aquele céu queria desabar, e deixava isso bastante claro. O Roca também sabia disso, ainda que não chegasse a olhar diretamente para o céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei a notar o rosto do Roca. Estava crispado, a tez rígida, bastante rígida, os olhos concentrados com uma concentração quase mórbida, os olhos focados sobre todas as peças ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo talvez não estivesse olhando para peça alguma, seus olhos se equilibrando entre o tudo o nada, ora pendendo para um lado, ora para o outro, ora parecendo vivos, ora parecendo mortos, e afinal, era uma linha tênue. Dei para me irritar um pouco com aquilo, com aquela visão de um Roca que parecia nada ver, nada querer, e a própria associação daquela imagem com a idéia de um Roca morto, daquela estátua de Roca, tornada monumento em uma praça vazia e quase debaixo dágua, aquilo tudo me incomodava, quase que fisicamente ainda que não chegasse a sê-lo, como se minha mente se esforçasse por sabotar meu estômago para justificar para mim mesmo a náusea que eu próprio já sentia com ou sem estômago. Pensei que poderia simplesmente me levantar, sair dali, poderia caminhar um pouco pela praça, erguer os olhos para aquele céu de chumbo, flanar com as nuvens ao invés de flanar com os humanos, para variar, e de qualquer forma era uma idéia que me agradava. E de qualquer forma o Roca provavelmente não notaria. Parecia que poderia permanecer ali, estático, por dias e dias, como se pertencesse àquele banco de pedra, como se sempre tivesse pertencido, como se o próprio movimento de Roca instantes atrás, movendo seu cavalo para atacar meu bispo, até aquele movimento parecia ter sido feito de um não-movimento, era um movimento paralisado, inconcebível, afinal, tratando-se de uma grande pedra, ainda que humana, e posto que humana, e posto que pedra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao mesmo tempo, havia algo naquilo tudo que também me prendia, que me segurava àquele banco, e de tal forma que me fazia perder qualquer vontade de me levantar, como se fosse um esforço exagerado aquele de me levantar, romper com aquela mesa, deixar Roca ali parado. Claro, eu teria de me explicar depois, isso é fato, o Roca invariavelmente ficaria chateado, e conhecendo o Roca era capaz de ficar sem falar comigo por semanas e semanas a fio. E em geral eu preferia evitar esse tipo de problema, principalmente depois do episódio do aniversário do Roca, e principalmente depois do banho que deram no Roca, de roupa e tudo, na própria piscina, da própria casa. Não seria eu quem iria atiçar o seu temperamento de novo, certamente que não. Mas havia algo mais, maior do que qualquer medo de romper com regras de conduta social, maior do que o episódio da piscina, Roca saindo encharcado, bufando e espirrando ao mesmo tempo, maior do que o meu próprio peso sobre a Terra, e que talvez fosse até a somatória de tudo isso junto, mas que ainda assim fazia algo maior, diferente. Uma espécie de alegria me contagiava por dentro, uma quase alegria, mais letargia do que alegria, uma sensação de que tudo estava bem como estava, e de que as coisas, mais do que em qualquer outro momento da minha vida recente, estavam todas em seus devidos lugares, e que qualquer movimento em falso, qualquer tentativa de ajeitar a bunda dormente naquele banco duro, qualquer gota de chuva que enfim se desprendesse, e enfim se arremessasse, e enfim se espatifasse, contra mim, contra a mesa, estaria também contra essa alegria do mundo que eu – ao menos era o que parecia – parecia ter encontrado. E isso não podia, não deveria acontecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roca tinha um rosto um tanto cinzento e que naquele momento já parecia se confundir com o céu. Parei meu olhar sobre o Roca. Tanto o Roca quanto o céu se pareciam de alguma forma com tempestades, e era sim pelo cinza que os recobria, sem dúvida, mas também não era só pelo cinza. Parecia que era Roca que podia chover a qualquer momento, e não o céu, ou talvez ambos, ao mesmo tempo, realizando uma proeza, uma perfeita sincronia entre ser humano e cosmos, quem sabe. Notei-lhe a barba sólida, não tão densa, até razoavelmente rala, alguns diriam que mal cuidada, mas ainda assim, sólida. Tinha uma dessas aparências de homem sobre quem se pode dizer que parece ser sujo e elegante ao mesmo tempo, maltrapilho e garboso, ou alguma outra dessas estranhas dualidades que por alguma razão parecem bem caber a alguns homens. Meus olhos agora conseguiam descansar confortáveis naquele rosto petrificado, sem vida do Roca, sem paisagem que lhe servisse de plano de fundo, sem uma brisa que batesse em meus olhos e me acordasse, ou que passasse pelo Roca, pelos compridos cabelos encaracolados do Roca, e lhe dessem vida novamente, como que lhe tirando de um sono profundo, perturbando um momento sagrado, there are some holy moments and there are some moments that are not holy, right? Right, Caveh, right. Talvez fosse isso afinal, essa alegria, essa letargia que me tomava, que me prendia ao banco de pedra da praça, meus olhos se vidravam no nariz sarcástico e cinzento do Roca e eu vivia um momento sagrado. Mas como eu poderia ter sido tomado assim, de súbito, por esse momento? O que havia naquilo tudo, naquela cena patética e exageradamente longa, para torná-la um momento sagrado? Não havia nada. Eu parado, o Roca parado, a mesa de xadrez, parada, meu bispo, parado, se defendendo do cavalo, parado, uma pequena praça no meio de uma quadra residencial, parada, parada, e vazia. Parecia que o Roca ia dizer alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não disse. E talvez fosse mesmo isso, esse silêncio monstruoso de existências o que tornava sagrado aquele momento, e que me preenchia por dentro de alguma forma, algo como um orgasmo em formação, paralisado antes do êxtase, durante o êxtase, naquele exato momento em que o orgasmo ainda não é orgasmo, em que a idéia ainda não é idéia, aquele momento entre a surpresa com a visão deslumbrante de um pôr-do-sol inesperado e a sua consciência que imediatamente sabota a paisagem com a sua própria experiência, como se a lembrança de outros sóis que se puseram, de outras garotas de saia curta correndo descalças pelo calçadão, das pernas vermelhas de Tyu, como se a lembrança da repetição, ainda que da fração de segundo anterior, transformasse todas as frações de segundo subseqüentes em uma espécie de quase-experiência, sub-experiência, em que o momento já não é mais do que uma espécie de pomposa ferramenta – cronoalicate, ou momento de fenda, me diria o Roca, se falasse – de reprodução tosca de um instante original, autêntico, que já passou. Tão rapidamente que mal se fez notar. Mal existiu. Em toda a sua grandiosidade, os grandes momentos afinal, mal existem. Como quando fui com Tyu caminhar pela praça da reitoria, pelos corredores bem jardinados que circundam a área privilegiadamente romântica da reitoria, desde que os casais que por lá se aventurassem se prestassem ao exercício de abstração da presença pesada, burocrática, daquele odor de fotocopiadoras e de ácaros que a reitoria exalava. Lembro de quanto nos sentamos em um gramado, e devemos ter conversado sobre qualquer coisa antes que eu falasse algo sobre minha paixão por Tyu, meu coração palpitante por Tyu naquele momento, debaixo de palmeiras troncudas, cercado pela grama bem feita como raramente se via pelos pátios universitários, sob um céu que muito queria trovejar, de um dia que muito queria se acabar, de uma Tyu que não sabia o que dizer e que tinha que dizer algo, logo, que tudo ao nosso redor parecia ter pressa, como se tudo, esse tudo inventado pela mente em momentos mais conspiratórios – tudo é muito confuso, tudo é muito confuso, me dizia Tyu, Tyu com as pernas enroladas no lençol –, como se tudo tivesse para onde ir, para onde correr – talvez tudo para Tyu fosse uma espécie de cosmologia, uma noção holística de amor que fazia com que tudo pudesse se confundir, se misturar com nós dois, como se tudo nos causasse. E contra tudo, parecendo ter tomado alguma decisão, nem que fosse a decisão de que não saberia que decisão tomar, não naquele momento, a cabeça de Tyu resignou-se ao meu ombro. Sim, talvez aquilo tenha sido um momento sagrado, Caveh. Aquela sensação do calor súbito do rosto de Tyu sobre o meu ombro, os cabelos de Tyu se balançando contra o meu rosto. Aquilo era sagrado. But who can live that way?, me perguntaria o Caveh com seu entusiasmo pessimista de sempre. A cabeça de Tyu começou a pesar. O vento frio me deixava desconfortável. O silêncio de Tyu começou a ficar longo demais. Os trovões não respeitavam nosso silêncio reverente – reverente ou medroso, perguntaria o Roca, reverente ou medroso. Tudo estava contra nós Tyu, tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas agora meus olhos estavam presos aos olhos de Roca, depositados em Roca, nos olhos claros de Roca, quase cinzas, quase brancos, quase transparentes de Roca. Aquela sensação de alegria que me contagiava por dentro, aquele orgasmo que me acometia parecia agora começar a me sufocar, me doía, me dificultava a entrada de ar. Tentei puxar o ar para dentro com toda a força, mas o ar não veio, como se também estivesse preguiçosamente, letargicamente descansado em seu próprio banco de pedra, em sua própria partida de xadrez, defendendo o seu próprio bispo, sabe-se lá de qual cavalo. Desisti do ar. Senti que já não me importava mais tanto com o momento, sagrado ou não, e que agora simplesmente esperava, esperava por alguma coisa. Comecei a pensar, enquanto esperava, naquilo que havia pensado em relação a Tyu. Que talvez essa coisa de silêncio reverente – reverente ou medroso, me repetiria o Roca, podia quase ouvi-lo – talvez não fosse nem reverente nem medroso, ou talvez até fosse, um pouco dos dois, mas a questão não era essa. A questão era que talvez se pudesse inverter um pouco a ordem das coisas, não era a reverência que criava o silêncio, mas o silêncio que criava as reverências, e portanto, também a sacralidade, das coisas, dos momentos. De tudo. Em outras palavras, o sagrado poderia ser simplesmente aquilo perante o qual não sabemos, nem temos, o que dizer. Acontece quando uma coisa é maior do que quaisquer palavras que passem pela nossa mente (comecei a achar a idéia um tanto ingênua nesse ponto, estou prestes a afrontar os sagrados alheios, quase abortei o pensamento, acabei seguindo por curiosidade, o importante não são as idéias, o importante é ver para onde as idéias vão, os fins justificam os meios, ao contrário do que acontece no mundo real, na práxis, onde as coisas são mais irreversíveis do que no mundo das idéias; pense cinco mil vezes antes de falar, cinco mil vezes), mas poderia ser também quando nossas palavras são fracas demais para que valha a pena que preencham o momento, ou ainda, que diante de um momento gigantesco, tenhamos palavras ainda maiores e que não possam ser caladas, e que o momento tenha que reverenciar nossas palavras. E se for assim, muitos dos que foram momentos sagrados poderiam tê-lo sido – e isso se perceberia após uma detalhada revisão das sacralidades de um passado recente – somente pela falta de habilidade com as palavras de uma platéia que se calou perante este tão aparentemente notável momento. Talvez eu simplesmente tenha ficado sem saber o que dizer quando Tyu deixou sua cabeça pender sobre meu ombro, mas então ao invés de me sentir simplesmente embaraçado pelo nervoso silêncio que me tomava a voz, tomei o silêncio como um ato de submissão àquele momento, àquele instante que se mostrava maior, muito maior, do que eu mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora estava parado, inerte a olhar o Roca, e isso que o Roca até agora há pouco me provocava náuseas. Agora me provocava essa estranha plenitude, e agora novamente já era plenitude e náusea ao mesmo tempo, pensei que talvez ainda estivesse sufocando, talvez devesse mesmo me levantar, ainda precisava de ar, ainda precisava de ar, ar, ar, ar, ar. Mas algo em mim não se importava muito com isso. Algo em mim se deixava sufocar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez seja isso mesmo Caveh, talvez o momento sagrado seja mesmo desistência, uma preguiçosa desistência perante tudo. Tudo, e tudo é tudo mesmo, o ar mas não só o ar, o chão mas não só o chão, o bispo mas não só o bispo, e só restava a gravidade, o banco de pedra que coincidentemente teve de arcar com essa desistência, os olhos do Roca, que estavam lá, simplesmente, estavam lá. Dexistência. Na realidade, agora que digo isso tudo, já não me parece que o Roca esteja lá. No lugar do Roca vejo no máximo uma silhueta esbranquiçada, confusa, indefinida, uma espécie de mancha pesada sobre o banco de pedra a minha frente. Tento forçar os olhos, como se pudesse penetrar, perfurar a realidade, essa cortina estranhamente branca que me esconde o Roca, sei que o Roca está ali, sempre esteve. Me senti tomado por uma angústia gigantesca, me sentia esvaziando, o momento se esvaziava, não somente o Roca, não, não somente. Tentei resgatar o Roca, a imagem do Roca na memória, talvez pensando que poderia transportá-lo diretamente, como em um transplante de imagens, de mim para o não-mim, esse estranho exorcismo da memória. Mas a imagem de Roca já não se formava nitidamente em minha mente, se desmanchava, e parecia se desmanchar mais quanto mais eu tentava lembrar, como se eu mesmo sabotasse a memória do Roca, sabotasse a imagem do Roca, a minha frente, esfregando na realidade meu próprio esquecimento. E não era só o Roca que desaparecia. A praça era toda tomada por uma grande e estranha neblina. O cinza que antes dominava as cores da paisagem com pequenas perturbações cromáticas – a bicicleta azul encostada no poste de luz, parecia abandonada propositalmente, quase uma pichação naquele cinza tão consistente – agora dava lugar a um branco decidido, uniforme, e que tomava praticamente tudo, os prédios, o gramado, o Roca, a bicicleta azul, o poste de luz, o Roca. E Tyu? Tyu eu ainda conseguia ver. Via nitidamente, seus lábios finos e secos, seu nariz delicadamente protuberante, suas quase-rugas que ainda a deixavam jovem. Tyu era tudo o que eu via. Pensei que talvez sequer estivesse vendo Roca, mesmo antes. Era isso minha alegria, era aquele sentimento de ausência, Roca não estava lá, nem Roca, nem ninguém, nada se movia, não havia vida, por isso o êxtase, por isso o momento, sagrado. Tudo estava vazio, e esse vazio que se formava era confortável, excessivamente confortável. Já não era mais êxtase o que eu sentia. Nem náuseas. Tyu agora era minha única possibilidade de existência, e ainda assim existia agora somente dentro de mim, Tyu, os dedos afinados e tortuosos de Tyu. E poderia continuar assim, ad infinitum, bem acolhido por esta aconchegante cegueira branca, esse branco-Tyu monocromático que minha retina inventava, brincava com ele, fazia gradações. O bispo ainda se defendia do cavalo, auxiliado pelo outro bispo que se posicionava por trás. E isso também poderia ter continuado assim, e estaria tudo bem. Não fosse minha curiosidade. Não sei em relação a quê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase por reflexo, tirei dali o bispo, ameaçando um peão do Roca que até então avançava impunemente pelo tabuleiro. Imediatamente, pude ouvir um estrondo de trovão. O céu era de um cinza roxo, inchado por dentro, e que se arrebentou sem piedade sobre toda a praça, sobre mim, sobre o tabuleiro, e o Roca, que de qualquer forma pareceu não dar muita importância à coisa. Uma criança veio correndo em nossa direção em uma bicicleta azul movendo-se a toda velocidade, e era a única coisa que contrastava com o cinza roxo do céu naquele momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*) Oitavo capítulo para livro, ainda que o sétimo e o sexto ainda insistam em permanecer sem expressão escrita. Primeira vez, aliás, que escrevo qualquer coisa em um ano. E pode ter dado errado. Não tive coragem de conferir, wntão, quem for ler, que sirva de cobaia.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-4713181007793395070?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/4713181007793395070/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=4713181007793395070&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/4713181007793395070'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/4713181007793395070'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2010/04/primeira-tentativa-de-controle-do-tempo.html' title='Primeira tentativa de controle do tempo'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/S8FBJU02VGI/AAAAAAAAADU/tbdFrYa-MiM/s72-c/Clipboard02.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-3500877681543071571</id><published>2009-01-12T04:23:00.007-02:00</published><updated>2009-01-13T02:26:04.467-02:00</updated><title type='text'>Víque através</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SWrkw5pjpxI/AAAAAAAAAC8/bnAJdsqXyYM/s1600-h/onibus.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SWrkw5pjpxI/AAAAAAAAAC8/bnAJdsqXyYM/s320/onibus.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5290292241060046610" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; line-height: 18px;"&gt;Rezando, de cara a la pared, se hunde la ciudad.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="line-height: 18px;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Hunde, como em afundar? Afundaria minha cara contra a parede se fosse possível, ou se houvesse parede e não janela, se fosse parede e não montanha mato alto casa latifúndio casa cabras montanha casa, é engraçado até, isso de olhar o mundo correr. Fugir. Foge mundo. De mim, foge! Foge como se fosse um filme fugindo, uma cena atrás da outra, o elevador fugindo de Nicolas Cage fugindo de Merryl Streep fugindo de Nicolas Cage assim como o agora fugiu do agora a pouco, e é tudo fuga, covardia, cinema, tempo e&lt;/span&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;janela, todos, nenhum existiria sem a covardia da fuga, isso de já não ser mais. Hunde, como em fundir? Outra cabra mato cabra. Víque recusa a janela, olha para o banco do lado, o teto, provavelmente ultrapassou o teto e corre com os olhos em direção ao céu que não foge nem jamais fugirá, essa coisa absurdamente imóvel que talvez seja mesmo o que é Víque, essa paralisia metódica, ambiciosa, admito, danou-se afinal com o teto, mas ainda assim. Para o céu. Para mim. Agora olha para mim, o olhar sério, demais talvez, e não acho que haveria razão para isso agora, ao menos que eu me lembre não haveria e de modo então que talvez não seja um olhar sério, talvez um olhar contundente, sereno, fugaz, diabos, Víque, diabos, o que você é afinal? Hunde, como en hundir. O &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;ônibus segue atravessando uma estranha zona rural onde nada parece ser um lugar só, os horizontes são confusos demais, casas cabras montanhas casas não parecem começar onde termina a outra, não terminam onde começa a outra, se misturam demais, se fundem demais, e é tudo muito impressionista, não há contornos, não há fronteiras, não há. Claro, há sempre a geopolítica e a cartografia no mundo servindo ao desmanche de qualquer arte que quaisquer olhos (meus) possam atribuir a qualquer artista (Deus?) absurdo (ainda eu, em última instância). Há, também sempre, Víque para lembrar, não sei quando abandonou o teto e o céu, acho que foi por um instante e záz, placa de trânsito e olho na placa, para lembrar que passávamos da fronteira, e que havia fronteira, linha imaginária entre um mato e outro, um daqui pra lá, e um daqui pra cá, salto fantástico que para Víque significava prerrogativa para que para trás ficasse o português, daqui pra lá, a fala forçosa e golpeada do castelhano, daqui pra cá. Em seu olhar Víque trazia certa glória vingativa, essa inversão de natividade, esse avesso súbito de nós e agora Víque mão segurando o queixo aceitando a janela largava o céu e se borrava de vez aos meus olhos, e ouvidos, e palavras, também borradas. Hunde, como em borradas. Não enxergava o céu de Víque, sou incapaz de compreender a janela de Víque, droga, quase não enxergo Víque, agora bastante compenetrada, matocabrmatomorrvíquecabraato, sem começo, sem fim, sem meio, e não sei se falo, se me arrisco, se expulso Víque de sua janela rumo a mim, provavelmente tão borrado quanto a janela, ou mesmo, se Víque quer ser expulsa, se Víque quer minha palavra, se quer que eu emita, crie sons, Víque posso até berrar, Víque, se quiser. Me vem a vontade de estalar os dedos, um dedo contra o outro dedo, esse quase monossílabo que não chega a precisar caber em letras e que me abriga (não, não me abriga) de tradutores, me abriga de intérpretes, me abriga, leitor, de ti. Estalo e o estalo é o primeiro som nesse dia que me faz sentido, tlac, tlac, tlac está no dicionário, letra tlac, primeira letra e última, tlac, um alfabeto inteiro, tlac, essa palmada na atenção, pancada na paisagem, a violência que a todo verbo conjuga, e Víque me olha, relutante com o canto do olho, a boca talvez pudesse ter sorrido, talvez. Hunde, como em afundar. E olho nos olhos de Víque. E não sei se Víque olhava em meus olhos. Talvez olhasse através dos meus olhos, como olhava antes, através do teto, e depois, através da janela. Não saberia então dizer o que ela veria. O que havia afinal através? O que há antes de mim? Víque, que não se importa, através olhava para as costas (devo dizer barriga) do banco vazio a sua frente. Vazio não completamente, ocupado que era, sim, por pernas que se espreguiçavam e que prolongavam o corpo que ocupava o banco (barriga, costas) ao lado, e sei que havia um fim de pé que tocava a janela, tocava, não atravessava, não assistia, um meio de cintura que se permitia visível entre um banco e outro banco, meio princípio de jeans, meio final de moletom, azul, escuro, e sei da mão, ligeiramente peluda e dependurada, despencando pelo encosto de braço que dava para o corredor. O que havia afinal através? Um senhor de idade, um jovem, cansado, era uma longa jornada de trabalho, aonde, mineração, de carvão, ah, sim, um trabalho cansativo, sim, fadigante, perturba a saúde, minhas mãos, pretas e é o carvão, que sobe pelos braços, sobe pelos ombros, alcança pescoço boca e nariz, trata-se de um senhor completamente coberto de carvão, uma sombra deitada e que viaja a minha frente, carvão sobre os olhos e ele já não enxerga, embriagado de si próprio, nem a janela, nem o mato, nem as cabras, o sol que começa a se pôr, as costas (longe demais, para mim, lejos, muy lejos) do banco da frente, o de trás (costas, barriga, intestino já enjoado, essa viagem que não acaba, que hunde, como em enjoar), nem o teto, o céu, nem Víque, nem através, nem depois, talvez antes, olhos virados para dentro, é o que lhe resta. Ele se move, senta-se e, no chão do corredor agora o sol projeta sua sombra, sombra da sombra. Talvez sejam exatamente iguais, e então não seria sombra, projeção, seria espelho, realidade, carvão do carvão, e já não se poderia mais dizer quem é espelho de quem, o que é o um do outro, seria sombra enfim em glória, sombra enfim não como projeção, sombra como tradução. Penso em perguntar-lhe. Hesito, penso que seria absurdo perguntar-lhe, moço, carvão, afinal, qual é você? Qual ao invés de quem, está aí toda a diferença. Víque novamente observa a janela, através, cabra cabra mato mato mato cerca, e o sol que persiste, que não foge, covarde como os outros, que fica simplesmente, como se olhasse, de volta, através. Hunde, como em... Noto que Víque dorme, cabeça encostada contra a janela, quase incendiada pelo sol, dorme, apesar de tudo, de mim, cabeça encostada contra mim, quase incendiada por mim, dorme. E penso que não lhe basto. Estranho afinal, Víque não estava cansada, Víque havia dormido bem antes da viagem, Víque ria de minhas piadas, Víque ria através da janela. Mas dorme e agora noto que enxergo melhor, o rosto amarelado e o cabelo liso caído, essa franja reta pela testa, os dentes que se sobressaem, um mais, outro menos, o ar que entra pelo nariz, através, o ar que sai. Avermelhada pelo sol, Víque já é quase poema, quase palavras, posso quase dizer, Ví-que, se o momento pelo menos durar mais, se pelo menos houver tempo, mais tempo, e as palavras se sedimentem e, quietas, imóveis, caladas, possam ser ouvidas, e penso na máquina fotográfica, que tiro do bolso e olho, através de sua lente, Víque, a boca caída de Víque (o ar que sai agora pela boca, essa quase palavra, esse quase monossílabo, esse quase estalo, esse diálogo concreto sem língua, tradutores, dicionários!), a janela, mato mato mato mato, o sol sempre lá, olho através de sua lente. E disparo. Vem uma fotografia tremida, uma mistura de Víque com mato, de mato com sol, de sol com janela. E disparo. Outra fotografia, a mistura agora também é outra, a boca de Víque engole uma cabra, que é pedaço do estofamento do banco da frente, a franja pende sobre o sol e o amarra, e tudo se borra, hunde como em borrar, e nada se vê, nada, está tudo ali, a minha frente, posso (quase) tocá-los, são quase palavras, seriam. E disparo, os dedos firmes sobre a câmera, o corpo preso ao banco, firmado pelo cotovelo sobre o encosto da cabeça. E já não é mais Víque, e já não há janela, a franja, reta, já não pende mais sobre a testa, já não há mais cabras sobre gramados esverdeados delineando a estrada, e já não há sono, ou talvez haja, e já não se fala portugês, castelhano, diabos, Víque, diabos, que raio de língua é essa, que raio? Hunde, como en hundir. O sol enfim termina de se pôr. Afinal também foge, como o mato, como as cabras. Do senhor do banco da frente, já não há mais a sombra no chão do corredor, resta a manga do moletom azul, escuro mas azul, apoiada na braçadeira do banco, sem sombra, sem espelho, sem costas ou cabeça, somente uma manga. Víque, acordada, já não vê através da janela. O ar lhe entra novamente pelo nariz, e seus olhos olham nos meus. Ou através. Antes. O que há, afinal, antes de mim? E o que haverá depois?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style=" line-height: 20px;font-size:13px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="line-height: 20px; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;(*) Terceiro capítulo para livro, que atrasou e virou quarto capítulo. Seqüência (não necessariamente linear) de "Duro, frio e branco", ainda que seqüência não se note nenhuma. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-3500877681543071571?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/3500877681543071571/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=3500877681543071571&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/3500877681543071571'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/3500877681543071571'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2009/01/vque-atravs.html' title='Víque através'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SWrkw5pjpxI/AAAAAAAAAC8/bnAJdsqXyYM/s72-c/onibus.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-7776326691448373538</id><published>2009-01-03T04:26:00.005-02:00</published><updated>2009-01-03T04:42:03.381-02:00</updated><title type='text'>Duro, frio e branco</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SV8HDQADJuI/AAAAAAAAAC0/zBuLMRy4jSs/s1600-h/chao.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SV8HDQADJuI/AAAAAAAAAC0/zBuLMRy4jSs/s320/chao.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5286952239972427490" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Primeiro eu:&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Sentado no banheiro, estou cansado e minha mente me ensurdece. Tenho os olhos voltados para dentro já há dois dias, dois dias ao contrário, sou paisagem hipertrofiada de mim, sou redundância e já não me agüento mais. Fugo, e é para o chão, esse piso duro e frio e branco de cerâmica. &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Segundo eu:&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Dezoito quadrados brancos de cerâmica compõem o chão, frio e duro, branco. Não completamente branco, posto que são, ou estão, invadidos por minúsculos pontinhos pretos. Os pontinhos pretos são inúmeros, quase infinitos, seriam infinitos, se eu quisesse, se acreditasse. Na multidão, começo a procurar por alguém.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Terceiro eu:&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Na multidão, encontro de perfil uma senhora, já de idade, veste um chapéu ou possui um grande topete, tem ar altivo, provavelmente pelo nariz, que se sobressalta, certamente não pelos olhos, que tenho mais dificuldade em encontrar, um olho não se vê, o outro é formado por um único ponto. Perco e reencontro seu olho a cada instante, de tão pequeno, e o confundo com outro pontos, e o reinvento, me forço a reinventá-lo. Com todos os seus olhos, porém, a senhora, de longe, olha fixamente em minha direção sem jamais piscá-lo. Ainda que a cada vez com um olhar diferente. Agora outro olhar, e me sinto outro&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Quarto eu:&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;completamente estranho ao anterior, e ao anterior, e ao anterior. Já não sou mais redundância, sou especulação.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Quinto eu:&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Meu problema é que me entrego demais às especulações. E me perco.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Sexto eu:&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Retiro da senhora seu olho e ela agora é só nariz, chapéu ou topete, e talvez alguma boca. Uma imagem deformada, um estranho eufemismo para a alteridade, ou talvez eufemismo de mim mesmo, ora, posso no chão infinito reinventar o universo por inteiro, posso me reinventar, posso nele me esconder, e o que faço (realmente não imaginei chegar a esse ponto e talvez agora deva começar a me preocupar) é fabricar uma senhora de nariz sem olho e talvez boca para que não me veja. Talvez nem me fale. Algum tipo de ode bizarra da solidão. Basta mesmo o nariz, grande, para que respire. Talvez para que me sufoque, mas pode ser apenas piedade minha.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Sétimo eu:&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Me passa pela cabeça agora perdê-la. Deve ser fácil. Basta piscar os olhos.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Oitavo eu:&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Ainda está lá, nariz, topete, boca. Não sei como, mas sei que é ela. Poderia ser qualquer outra coisa, qualquer outro conjunto de pontos em qualquer outro quadrado de qualquer dos dezoito quadrados que formam este piso de cerâmica, branca, dura, fria, e ainda assim sei que não, que é aquele, é aquela figura, aqueles pontos, ela. Não a perco e não consigo entender como não a perco. Como eu entendo o que é uma coisa, e o que já não é mais, o que é jurisdição do teto, o que é jurisdição do chão, e porque eu não sou o chão nem o teto, e porque aquela senhora não é qualquer outra coisa? Como?&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Nono eu:&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Talvez eu não entenda. &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Décimo eu:&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Pisco novamente, agora mais longamente, e sinto o mundo desbotando, como memória esquecida, branca, fria, dura.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Décimo-primeiro eu:&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Abro os olhos e procuro, lá não está mais a senhora, insisto com meus olhos que agora a perseguem, e não a encontram, e me desespero, e sinto que posso transformá-la em obsessão, e vejo um senhor, de bigode e que me olha sério, um cachorro com as orelhas levantadas, e vejo um palhaço, nariz de palhaço, boca pintada, fechada, e os perco todos até reencontrar a senhora, longo nariz e topete, sem olhos, agora uma boca maior e orelhas salientes mas é ela, sei que é. Ao seu lado, também de perfil, quase disfarçado por um aspecto sorridente que eu normalmente não reconheceria, estava eu, e era como um espelho, se ao menos fosse reflexo de algo.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Primeiro outro:&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Agora me levantei e me pus a andar. Olho novamente para dentro, e já não me vejo mais. Aliás, já não sei quem é. Sei que move-se, segue pela sala e olha pela janela aberta. É dia, e pela rua vejo carros passarem, pedestres, um ou outro, esperando o semáforo. É dia, e é como um filme.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-7776326691448373538?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/7776326691448373538/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=7776326691448373538&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/7776326691448373538'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/7776326691448373538'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2009/01/duro-frio-e-branco.html' title='Duro, frio e branco'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SV8HDQADJuI/AAAAAAAAAC0/zBuLMRy4jSs/s72-c/chao.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-6179806051820188174</id><published>2008-12-19T00:03:00.007-02:00</published><updated>2008-12-19T00:28:59.297-02:00</updated><title type='text'>Sobre a torneira</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SUsFS5B5cqI/AAAAAAAAACs/dDkgkaoRszA/s1600-h/torneira.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 246px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SUsFS5B5cqI/AAAAAAAAACs/dDkgkaoRszA/s320/torneira.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5281320810126602914" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E se eu te escrevesse agora com palavras de pia? Se eu saltasse de cima da ponte galáctica de poeira cósmica, do viaduto que cruza Orion, de um lado a outro, para debaixo do teto, branco, piramidal que me esconde em dias nublados, ou azuis, ou roxeados, ou quando foge, ou se parece noite. E se eu tropeçasse ao invés de escrever? Palavras? O vento. O vento, O vento que já tanto te soprei, instituição que contratei para te arremessar poesia, quilômetros e quilômetros, vento como meio de transporte para a metáfora, serviço postal dos telegramas cósmicos e dos intergalácticos, elo de conexão entre eu e talvez o teu rosto, tu e talvez o meu rosto, departamento nacional do trânsito da paixão e seus calores, igreja da compressão do espaço e implosão da matéria que não importa para a humanidade, ou seja nós mesmos, ou seja, a humanidade, eu e você no altar orando para nós mesmos e pelo sacrifício de nós mesmos para e por nós mesmos, revolucionário dos estudos cartográficos mundiais, redesenhista do traçado Brasília-Goiânia, não mais hifenizado, não mais fronteira, não mais metrópole, não mais sertanejo, não menos, nem Brasília, Planalto, Central, BR-, Anápolis, BR-, Goiânia, nenhum aonde.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;— Uma passagem, por favor.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;Esse mundo, essa coisa, essa hipérbole de nós mesmos, é tão feito de palavras de pia, tanto de pia quanto eu, quanto tu (imagino). E quando digo de pia, quero dizer de janelas mais ou menos emperradas, de escrivaninha de madeira descascada, pia, BR-253, de televisões em salas ao lado, Charlie Sheen esboçando em voz alta uma filosofia da vida prática, pia, minha porta fechada e que antes deixei encostada por simpatia pelo senhor da sala ao lado, ouvindo Charlie Sheen, pia, fechada ou aberta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;— Para onde senhor?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;Esse mundo, essa coisa, essa metonímia de nós mesmos, e que decidiu sem maiores deliberações, ou representações democráticas, ou pressões partidárias, deste lado um poeta, daquele um prosador, do outro um senhor calado, do outro uma pia, decidiu univocamente (e com plena aceitação do mundo, nós mesmos), que a chuva te leva pedaços sinestesiados de mim e que o vento, o vento, o vento me traz teus sussurros agarrados a folhas de outono, e parece agora que, assim, portanto, logo, que a chuva não me molha se eu não me cuidar e não fosse o heroísmo da varanda do primeiro andar do prédio verde do bloco F, parece que eu não poderia ter me resfriado, ainda mais com o vento, e parece que não fugi covardemente da poesia, e que não me entreguei ao primeiro abrigo que encontrei, que não há prostituição atmosférica e, logo, que não há pia. Disparate.  &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;— Não para Goiânia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;A poesia torna o dia de hoje impossível. Indizível.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;— Senhor, para onde?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;Não. Um homem não pode se dividir assim. Indizível. Impossível.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt;  &lt;/span&gt;Hoje.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;Hoje acordei de um longo sonho, tentei me lembrar dele, de partes dele, do que me restava dele na mente, uma diretora de escola, travesti, eu preso, havia um regulamento. Senti a garganta seca, o mau hálito na boca. Tentei voltar ao sonho, mas não consegui, e podia ser mesmo a secura, e me levantei. No banheiro, o chão era frio e me arrependi dos pés descalços. Como estavam distantes os chinelos, optei pela pia, e pela água, e pelo chão duro, e pelo frio. A torneira gotejava. Sempre gotejava. Estava gotejando ontem, gotejava quando fui dormir, e teria de estar gotejando hoje de manhã, a não ser que se secasse a água de vez a água do mundo, de vez esvaziada pela minha torneira, a água do mundo no meu ralo. O som das gotas caindo, no ralo da pia, ecoavam pelo banheiro, e invadiam o quarto, e não me deixavam dormir, e quando deixavam, serviam de percussão aos meus sonhos, ploc, ploc, ploc. Talvez eu tivesse sonhado com isso mesmo, eu preso, a diretora, e o ralo como trilha sonora daquilo que sonho. Ploc, ploc, ploc, abri a torneira e enchi o rosto de água, fechei a torneira e já não havia mais sonho, e a diretora, travesti, e eu preso, jamais passariam novamente pela minha cabeça, e o ploc, ploc, ploc do ralo da pia voltariam a ser, não mais, do que trilha sonora para a minha própria vida, realidade, meu dia. Hoje.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;Impossível, indizível.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;— Não para Brasília.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;Para ti, ou para nós, decerto para nós, nunca houve hoje. Nos situarmos no tempo, no ontem, na semana, na outra, nos três ponteiros, o pequeno, o grande, o maior que se mexe, de novo, de novo, no depois ou no agora (até no agora), parece absurdo. Eu flutuo, pairo, o mundo lá embaixo, não só esse mundo-espaço, esse mundo-coisa, que minha flutuação vai além do tridimensional, latitude, longitude, não, olho para baixo e vejo minutos, olho, e vejo a madrugada, quase manhã, Orion amando Eos, olho, e vejo leite, uma caixa de leite, ao fundo de uma geladeira, a validade se expirando, lentamente, e vejo pessoas, expirando, e vejo a chuva chegando, e passando, e mesmo o vento, a tal instituição literária, mesmo o vento eu vejo de cima, junto com a chuva, que cai contra mim e ao avesso de mim. Nada me vê. Sou intransitável. De mim no mundo, esse mundo-coisa-instante de que te falo, só se vê sombra, minha sombra projetada por um Sol sabe-se lá escondido aonde, minha sombra projetada sobre o tudo e o todo, e sobre você, lá embaixo, debaixo de mim, e se antes você (ao menos) me visse por um binóculo, uma luneta, e que fosse côncava demais, ou convexa demais, e que fosse empoeirada, que fosse até mesmo um espelho, que fosse, mas não,&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;— não sei. Qualquer lugar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;pois que de mim o que via era mesmo a sombra, projetada por um Sol sabe-se lá aonde escondido, essa exibição do meu negativo sobre o mundo-coisa, sobre o mundo-instante, ou nem negativo, não bastava revelar-me, inverter-me, fazer um blow up imenso de mim mesmo e ter um eu fotografado em detalhe. Não, sombras não são isso. Nem são as sombras partes de um todo, meu todo, minha parte. Nem minha metáfora, não, nem um eu figurado, meta-narrativa de mim, não. Queria dizer que talvez pudesse ser, talvez fosse meu eclipse, eu eclipsado, pelo Sol, pela Lua, por um pássaro, um poste, melhor ainda um poste, ou prédio, coisas que costumam e que gostam de nos eclipsar no Dia-a-Dia. Dia-a-Dia. Dia, a, Dia. Que expressão! Não. O eclipse era do próprio Sol, eu na frente do Sol, tapando, me esfregando sobre o Sol. E você, lá embaixo, contemplava meu eu em branco, uma grande folha de eu, branca, preta, pronta para você, e para que você nela escrevesse aquilo que quisesse. E que me entendesse, como quisesse.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;— Temos um ônibus saindo em meia hora (instante) para São Paulo (coisa), você quer?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;Latitude, longitude, impossível, indizível,&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;— um homem não pode se dividir assim. A realidade e a poesia são demais para um só homem. Nem Brasília, nem Goiânia. Não há o que dizer. Não há &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;Impossível, não diga!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;— Tem algum banheiro por aqui?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;Disparate.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-tab-span" style="white-space:pre"&gt; &lt;/span&gt;Entrei, e o banheiro era sujo o bastante, nem pouco, nem demais, e a torneira, entreaberta, pingava, ploc, ploc, ploc, e eu mal podia escutar os ruídos da rodoviária, ensurdecedora, quem diria. Ainda teria de esperar por vinte minutos antes de entrar no ônibus e não fazia idéia, idéia, de como passá-los, idéia, parecia absurdo, vinte minutos, olhei para o relógio, o ponteiro pequeno apontava o seis, o grande, o quarenta e cinco, enquanto o terceiro se movia mais rapidamente, quatorze, quinze, dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, vinte, vinte e um, vinte e dois, e parou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;(*) Segundo capítulo para livro. Seqüência (não necessariamente linear) de "18:45".&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-6179806051820188174?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/6179806051820188174/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=6179806051820188174&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/6179806051820188174'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/6179806051820188174'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2008/12/sobre-torneira.html' title='Sobre a torneira'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SUsFS5B5cqI/AAAAAAAAACs/dDkgkaoRszA/s72-c/torneira.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-660733981439884496</id><published>2008-11-28T01:43:00.008-02:00</published><updated>2008-11-28T03:36:13.667-02:00</updated><title type='text'>18:45</title><content type='html'>&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SS9qxysoCaI/AAAAAAAAACk/I6pVR5pcBuE/s320/cinebsb.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5273551092329220514" /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="line-height: 18px;"&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Fiquei olhando para a grande imensidão de chão cinza que me rodeava e me fazia como que ilha. Mas ilha de quê? Um grande pedaço de carne humana cercado de chão por todos os lados, até por baixo, que era o chão mesmo cinza que me segurava, e então eu já não era mais ilha, e nem me afogava. A entrada para o cinema formava um cubo megalomaníaco, teto, chão, teto, parede, uma dessas grandes bolsas de concreto da capital federal, a vidraça, o letreiro, o azulejo solto, o pequeno buraco no chão de nome Latour, o segundo era o Vilar, não sei por que, mas eram milimétricos e eu só os via por estarem a alguns centímetros da ponta do meu pé e eu sentado a tempo suficiente para conceder-lhes uma ontologia, cosmogonias e pequenos monólogos, e tudo isso parecia ser parte da megalomania do cubo, um grande plano, era tudo parte do grande plano, o meio-fio, o fusca em fila dupla, eu, Vilar e Latour, até a multidão que não comparecia e o grande vazio cotidiano que se instalava e que fazia notar-se o próprio cubo, todos sempre programados para preencherem nossos respectivos espaços dentro do grande plano do cubo megalomaníaco.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— São seis e quarenta e cinco. Aliás, quarenta e três.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Tyu chegaria em quantos minutos? Vilar discorria agora sobre o olfato, o menosprezo do sentido olfativo pelo mundo ocidental, essa coisa onde se pode viver muito bem sem que se cheirem flores, mofos, manteigas, o ralo, mas que &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— ora, culturas inteiras se formam por aí baseadas sobre o sentido do olfato. Me parece necessário que estejamos perdendo pelo menos alguma coisa aí.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;O Vilar seria capaz de grandes conversas com Tyu, disse isso a ele, Tyu se impressiona facilmente com essas histórias, odores, filosofias dos sentidos, aquilo que tocamos, que nos toca, essa coisa impressionista que não se explica. Tyu era bastante impressionista, não no sentido que se dá a uma pintura impressionista, um poema, ou uma etnografia que deixasse de lado a população guarani para discorrer sobre o próprio etnógrafo, achismos acadêmicos ou algo do gênero. Tyu era impressionista no sentido mais egóico da coisa, de que explicava pela sensação e que portanto não podia explicar,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— são seis e quarenta e cinco. Aliás, quarenta e quatro. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;era composta por um grande amontoado de idéias vagas e abstratas, pôsteres na entrada do cinema, vago, meus óculos, vagos, pedaço de chão quadriculado do boteco da 209, lindamente vago. Eu olhava para o lado e via o Latour, agora calado, ruminando qualquer coisa, não pude ouvir, enquanto o Vilar continuava a todo fôlego,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— é uma outra forma de comunicação essa, isso de usar palavras, esse totalitarismo das palavras, é uma celebração bisonha do racional. Não se pode verbalizar tudo, não se pode verbalizar&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Passava alguém, de longe era Tyu, os cabelos encaracolados presos, a expressão ainda a se definir, o vestido, amarelo, agora mais perto, o vestido se alaranjava e o cabelo se desprendia e se encurtava, ainda podia ser Tyu, já se passavam tantos meses, porque não, mas Tyu se aproximava e se desfazia, se desmanchava como meteoro invadindo a atmosfera terrestre, se queimava com o atrito do ar, e chegava ao solo, se chegava, só como rastro, poeira cósmica, cinco bilhões de anos sopráveis. A moça de vestido avermelhado e boina na cabeça se aproximava, agora era parte do cubo gigante, se integrava à megalomania arquitetônica do projeto, preenchia e esvaziava o espaço simultaneamente, aquele vazio inelutável cujos esforços de invasão serviam-lhe somente de marca-texto. O encher, o preencher sendo marca-texto do vazio, um vazio manchado de amarelo-fosforecente, eu, Vilar, Latour e a moça agora de costas, mini-saia jeans, pedaços de vazio.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Latour e Vilar, vistos de perto, e de cima. Eram como restos de meteoro.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— São seis e quarenta e cinco. Aliás, quarenta e seis.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Latour agora se inquietava com as argumentações de Vilar, com o mundo não-verbalizável de Vilar, e que era também o mundo não-verbalizável de Tyu, esse não-mundo sobre o qual não se pode falar,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— sobre o que não se pode falar, deve-se calar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;mas como não falar, o pôr-do-sol que avermelhava a grama do cerrado e a aspereza da parede do Instituto de Ciências Humanas resvalando contra as costas das mãos o atentavam, a árvore retorcida do jardim da Faculdade de Direito em busca do sol, o atentava, não podia, não queria, não resistia a tradução, a tentação de carregar as coisas do mundo na bagagem compacta que é a palavra, não aceitava, non, ça ne marche pas,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— sobre o que não se pode calar, deve-se falar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;A moça ou o vazio da moça observava os pôsteres que adornavam as vastas paredes de concreto do grande cubo retangular, do grande retângulo da entrada do cinema, da grande entrada do cinema cúbico. Aqui se via Grande Otelo, ali Hugo Carvana, mais para a esquerda, Dina Sfat, ao lado de Jece Valadão, e ali mais para cima acho que era Oscarito, ela agora está no Jece, anda um pouco mais, agora sim Oscarito, que olha para a nossa direção, olhos arregalados, e agora noto, todos eles, olham para a nossa direção, uns com o canto, outros de olho quase inteiro, nunca um olho completo, que olhar nos nossos olhos seria olhar nos olhos da câmera que representaram nossos olhos décadas atrás – pela imagem, preto e branco, a do Jece deve ser de setenta e pouco – e nos olhos da câmera não se olha. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— São seis e quarenta e cinco. Aliás, quarenta e oito.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Nos olhos da câmera não se olha, pensava também o Latour, agora mais calmo, agora o pequeno buraco no chão se associando com o relevo irregular do grande chão cinza, grande cinza do chão, para formar uma boca, fazer parte de algo maior enquanto Vilar ainda era o mesmo pequeno buraco. Pensava em uma imagem, grande tela de cinema, cinema grande de tela, uma senhora nordestina olhando para os olhos da câmera, encarando o Latour, &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;no dia em que o Getúlio morreu lá na Bahia, eu fiquei cega aqui também, &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;escancarando o Latour, &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;ele às oito horas do dia, eu às oito horas da noite&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;, carrega o mundo com os olhos, somente os olhos, não importam as palavras, Latour acuado na cadeira, olha para fora da câmera, desconcertado, qualquer fora, os olhos gigantes o esmagavam em toda a sua megalomania ótica que abarcava a tudo no mundo, olhos como bagagem compacta para as coisas do mundo, e era como se tudo estivesse lá para aqueles olhos, um plano, um grande plano, até mesmo ele, Latour, e eu, e o Vilar, e a moça do jeans, todos inseridos dentro daquele grande plano, talvez por ordem do diretor, como figurantes, ou para compor o cenário, que seja, o fato é que saíam da tela, os olhos deixavam a tela no momento em que olhavam para os olhos do Latour, que eram os olhos da câmera, &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— se ela não tivesse cegado, ele às oito horas do dia, ela às oito horas da noite, e por isso, não estivesse olhando para a câmera, olhava para baixo, na diagonal, para a direita, e de qualquer forma, não olhava,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;e Latour se sentava confortavelmente, mais uma vez, em sua poltrona imaginária.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— São seis e quarenta e cinco. Aliás, quarenta e nove.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;            &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;            &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;A moça da mini-saia jeans e do vestido, agora roxeado, seguia caminho, agora circular, através das várias quinas do grande cubo. Talvez por circular, e por ser um cubo, toda essa subversividade geométrica da moça, e ela parecia mais ser rebatida pelas quinas, mais do que andar de fato, por vontade própria. Mais inércia do que vontade, mais vício do que inércia, mais cubo do que círculo, e pensei então em olhá-la. Mas olhá-la mesmo, diretamente na câmera, o estonteante olhar nos olhos, o esmagador olhar nos olhos, queria cegá-la, ousar cegá-la, ou a ela ou a mim, &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;ela às oito horas do dia,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— sobre o que não se pode cegar, deve-se olhar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;eu às oito horas da noite, &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;era quase mesmo como um desafio, retirá-la do transe, roubá-la dos olhos do Grande Otelo, agora o Oscarito, Sfat, Otelo de novo, como dar fim ao vício, dar fim ao círculo, quase uma ode ao cubo, grande, cinzento. Latour e Vilar estavam agora calados, talvez um pouco em agonia, ou por cansaço, ou por tédio mesmo. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Aliás, Latour e Vilar, vistos de perto, e de cima. Eram dois pequenos olhos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Iria esperar para quando passasse por perto de mim novamente, teria de passar por mim, sempre passara, eu era parte do vício, do cubo, do círculo, iria passar, com o olhar perdido como sempre, ou não, talvez atento demais, procurando por algo novo, um pequeno detalhe na parede que tivesse passado despercebido nas dezessete voltas anteriores, um novo ângulo possível de quina para voltar a ser rebatida e aí sob nova forma já mais trapezoidal, ou uma falha de continuidade, um anacronismo na cena do Jece Valadão com o Carvana jamais percebido, seu olho era livre, Valadão não lhe olharia de volta, nem o Carvana, e se libertava cada vez mais, e cada detalhe era cada vez mais seu, pequenos rabiscos na parede, juras de amor escritas na década de setenta, bituca de cigarro no chão, outra, o Latour, o Vilar, e de repente eu, visto de perto, dois pequenos olhos, esbugalhados. Virei-me. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;o:p&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Ele às oito horas do dia, eu.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;..&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— São seis e quarenta e cinco. Aliás, são oito horas da noite.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Virei-me. Não agüentei e virei-me. Disfarcei o atentado ótico com as vestes de uma passagem de olhos, panorâmica, uma vontade súbita de absorver o todo com um rápido movimento de pescoço, 180º, ela estava no caminho, fazer o quê, naquele momento ela era tão paisagem, tão parte do todo, quanto o grande chão cinzento, o grande cubo de entrada, o Grande Otelo. Talvez ela tenha acreditado, pouco importa. Vilar estava inconformado, me berrava ao ouvido, acabava comigo. Vilar não teria se virado, 180º. Vilar não é dos que se cegam. O Vilar abre os olhos, &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— sobre o que não se pode olhar, deve-se cegar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;já eu não.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;            &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Ia tentar de novo. Décima nona volta, ela vinha, mais uma vez, círculo do cubo, passava por Oscarito, Sfat, deixava para trás o carro de pipocas – abandonado, desde o início, esteve sempre ali, só agora o notei –, outra quina, agora parecia mudar seu trajeto ligeiramente, passava mais distante e já quase não valia mais a pena, mas não interessava, olharia ainda assim, em seus olhos, câmera, e seguia caminho, a bituca, a outra, o Latour, o Vilar, e de repente eu, visto de longe, dois pequenos pontos, talvez outras duas bitucas, esbugalhadas. Não me virei. Nem precisei. Acho que não me viu. Ou me viu, como via tantas coisas, inseriu meu olhar em seu caderno de notas totalitárias do grande cubo cinzento, e tinha lá todo um inventário, bituca de cigarro, Oscarito, eu, dois olhos, às vezes grandes, às vezes pequenos, às vezes abertos, às vezes não.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span style="mso-tab-count: 1"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;            &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Tyu também não teria se virado. Tyu nesse sentido era o oposto de mim. Aliás, era o oposto de mim em muitos sentidos. Tyu não inventaria Latour e Vilar, nem sequer os teria notado (aliás, é interessante como não se virar não significa necessariamente notar). Teria notado o carro de pipocas muito mais cedo do que eu, isso certamente. Mas também não conversaria com o carro de pipocas, ou com o pipoqueiro, que de qualquer forma, não estava lá. De novo, e eu já disse, não palavras, imagens. O carro de pipocas de Tyu não seria dizível, verbalizável, não sairia pela boca como o meu. Seu carro seria uma cena, complexo de imagens em seqüência mais ou menos linear, antes com o pipoqueiro, depois sem, e ficaria somente ele, ali, parado, outro vazio, ilha cercada de mim, Latour, Vilar, Tyu, e a moça do vestido avermelhado, por todos os lados. E de repente se notariam sobre a prateleira do carro três pequenos sacos de pipoca, já cheios, como que prontos para serem vendidos, três sacos, e nada mais, nem dentro, nem fora dos sacos, como se fosse essa sua expectativa para a noite, público contado, éramos eu, Vilar, Latour, Tyu, a moça do vestido alaranjado, cinco no total, um ou dois sem fome, outro sem dinheiro, éramos três sacos de pipoca. E para Tyu, seria poético, não sei se um poético melancólico, ou um poético kitsch, o pobre pipoqueiro, pipoqueiro pobre e cinzento, que nem estava lá, ou um poético colorido (só agora noto que é vermelho o carro, a Tyu adora o vermelho, vermelho não é palavra, nem é dizível como palavra, gostava do vermelho como olho, vermelho como cor que olha para a câmera), mas de qualquer forma, enfim, um poético que não está nestas poucas linhas, e nem estaria em muitas, mesmo em um longo e absurdo soneto, não, o pipoqueiro não se renderia, jamais, a essa minha obsessão, esse autoritarismo da palavra que a tudo quer render, materializar, guardar em bolsos, meus ou alheios. Para Tyu, o pipoqueiro ou o carro de pipocas jamais seriam meus. A moça do vestido amarelo agora também olhava para o carrinho. Agora, de costas, parecia-se muito com Tyu. Também, já se passavam tantos meses, Tyu para mim se desmanchava, como meteoro invadindo a atmosfera terrestre. Arrisquei-me.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— Moça, por favor, você tem as horas?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;— São seis e quarenta e cinco. Aliás, são oito horas da noite.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:35.4pt"&gt;&lt;span style="line-height: 115%; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Latour e Vilar, aliás, vistos de perto, e de cima, eram crateras.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-660733981439884496?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/660733981439884496/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=660733981439884496&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/660733981439884496'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/660733981439884496'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2008/11/1845.html' title='18:45'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SS9qxysoCaI/AAAAAAAAACk/I6pVR5pcBuE/s72-c/cinebsb.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-7803557093667901340</id><published>2008-11-11T00:48:00.005-02:00</published><updated>2008-11-11T01:25:39.393-02:00</updated><title type='text'>Informações pessoais</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SRj5Ev5tN6I/AAAAAAAAACc/Hm-6XRNVVsI/s1600-h/plasticman.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 245px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SRj5Ev5tN6I/AAAAAAAAACc/Hm-6XRNVVsI/s320/plasticman.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5267233624183093154" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;"Tiende a vestir de negro, de gris, de pardo. Nunca se lo ha visto con un traje completo. Hay quienes afirman que tiene tres pero que combina invariablemente el saco de uno con el pantalón de otro. No sería difícil verificar esto".&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sou do Rio de Janeiro, filho de mãe cearense com pai gaúcho, que trabalhava com análise de sistemas até ser chamado para a guerra do Golfo, de onde nunca mais voltou. Minha mãe era solteira e me criou sozinho em um casebre em Ipatinga no interior de Minas Gerais, onde em geral vivíamos de uma pequena porção de dois pães de queijo diários que recebíamos em troca de mão-de-obra em uma plantação de cana-de-açúcar, de onde fugi aos doze anos para virar trapezista infantil em um circo finlandês que fazia um tour pela região rumo a Jacarepaguá. Lá encontrei meu pai que era contador e que foi quem me ensinou várias formas de burlar a receita federal que utilizei incessantemente até os trinta e dois anos, quando fui delatado por uma garota moçambicana que conheci em um vôo para o Marrocos e com quem me casei dois dias depois, após cinco anos de noivado em que adiamos nosso casamento inúmeras vezes devido a guerra dos Bálcãs ou por causa da chuva. Fui caminhoneiro na península ibérica durante a adolescência levando carregamentos de munição bélica para uma empresa ucraniana clandestina de produção de confetes coloridos da qual minha mãe foi CEO por cinco anos e meio. Passei minha infância no norte de um país da ex-união soviética do qual agora não me lembro o nome e vim para o Brasil somente a três meses atrás, e desde então venho tendo aulas de português intensivo com enorme sucesso, praticando diariamente através de cartas poéticas que troco com uma paixão minha de Goiânia que jamais vi, e que conheci no meio de uma multidão em um concerto de Philip Glass no sul da Austrália dois meses antes de nosso primeiro beijo em um bar na beira de uma rodoviária federal ao sul do Amapá onde ela ganhava alguns trocados como vidente e previu que eu morreria de morte violenta no dia 2 de agosto de 2089 logo após terminar meu bacharel em Antropologia pela Universidade de Brasília e provavelmente por efeito de drogas alucinógenas que havia tomado na noite anterior para escrever um grande livro de 734 páginas que dedicava inteiramente a uma garota que havia conhecido em um grande jardim de pés de figo na França e que vivia de esmolas que recebia de descendentes diretos da aristocracia do Faubourg Saint-Germain e que servia para sustentar seus sete filhos e mais uma mansão ao sul do país. Passei onze anos e sete meses da minha vida alimentando-me somente de chá preto e biscoitos até que resolvi comer cinco pizzas de calabresa com anchovas sem razão nenhuma. Sou vegetariano desde que me formei em agronomia em Bratislava e desde então tenho mantido no quintal de casa uma plantação de praticamente tudo o que se pode comer e que vai até mais ou menos o horizonte ou aquela região onde a vista alcança. Uma vez fiquei sem palavras por não saber como utilizá-las se não fosse em forma de soneto. Sou exatamente quem você pensa que eu sou. Semana passada, passei cinco dias e meia hora escrevendo longamente sobre um muro de uma mansão no sul do Mato Grosso do Sul até que todas as frases estivessem sobrepostas de tal forma que formassem um imenso muro negro ônix. Um dia, já fui ninguém, por quatro ou cinco horas, até que isso passou e agora só volta esporadicamente, quando esqueço de me medicar. Passei vinte e poucos anos, ou foram trinta, isolado no topo de uma montanha muito muito alta em um cume nevado ao leste de um desses países de forma trapezoidal para filmar um documentário sobre o restante do planeta e a vida de todos os seres humanos, a exceção de uma pessoa no centro-oeste brasileiro sobre a qual nada sei. Desde que voltei, tenho trabalhado em uma fábrica de barbantes coloridos no noroeste do Chile a cinco pesos e meio por mês onde passo o tempo conversando com uma operária equatoriana sobre os últimos desdobramentos do movimento de translação de Óreon em relação a via láctea e desde então tenho tentado com pouco sucesso saber mais detalhes de sua vida pessoal fazendo uso somente de vocabulário astronômico, dado meu conhecimento parco de língua quéchua. Fui feliz em nove de dezembro de 1952, mas desde então isso tem sido raro. Trabalhei como secretário de Lech Walesa na Polônia e escrevia todos os seus discursos e falas desde os seus sete anos de idade até ser demitido por deixar mensagens subliminares sobre mim mesmo em meus próprios discursos e que levariam a um golpe estatal meu sobre a minha pessoa. Recebi ontem a penúltima edição do Correio Braziliense antes do fim da série, mas já imagino que o mocinho morra no final. Passei a infância assistindo televisão no canal de teste de cores todas as manhãs antes de ir para a escola e desde então tenho dificuldades para respirar quando não estou diante de um arco-íris. Um médico neozelandês detectou em mim uma doença congênita que me levará a morte em cinquenta e oito anos pelo excesso do uso de vírgulas no meio das frases. Trombei contigo hoje no café da manhã, por isso a mancha na sua blusa. Cursei artes cênicas na Bélgica por sete anos e cheguei ao auge da minha carreira participando dos três filmes da trilogia das cores do Kieslowski fazendo o papel da idosa que era incapaz de jogar o lixo no lixo durante o curto período de cinco segundos em que aparecia, sendo que cerca de 203 pessoas no planeta tomaram conhecimento de que a cena se repetia nos três filmes, isso ao menos de acordo com os dados atualizados até ontem. Faço bolinhas de papel e jogo para o alto para saber aonde vão cair, às vezes provocando acidentes aéreos como os da semana passada, que deixaram três milhões e meio de mortos e uma pessoa se molhando apesar do guarda-chuva, mas parece que ela não se importa. Minhas canetas costumam secar antes que a tinta acabe. Neste instante há uma parede branca em minha frente. Não sei o que há atrás de mim, mas vou olhar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-7803557093667901340?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/7803557093667901340/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=7803557093667901340&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/7803557093667901340'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/7803557093667901340'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2008/11/informaes-pessoais.html' title='Informações pessoais'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SRj5Ev5tN6I/AAAAAAAAACc/Hm-6XRNVVsI/s72-c/plasticman.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-1435626859589266902</id><published>2008-10-23T02:03:00.005-02:00</published><updated>2008-10-25T17:02:55.523-02:00</updated><title type='text'>A chuva ou o que se vê entre pessoas e um toldo verde</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SQCqtWVIx4I/AAAAAAAAACU/wSiKAKaniKs/s1600-h/Clipboard07.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SQCqtWVIx4I/AAAAAAAAACU/wSiKAKaniKs/s320/Clipboard07.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5260392060833810306" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Vos no elegis la lluvia que te va a calar hasta los huesos quando salís de un concierto".&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tem essa figura que me atormenta hoje já a horas, um casal ou seriam talvez só amigos, não sei, estão de mãos dadas, pressuponho que sejam um casal, um casal e um toldo, desses verdes de padaria em que não se entra para comprar pão pois nem se sabe que a padaria está lá, o cheiro do pão não se desprende e flutua com o ar àquela hora da tarde e de qualquer forma, só estão ali pelo toldo. E a chuva. Que chove. As pessoas que andavam calmas, lentamente pela praça - agora vejam só que percebo que a tal imagem se dá perto da Praça da Sé, que a chuva também molha o Viaduto do Chá e os chafarizes que bom, sempre molhados, chovem para cima e para baixo em conformismo - agora mudam de passo, e se apressam e correm como se todos estivessem atrasados ou se a chuva molhasse os minutos e agora, com vinte e cinco úmidos minutos, mal dá para fazer seis ou sete. Mas isso eu até entendo, e perdôo, que parece que é isso que as pessoas fazem agora, nem que se perdoe com processo na justiça e indenização milionária e que em última instância seja culpa do sistema, mas perdoai-vos, eles não sabem o que fazem e agora tá ali o tempo todo molhado. Não, eles eu não culpo. Culpo os outros que já estavam apressados - ali o seu Silveira correndo com a valise preta de couro nas mãos de quase sempre, cena grotesca, o Silveira e a poça dágua, a água voando, o Silveira e as gotas dágua voando, agora eles se encontram, gotas dágua e um pouco de barro nas calças de veludo do Silveira e agora o pássaro voando assutado -, os que já estavam apressados e que agora pararam, um paradoxo, pararam, e entraram nos mercados, ali na venda de sorvetes - o Silveira pediu um de morango e baunilha agora, está se sentando mas não pegou o trocado -, outro na lotérica, não ganhou, nem apostou, tem um ali que vinha quatro, cinco passos para cada dois ou três chãos, já estava prestes a decolar, ganhando altura, o nariz embicando para o céu, e aí foi a gota dágua cair no nariz embicado que desequilibrou a coisa e que sete mariposas passaram naquele instante formando uma forma geométrica absolutamente revolucionária para as pessoas que se importam ou são formas geométricas, e que não posso descrever porque o senhor do vôo abortado preferiu o chão, e depois a padaria aqui atrás do nosso casal, ou talvez tenha simplesmente adotado o toldo verde.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E a rua enfim ficou vazia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Parece que agora sou eu quem tem que escrever sobre isso. Bom, o que posso falar do toldo verde é isso, que está manchado, ali quase na ponta esquerda tem um buraco de onde agora a chuva se cachoeira, agrupamento de gotas este que chocou deveras os poucos focos de resistência da secura local que ainda lá restavam, e na outra ponta tem uma beira de toldo que costuma passar o tempo, quando não colhe esses derramamentos esporádicos de céu, segurando folhas secas que se jogam de quando em quando de uma árvore de lá de cima que de vez em quando caíam e era de tanto bater e se esfolar contra o toldo azul escuro do quinto andar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dizem aliás que uma imaginação absurda e ainda inexistente desse lado de cá do universo, quando fosse juntar esses quandos de folhas secas caindo com outros quandos duas semanas depois de outra folha seca caindo, e assim por diante de quando em quando, teria uma percussão absolutamente aleatória de sons que se encaixariam em algumas músicas do segundo álbum do Velvet Underground, principalmente a dois e a sete.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Claro que agora são folhas molhadas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Debaixo do toldo, tem duas pessoas. O outro senhor definitivamente preferiu a padaria e os pães da padaria, e o pacote marrom papel que faz barulho de padaria.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Agora um guarda-chuva cobre as duas pessoas e não posso mais vê-las - sim, às vejo de cima, entre o toldo e as duas pessoas ou, agora, entre o toldo e o guarda-chuva. Imagino que esteja dependurado no teto do toldo, suspenso por algum tipo de corda ou algum gancho despropositado que me serviu de apoio, demonstrando uma força descomunal para um toldo que, lembrem, já estava parcialmente rasgado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Vejo mãos se chacoalhando para os dois lados. De um lado, com uma manga branca listrada, camisa social e mãos peludas, do outro manga de moletom verde claro, pele mais escura e menos agitada e, mas agora desce de volta e já não a vejo. Suspeito que ainda sejam duas pessoas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A chuva cai mais forte. Agora são folhas despedaçadas. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Estou nesse momento planando sobre a rua terminantemente vazia. Ao longe uma padaria e um toldo verde e um casal que agora vem correndo na minha direção. Nas mãos um guarda-chuva, e balança de um lado para o outro. A água entra por vários furos e chove uma chuva única e personalizada, com gotas mais grossas do que o normal, mas que caem mais lentamente, em lenta câmera - vejo meu reflexo em uma delas, estou acenando, a gota me acena de volta, eu de novo, agora não mais - dando tempo para que o cérebro perceba a primeira, no ombro, agora a segunda, na cabeça, escorrendo pelos fios de cabelo e indo de encontro com a outra do ombro, agora outra por detrás da orelha do outro lado. Verdadeiro conta-gotas imaginário, uma dessas maravilhas da mente. Daqui a trinta segundos já serão dezesseis gotas. Não chuva. Gotas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Afinal, é a contagem que separa uma da outra. Sincronia perfeita de eu com nuvem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não-chuva. Gotas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Continuam correndo cada vez mais para perto de mim. Agora chegaram, passaram direto, mas ainda posso vê-los. Cada vez mais solitários e quase desaparecendo no branco de neblina que se forma mais a frente, que nem o Viaduto do Chá mais eu vejo. Vai ver já nem é mais São Paulo. Ele já desapareceu, a manga verde, a chuva, mal guardada, e que se perde por aí até o próximo colecionador passar ou o Sol.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Novamente o vazio da rua. Nem apressados, nem os mais calmos. Vários vultos preenchem os tetos. Na neblina, um casal vive provavelmente a maior emoção que viveriam pelos próximos seis meses e doze dias, além de alguns segundos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-1435626859589266902?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/1435626859589266902/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=1435626859589266902&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/1435626859589266902'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/1435626859589266902'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2008/10/chuva-ou-o-que-se-v-entre-pessoas-e-um.html' title='A chuva ou o que se vê entre pessoas e um toldo verde'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SQCqtWVIx4I/AAAAAAAAACU/wSiKAKaniKs/s72-c/Clipboard07.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-4948321827247166541</id><published>2008-09-23T21:54:00.008-03:00</published><updated>2008-09-24T03:39:27.335-03:00</updated><title type='text'>O Mainá e o chinês solitário</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SNmTZufPP5I/AAAAAAAAAB4/UEkUgM5Ly3U/s1600-h/maina.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://1.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SNmTZufPP5I/AAAAAAAAAB4/UEkUgM5Ly3U/s320/maina.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5249388910862090130" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na China, um senhor de classe média de uma cidade de porte também médio, ao leste do país, resolveu adquirir um Mainá, ave típica local e que, dizem, consegue imitar sons tão bem quanto papagaios.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O solitário senhor, já de meia-idade, misantropo primeiro por medo de rejeição, depois por segurança, mais tarde por hábito e agora, enfim, por tradição, fazia mais uma tentativa de substituição do contato humano. Afinal, não era avesso aos diálogos. Era capaz de travá-los longamente consigo próprio. Não monólogos, diálogos, no sentido estrito do termo. Uma arte, dizia ele mesmo, que se considerava capaz de simular inúmeras personalidades dentro de sua própria mente, capazes de conversarem entre si, exporem longos argumentos e defenderem posições ideológicas inteiramente antagônicas de tal forma que ele próprio se sentia muitas vezes incapaz de tomar partido de uma ou de outra.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Agora, o solitário chinês alimentava novos projetos, especialmente depois de ter se encantado com uma conversa instigante que tivera com um pombo de rua em uma simulação inusitada que fizera em sonho, durante uma noite mal-dormida. Acordou inspirado, e desde então colocou na cabeça que não só queria, como que seria possível ensinar uma de suas personalidades, parcialmente ou por completo, a um pássaro, como quem ensina mandarim a um papagaio. Em princípio queria mesmo um pombo, que demonstraria o aprendizado através de manifestações corporais, como um bater de asas que refletisse esse ou aquele humor e, de fato demorou a ser convencido de que uma ave falante poderia se expressar com muito mais desenvoltura do que um simples pombo com gestos abstratos e uma vontade questionável de aprendizado. Contudo, como a loja de animais somente teria papagaios em duas semanas, decidiu-se enfim pelo Mainá.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Desde o primeiro dia, seu novo proprietário começara suas primeiras aulas. Teria uma personalidade semelhante à do pombo do sonho, com quem havia tido uma longa conversa sobre a filmografia de Michelangelo Antonioni. Ele falava de forma polida, mas com um orgulho de fundo que se manifestava quando se indignava com as motos demasiadamente ruidosas que entravam pela avenida vizinha e que, de meio em meio minuto, insistiam em interromper bruscamente a conversa. O plano didático incluía longas discussões com o Mainá sobre o cineasta, nas quais ele próprio faria o papel do pombo, que o Mainá deveria imitar, e Os débeis sucessos da primeira semana serviram somente para que o velho chinês intensificasse suas aulas e, ao término da segunda semana, passava quase que a totalidade de seus dias incorporando mentalmente a personalidade do pombo dos seus sonhos. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao término das duas semanas, o Mainá já possuía um vocabulário expressivo. Havia praticamente se transformado em uma enciclopédia do cinema novo italiano, e estava prestes a memorizar o elenco completo de 'Blowup'. Muito mais, sem dúvida, do que poderia imaginar o vendedor da loja de animais, ou qualquer estudioso das aves que tivesse algum mínimo conhecimento das limitações naturais das aves Mainá. Mas para o solitário senhor chinês, o que se via era somente um pássaro memorizando e repetindo palavras, quase que aleatoriamente, sem se preocupar com sintaxe e muito menos com características de personalidade e, quando voltara a loja na segunda à tarde resoluto a comprar dois de quatro papagaios que haviam chegado de navio da Nova Guiné na noite anterior, teria mesmo devolvido o esforçado Mainá não fosse a recusa tão veemente do vendedor em aceitar de volta a ave, já que, afinal, não seria possível revendê-la agora como se fosse nova um animal que já tinha adquirido um vocabulário tão extenso. Aceitara enfim que teria que trazer o Mainá de volta. Porém, posto que seu entusiasmo com a dupla de papagaios agora era grande, a rejeitada ave chinesa acabou esquecida em uma gaiola improvisada com um caixote de madeira que, outrora, havia sido recipiente de frutas exóticas que trouxera em uma de suas raras viagens pelo país - de fato, para uma pequena cidade a poucas dezenas de quilômetros de onde morava - e que somente deixara na sala de estar com os novos residentes da casa por medo de acabar deixando-o morrer de fome no sótão, esquecido entre outras quinquilharias que lá guardava justamente com o propósito de garantir para si próprio que seriam devidamente esquecidas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao contrário do Mainá, que do primeiro dia ao término da segunda semana de aulas sempre parecia mais fazer o tipo do aluno esforçado do que o de um estudante entusiasmado, os papagaios neoguineenses fizeram grandes demonstrações de excitação desde o primeiro instante. Falavam mais do que seu proprietário, conversavam mais entre si do que com seu proprietário e aprendiam mais um do outro do que daquilo que lhes ensinava o seu proprietário. Falavam dia e noite, falavam um na vez do outro, falavam na vez do proprietário falar, e falavam até nos raros momentos em que tentava se pronunciar o recluso Mainá, que por sua vez tentava silenciá-los com uma ou outra das muito poucas falas de Marcello Mastroianni em 'A Noite'. De fato, os papagaios mal ficavam em silêncio para comer, alternavam-se durante o sono, travavam longos monólogos consigo próprios enquanto o vizinho dormia e só se calavam realmente quando o gato de uma casa ao lado miava de fome, uma hora no almoço, outra hora no jantar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao término de duas semanas de aula, o velho solitário estava exausto. Se antes com o esforçado Mainá, havia se disposto a se transformar por completo em pombo-cinéfilo pelo bem da alta educação que deveria receber a jovem ave, agora, com os falantes alunos que trouxera da Nova Guiné, já não conseguia mais ser pombo, já não era mais ele próprio, nem nenhuma de suas milhares de personalidades. Sua mente estava vazia. Ele era o que eram os papagaios. Invadiam sua mente e suas idéias com seus longos debates - que eram realmente sobre qualquer assunto que lhes desse na telha - e o velho, acostumado a longos solilóquios durante décadas de sua vida, provavelmente ouvira naquelas semanas mais do que durante a vida toda. Mal conseguia dormir, e nos curtos silêncios provocados pelo ruidoso gato da vizinha, ele próprio preenchia o vazio de sua mente, como que por inércia mental, com reproduções das conversas de seus animados colegas de apartamento. Sua fadiga a essa altura já era tal que, no primeiro dia da terceira semana de convívio com os papagaios, as nove e quarenta e cinco da manhã, não teria notado nada de estranho no silêncio da casa com o miar de todos os dias, e nem teria percebido que ele já perdurava muito além da normalidade não tivesse sido capaz de estranhar, algumas horas depois, a existência de um segundo miado. Como se retornasse a uma consciência própria pela primeira vez após três semanas, notou surpreso que ainda era pouco mais de meio-dia, e que o primeiro miado havia começado horas antes do que seria o já habitual miado da hora do almoço. Enfim, percebeu que um dos miados era mais forte. Vinha de dentro da casa. Tentou então aproximar-se, aguçando os ouvidos. No caixote de madeira velho, estava lá o jovem Mainá. Tinha os pêlos assanhados de muitas noites mal-dormidas. Nos olhos, trazia um certo tom avermelhado, que um bom veterinário poderia identificar como se tratando de algum tipo de irritação causada por um longo estresse mental. Com sua voz, imitava o miado do gato com uma perfeição que enganara até mesmo a dona do animal na casa vizinha, que estivera a beira de dar-lhe comida antes da hora, e somente se conteve ao ver que o tal ainda dormia, quieto em seu canto, voltando aos seus afazeres maldizendo os maus hábitos dos gatos alheios. Os papagaios, por sua vez, mantinham-se em silêncio religiosamente como que em respeito sacro ao canto de martírio que parecia não mais se cessar. O Mainá sustentou o quanto pôde o miado que se esforçara por memorizar no decorrer de duas longas semanas. Mal se lembrava do que havia aprendido em suas aulas de cinema italiano, provavelmente jamais voltaria a falar em Antonioni ou Mastroianni e apenas esperava que o silêncio, que agora cantava com a própria voz, se prolongasse para além de suas forças para continuar miando, e que pudesse ainda reverberar por um longo tempo pelas paredes da casa, do caixote de madeira, e das jaulas luxuosas de metal dos dois papagaios neoguineenses.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-4948321827247166541?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/4948321827247166541/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=4948321827247166541&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/4948321827247166541'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/4948321827247166541'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2008/09/o-main-e-o-chins.html' title='O Mainá e o chinês solitário'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/SNmTZufPP5I/AAAAAAAAAB4/UEkUgM5Ly3U/s72-c/maina.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-1040224358133431761</id><published>2007-11-26T17:36:00.000-02:00</published><updated>2007-11-26T17:54:02.155-02:00</updated><title type='text'>Carta para o outro lado</title><content type='html'>&lt;em&gt;"Ça fait des siècles que j'attends le vent du desèrt et la pluie..."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei bem como foi, se foi o ar, mas acho que não porque tenho estado cheio dele nos últimos tempos e já mal posso cheirá-lo, não sei, como se eu tivesse cansado dessa coisa toda da respiração. Quando muito respiro pela boca, para enganar os transeuntes e fazer como se ainda me importasse com brisas e ventanias dentro de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então não, não foi o ar, foi outra coisa, talvez a grama no caminho para a faculdade que me pareceu verde demais, e então veio a idéia de tinta, aos montes, um caminhão de tinta verde como que passando pela rua na surdina da noite e transformando um quadrado de grama meio desbotada, amarelo-outono, outono-quebradiço, em verde-demais. Aliás, vai ver que nem era grama, era cimento que eu, com minhas memórias facilmente perturbadas pela vontade de ver essas coisas, acabou que troquei pedra por mato e se bobear ainda confundo cidade com zona rural e aumento os índices de êxodo urbano em alguma estatística que estará no telejornal local daqui algumas semanas em horário nobre, porque é disso que se gosta hoje em dia, de estatísticas, essa matéria estranha que dá nas pessoas a sensação de que algo que se vê ainda é real. E aí penso que é um mundo estranho esse, de pedras, falso, grama, falso, torre da igreja, falso, poça de água com pomba no meio, falso, jornal atirado no canto da rua como se rua tivesse canto, falso, mosquito que faz barulho no ouvido a noite quando quero dormir e nem lembro que canto de dia quando ele nem tem ouvido para apreciar, falso, porcentagem com número do lado e uma barra vertical roxa ao lado de outra verde, ah, sim, verdadeiro. Apesar de que acho que hoje em dia, nem isso mais serve pra suprir nossa dose diária de realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez uma buzina de carro. Berros em geral são reais. Ao menos, enquanto duram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas também não foi uma buzina até porque realidade não poderia fazer esse tipo de coisa comigo, e a grama ou concreto que era verde-muito na verdade eu já nem me lembrava e lembrei agora só para ter algo para escrever e poder negar depois que não, não era. Acho que essas coisas acontecem como que assim mesmo, como se pega uma gripe por um ar que entra onde não devia ou um nariz que tromba com atmosfera dura demais e se a atmosfera não cai no chão, cai o nariz. Daí que não respiro mais, só pra disfarçar, de vez em quando, no metrô ou no ônibus, esses lugares mais cheios de gente. E com a boca. Mas sim, como uma gripe, ou mosquito que entre bilhões de pessoas pousa exatamente no seu braço, ou entre infinitos mosquitos do mundo, é justamente aquele com corpo marrom escuro, quase preto, e asa que bate tão rápido que você quase não vê, esse justamente que tromba com seu braço, ou perna, e às vezes até no dedo do pé. Enfim, acho que se você tivesse lançado uma garrafa no mar, ou no Tejo, dessas com bilhete dentro, avisando do seu naufrágio, que Santa Cruz afundava por ser mais pesada que a água, ou porque debaixo de Santa Cruz não tem água mas sim uma grande corrente de ar, porque um gigante paleolítico sopra com todos os seus pulmões a milhões de anos para deixar Santa Cruz flutuando. Ou então que Santa Cruz agora é mais leve mesmo que o ar e por isso voa, e por isso você lançava a garrafa ao mar ou ao tejo, ou ao ar, ou mesmo nas mãos do gigante, e ainda assim haveria uma chance maior de ter feito tudo isso se desencadear do que do jeito que foi, se bem que não sei bem como foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que as coisas se somaram, e é capaz que nem acontecesse desse jeito se eu não tivesse encontrado a duas horas atrás em um café com uma moça que tocava na caixinha um samba antigo qualquer, desses que nunca se ouviu mas que ainda assim te fazem lembrar e viajar em uma pequena e insatisfatória overdose, ou underdose, se existisse, de nostalgia. E certamente não teria acontecido se não fosse o flamenco esforçado do rapaz que tocou para nosotros no alto do mirante que fica perto da Mesquita Mayor, ali em Granada, e que a corda até arrebentou no meio junto com o som, mas não chegou a arrebentar o flamenco que correu o resto que tinha que correr e chegou sôfrego e quase num fôlego só, ou numa corda só, até o final, que eu nem sei como foi direito que cientistas provam que é fisicamente impossível flamencos correrem tanto com uma só corda e não virarem outra coisa. Mas esse correu, fazer o quê. E no fim virou quase que sinfonia, pois que a corda continuava correndo e fazendo o flamenco seguir, enquanto três gaivotas que voavam por ali perto cantaram simultaneamente com três vozes levemente distintas no momento em que era para a corda soltar um ré-bemol e não ia conseguir, e com as gaivotas saiu até que algo mais ou menos isso, um pouco desafinado mas ninguém reparou. Um senhor sentado para o canto do mirante tentava dormir e se incomodou com um mosquito que lhe zumbia o ouvido, talvez o mesmo de antes com o qual eu poderia ter trombado, e tentando apanhar-lhe com as mãos fez ruído de palmas que os outros confundiram morte de mosquito com flamenco e acompanharam o ritmo. E algumas pessoas que tropeçaram no degrau da escada fizeram o sapateado que durou tempo o suficiente para que eu possa ao menos chamar aquilo de flamenco. Que se fossem só duas pessoas tropeçando, ou se a estátua fosse de um mouro ou uma árvore, já estaria mais para rumba ou salsa e olhe lá porque seria dessas variações modernas sem nenhum respeito à tradição do povo andaluz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem isso, te garanto que não teria acontecido. E é uma pena que acabe tão rápido, e que mundos tão grandes acabem como se muda de assunto, como se agora eu quisesse falar de outra coisa. Mas acho que nem quero. É que quando eu falo demais, você fica assim, calada, em silêncio, ou em Violeta Parra ou em Mercedes Sosa, porque contigo jamais é realmente silêncio e sempre tem algo no lugar, e que só se cala quando você resolve falar de novo, ou mudamos de assunto de novo, e você vem com duas ou três frases, às vezes menos ou mais, fala em agonia ou em casa, e uma coisa leva a outra e subitamente já tem um caminhão de tinta verde andando pelas ruas de Lisboa, de novo, no meio da noite, fazendo o concreto desabrochar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-1040224358133431761?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/1040224358133431761/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=1040224358133431761&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/1040224358133431761'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/1040224358133431761'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/11/carta-para-o-outro-lado.html' title='Carta para o outro lado'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-7939109161476879140</id><published>2007-07-30T18:18:00.000-03:00</published><updated>2008-12-10T13:32:46.857-02:00</updated><title type='text'>A culpa, a preguiça, a pressa e o pé</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/Rq5W6wWqzrI/AAAAAAAAABQ/mMZoSbIWqkg/s1600-h/p%C3%A9.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://2.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/Rq5W6wWqzrI/AAAAAAAAABQ/mMZoSbIWqkg/s320/p%C3%A9.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5093103796014993074" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Engatei a marcha à ré do carro mais ou menos no mesmo instante em que ele se aproximou, provavelmente porque seu passo para frente era meu olho cada vez mais fixo no retrovisor. Queria me obcecar pelo retrovisor mas não conseguia, então parei para olhar em seus olhos, bom, quase em seus olhos, um pouco mais para o lado inferior esquerdo dos seus olhos, entre o nariz e parte do lábio superior. E foi minha primeira derrota do dia. Quando os olhos têm medo, pulam de cima de um precipício e se fecham de vez em pálpebra corrida. Mas quando são covardes, esses só descem um ou dois degraus e se fingem de olhos abertos. Ali, entre o nariz e parte do lábio superior. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nem foi por muito tempo. Só o suficiente para que soubéssemos um do outro. É curioso que precisemos de uma fração de segundo de olho para sabermos do outro. Achava que só precisávamos de um olho inteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse-me com a fluência de uma palma de mão aberta que queria dinheiro. Bom, não sei dizer a bem da verdade se era uma palma de mão aberta ou uma camisa rasgada e uma barba mal-feita já que meus olhos desviaram tanto para não bater em nenhum pedaço de constrangimento no meio do caminho que acho que acabava não olhando para pedaço algum. Quando os olhos colidem com pedaços de constrangimento, eles amassam a igualdade. Ou o que tenta se parecer com ela, como pedestre que buzina ou poeta que tem ouvidos. Mas que queria dinheiro, não nessas palavras, queria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sabia se dava. Nessas horas, sempre me perco na trifurcação confusa da culpa, da preguiça e da pressa. Na pressa, deixei minha dúvida para ser resolvida enquanto pegava a carteira, para se fosse o caso. Na preguiça, a carteira já estava na minha mão, demais para ser à toa. A culpa, guardei na carteira no lugar das moedas, pra quando precisasse. Mas foi só quando abri o vidro que percebi que a igualdade já tinha se perdido por aí há muito tempo. Os muros de vidro nós só vemos quando estão na forma de cacos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não. Igualdade é pé. Engatei a marcha à ré de novo e foi mais ou menos no mesmo instante em que ele resolveu falar, provavelmente porque o muro para ele ainda era de vidro. Antes de ser pé, aliás, igualdade é troca. Troca de beijos por lágrimas na boca, troca dos exageros disfarçados de intimidade por provérbios disfarçados de conselhos, ou do fogo do isqueiro trocado por palavras de cigarro e fumaça de conversa. No caso, ele achou mesmo que podia trocar um punhado de moedas e de pedaços de olhos entre o nariz e parte do lábio superior que eram quase olho, por palavras. O senhor do cigarro me devolvera o fogo do isqueiro na forma de comentários sobre o programa de pós-graduação em Direito de uma universidade particular e de críticas à falta de uma filosofia jurídica séria e de respeito na academia. Achara que era demais e retornara-lhe o troco balançando a cabeça distraidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema de se devolver em palavras é o mesmo daquele do devolver em presentes. O risco de entrarem por um ouvido e saírem desembrulhados. Ou estaríamos a trocar espetáculos e não tédio, e o fogo de artifício seria qualquer coisa. O problema é que somos diferentes demais para que nossas palavras se encaixem na geometria estranha do ouvido aleatório do outro, mas não o suficiente para que o desencaixe nos surpreenda e se transforme em fantástico mundo encantado carnavalesco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele, talvez por reflexo do muro de vidro, achou que meus ouvidos tinham a forma do mesmo triângulo que as suas palavras isósceles. Vai ver tinha. Disse com um sorriso no rosto, despencando olhos em todos os pedaços de constrangimento que podia.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;"Andei demais hoje. Meu pé já tá até rachado. Olha só". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei, com os poucos cantos de olho que ainda restavam. "Olha só". Olhei para tudo o que ainda não tinha visto direito. O rosto moreno de sol, a barba descia o queixo e chegava quase a esbarrar na camisa quase em fiapos de um azul desbotado o suficiente para contrastar com o céu. As rugas de seco nos olhos vão lhe dar um aspecto senil um dia e vai ser antes da hora. Por enquanto, o sorriso no rosto daria a idéia de um hippie tardio, se eu tivesse licença poética e alfandegária para exportar anacronismos. "Olha só". Não, os olhos jamais olham para todos os lados. Tropeçamos em um bilhão de paisagens. A cada instante. Que tipo de estética nos faz olhar para cá ou lá? Que tipo de moral? Que remorso é suficiente para que a pressa deixe de lado a pálpebra e olhe, mais e mais, achando que pode tudo ver? Qual é a culpa que deixamos de ter achando que nada fica guardado pela sombra? Muito se esconde. Até em nós mesmos. Até o Sol tem eclipses. Quem é o olho para ficar aberto? "Olha só". Flutuei do retrovisor ao tornozelo. Nessas horas, sempre me perco na trifurcação confusa da culpa, da preguiça e da pressa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na pressa, achei que era igualdade. Na culpa, olhar para um pé rachado se confunde com igualdade. E talvez seja, e talvez dure um ou dois segundos como um orgasmo. E na preguiça, talvez dure até mais do que tive vontade de contar.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas seus olhos, não. Esses, talvez na pressa, não vi. Agora, forçando a memória, só lembro do que vi uns dois degraus abaixo. Ali, como um covarde, entre o nariz e parte do lábio superior.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-7939109161476879140?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/7939109161476879140/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=7939109161476879140&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/7939109161476879140'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/7939109161476879140'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/07/culpa-preguia-pressa-e-o-p.html' title='A culpa, a preguiça, a pressa e o pé'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/Rq5W6wWqzrI/AAAAAAAAABQ/mMZoSbIWqkg/s72-c/p%C3%A9.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-5365325035299114643</id><published>2007-07-12T18:34:00.000-03:00</published><updated>2007-07-12T21:10:29.757-03:00</updated><title type='text'>Galhos de tempo</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://www.pili.com.br/images_portfolio/45.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px;" src="http://www.pili.com.br/images_portfolio/45.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Recebi a notícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro que uma vez, durante uma aula, me falaram a idéia dos arquétipos, esses rabiscos de pessoas no qual podemos encaixar toda a humanidade. Costumo dizer que é o papel do intelectual esse de reduzir as grandes pedras do mundo a pedregulhos. Nas grandes pedras, se tropeça. Já os pedregulhos, esses nós os jogamos nos lagos e poças de água que acontecem de esbarrar com nossos olhares ansiosos por espetáculos. Como bons gozadores que somos, tropeçamos os lagos nos pedregulhos e rimos com seus círculos de água. Por alguns instantes, eles nos fazem acreditar no infinito. Mas dura pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a água parada é o tédio, a onda é o fantástico. Daí os pedregulhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o intelectual, o pedregulho é aquilo que ele pode levantar. É a pedra que estava no meio do caminho mas que ele pode pegar com a ponta dos dedos e, com olhar de voyeur, observar as marcas daquilo que ela derrubou. Seres humanos, formigas ou lagos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se pode estudar uma pedra sem nela tropeçar. Estudar a pedra que está no meio do caminho é ter uma pedra no meio do caminho. Intelectuais não costumam gostar da realidade. Preferem o mundo dos interruptores. Apaga-se a luz para que se acendam os arquétipos. É a saída do cientista, do filósofo e da mente distraída para o medo do fantástico que é também o medo do tédio. Para quê servem as grandes pedras do mundo quando podemos tropeçar nos pedregulhos da nossa mente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizem que toda história contada, por mais torta ou gaguejada que seja, é um prédio de palavras que só pode ser construído - e, porque não, derrubado - com as mãos de oito pessoas. Minto, pessoas não, pedregulhos. Quer dizer, arquétipos. É necessário um Herói para levantar o prédio. Uma Sombra que o cegue. Um Mentor que o faça enxergar sem olhos. Um Arauto para lembrá-lo que entre cada tijolo, existe um cimento repleto de acaso e que o prédio está sujeito a cada ventania que passa. Ou que deixa de passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero falar do Arauto. O Arauto é o invasor do normal. Arromba portas de casas e de mentes. Para cadeiras, mesas, papéis e idéias, o vendaval é o mesmo. Ou pior. Não é o mesmo. O Arauto é, afinal, o homem que de tanto respirar, deixou de conformar com a idéia de ser mera fábrica de brisas. Passou a soprar. Cansado de levantar as mesmas folhas, começou a caminhar. Viaja o mundo com seus sopros. Vê graça naquilo que vôa sem saber voar. É o que o diverte. Outros preferem trotes telefônicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posto de outra forma. O Arauto é aquele que conta noticias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava sentado, estado daquele que não se conforma com o balançar constante e incerto que é o estar de pé. A sala se encontrava repleta de objetos estáticos, ocupados de nada além do seu próprio silêncio peculiar. Meu olhar estava perdido em algum ponto fixo do cenário e eu, em uma de minhas asserções sempre arriscadas a trombarem-se com as vírgulas alheias, estava prestes a admitir que se poderia viver muito bem dentro de um único e impensado quadrado aleatório de olhar. Vivia a glória de ser Deus de um único ponto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É interessante perceber que ser Deus está acima da curiosidade de se olhar para o lado. Olhar para o lado é perder o controle. O que é o mesmo que descobrir que algo no mundo ainda pode te surpreender. Há dragões depois do ponto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi sentado que recebi a notícia. Não sabia se havia entrado pelo vão da janela ou pela brecha de minhas pálpebras entreabertas, de modo que avancei rapidamente em direção de ambas para fechá-las. A notícia continuava ali, condenando-me a confundir minha ordem das coisas com a coisa bagunçada do que não é meu. Penso que foi algo parecido com o que acontece quando moscas desavisadas passam por cima dos muros que erguemos como trincheiras em uma guerra contra o acaso. Pois que é isso que faz a mosca. Lança granadas de falta de controle sobre nossos projetos arquitetônicos de bagunça planejada. Voa distraidamente e derruba distração na nossa necessidade olhar para algum lugar. Fixo. Forjando nossa onisciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até a chegada da próxima mosca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, atordoado com a arrogância da invasão que não bate portas, comecei a andar. Saí pelas ruas, tomando banho de sol, chuva e de acaso. Trazia no bolso a notícia, que ainda tinha dificuldades para se acomodar com&lt;br /&gt;as poltronas difíceis do resto do meu mundo de notícias velhas de revistas do ano passado. Via de um lado da calçada uma mulher, já em seus cinqüenta anos, que carregava nas mãos seus sacos de compras. Caminhava com dificuldade e não percebia que um dos potes de conserva que trazia, mal acomodado, flertava com o chão a cada passo. Do outro lado da rua, uma jovem estava sentada com o olhar de quem olha para o tempo esperado mais do que para o espaço. O olhar passava intacto pelos carros que o atropelava cruelmente a cada segundo. As mãos partiam galhos de árvores caídos, partindo com eles alguns galhos de tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto mais galhos de tempo você quebra, mais você se aproxima de um mundo incerto e sem galhos. Se ela pudesse, quebraria o futuro. Quem não tem o futuro, usa galhos. Com algum esforço, você pode até disfarçá-los de solução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuei andando, e o chão me levou ao encontro de um pedregulho que comecei a chutar, sem pensar. Arrastei-o comigo por diversos quarteirões. Só parei quando cheguei no futuro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-5365325035299114643?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/5365325035299114643/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=5365325035299114643&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/5365325035299114643'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/5365325035299114643'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/07/galhos-de-tempo.html' title='Galhos de tempo'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-3597547744253996481</id><published>2007-03-08T03:37:00.000-03:00</published><updated>2008-12-10T13:32:47.028-02:00</updated><title type='text'>O Berro do Olho</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/Re-xG_QaNXI/AAAAAAAAAA8/QD0tbbjijuo/s1600-h/eye.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5039441241668466034" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/Re-xG_QaNXI/AAAAAAAAAA8/QD0tbbjijuo/s320/eye.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;div&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;I&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O som da boate era ensurdecedor. Os dois já estavam lá há quase duas horas, e a sala transbordava de realidade própria criada pela ditadura de seu próprio som. Como em um berro, aquela sala escura e apertada, em que mal cabiam as pouco mais de quarenta pessoas presentes, também era um ato de guerra contra o ruído alheio. A boate, assim como o berro, vê no ruído a idéia de interferência, ou, mais do que isso, de estilhaçamento de algo que deve ser pleno, tão total quanto o silêncio. São a tentativa de invenção de uma jaula de som, colonização totalitária do ouvido. Resta ao ruído o grito de fuga. Ato desesperado em contra-berro.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;II&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Era um beijo o que lhes acontecia. Ele gostava de lembrar de que haviam dado seu primeiro beijo em cima de um bueiro, na noite de uma das ruas movimentadas da cidade. Tinha uma concepção própria bastante peculiar de sua vida. Via-se como um grande rascunho para os rolos de papel-biográfico que usava de remo para suas conversas do dia a dia. Não via na vida muito mais do que uma longa e exaustiva feira de escambo de contos e causos, dessas em que vamos fazer compras em dias de calor, debaixo de um Sol forte que certamente incomodaria sua pele exageradamente branca, pouco adaptada ao verão brasileiro. A história do bueiro era bastante boa, e tinha bom preço de mercado. Assim, se havia agora um segundo beijo, era porque sabia que a eternidade do primeiro beijo é sempre sombra de uma infinitude de beijos seguintes. O mercado de conversas era exigente, e o endividava com o resto de sua vida.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;III &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Ele levara alguns anos antes de conseguir compreender a essência da idéia da boate. Antes, ainda em sua meia-adolescência, ele via naquele monte de caixas de som empilhadas – que espalhavam, por uma sala pequena e escura, músicas velhas com o volume-alto daqueles que não tem outro argumento que não o próprio berro – uma espécie de monumento ao desespero. As danças desordenadas lhe lembravam ataques de histeria, do tipo daqueles que lia nos livros de psicologia, e associava o som absurdo a uma tentativa quase psicótica de transformarem o espaço, o próprio ar ao seu redor, em algo tão caótico quanto o que viam por dentro de si. A imagem que lhe vinha era a de uma fraternidade humana do caos que tentava ritualmente virar-se do avesso.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;IV&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Ainda se beijavam. Tinha o hábito de abrir os olhos durante o beijo. Havia passado por uma adolescência de poucos amores, e as diversas paixões platônicas, com que preencheu suas garrafas descartáveis de poesia nesse período, só serviram para fazer crescer dentro de si uma imagem de corpo humano que flutuava demasiadamente sobre a sua própria realidade para ser alcançado por seus dedos exageradamente sólidos. O toque humano foi uma fábula a qual ele não pertenceu até seu pouco mais de meados de adolescência, surpreendido por uma garota seis anos mais velha, estudante de história no interior de Goiás, e que jamais veria de novo. O corpo era para ele aquele pássaro raro, que não se vê a não ser ao longe, em vôos fortuitos que obrigam os olhos a percorrerem maratonas de céus e nuvens para o alcançarem em sua eterna viagem para além do real. Bom, talvez não além do real. O pássaro raro é para o grande explorador o único copo de realidade que ele irá saborear em sua vida. Aliás, provavelmente ficaria deveras bêbado se pudesse pegá-lo nas próprias mãos.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ele não hesitou em abrir os olhos durante os poucos segundos de seu primeiro beijo. Seus olhos pareciam querer olhar por entre os poros de sua amante, como se a magia daquele momento pudesse estar escondida ou perdida por debaixo dos escombros da pele humana. Agora, anos depois, ainda fazia o mesmo. Beijava-a, mas seus olhos entreabertos ainda esbarravam no labirinto dos poros humanos.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;V&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Os olhos dela se abriram. O barulho interminável da boate a incomodava, e viu-se subitamente contagiada pelo medo pouco razoável de que já não tinha mais a certeza de quem estava beijando. Era invadida por uma claustrofobia estranha, de quem não se sentia mais capaz de fugir; de fugir daquela música, que já há muito havia vencido aos esforçados gritos alheios, tornando roucas as vozes que ainda se aventuravam em surtos de heroísmo ingênuo; de fugir daquela sala, em que os passos se confundiam com os esbarrões, e os esbarrões já não sabiam se estavam a esbarrar ou a pisotear enquanto a porta de saída se perdia no meio da mistura que já não possibilitava distinção entre multidão e paredes; ou mesmo, de fugir de seus próprios olhos fechados, que ao menos a poupavam de redescobrir uma realidade da qual sua memória já pouco se lembrava. A verdade era que não sabia bem qual era o seu medo, e de fato achou-o tolo demais para dar-lhe qualquer real importância em princípio, ao ponto de resolver cerrar ainda mais os olhos que, por mais meia hora, recusou-se terminantemente a abrir. A cegueira voluntária transformava-se em troféu e talvez até tivesse acreditado, por um daqueles momentos que os relâmpagos de lógica dos nossos cérebros ainda não haviam tido tempo de atingir, poder exibi-lo algum dia em favor de sua própria glória. Juntaria esta a muitas outras já esquecidas ou pouco lembradas em sua empoeirada sala de troféus, que agora começava a ocupar um espaço pouco razoável de sua consciência.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;VI&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;As grandes batalhas costumam se esquecer de suas origens tolas e seus mortos geralmente acabam enterrados em valas comuns, junto com suas razões fúteis. A guerra é uma fábrica de glórias que exala por suas chaminés seus resíduos poluentes sob a forma de derrotas. E é isso o que fica. Embalagens recicláveis de glória de plástico e alguns céus poluídos demais para que os olhos dos vivos possam transpor a fumaça da derrota e tentar ver alguma razão de ser nas poucas estrelas que talvez ainda insistam em brilhar, na esperança vaga de serem vistas.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;A decisão de manter-se na escuridão dos olhos fechados por mais meia hora transformou a tolice original do medo de abri-los em uma grande batalha sem razões. Já não se lembrava mais daquilo que mantinha seus olhos fechados. O medo, mais do que as idéias, envelhece. Entedia-se com as idéias que o mantém preso. Passa a acreditar que pode viver sem elas. Olha-se no espelho, e então, já não é mais um medo que se vê. É um dogma. Pois que o medo fica. As idéias, se esquecem.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;VII&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Sim, os olhos dela se abriram. Queria olhar ao redor, reconhecer seu mundo, maravilhar-se com a fantástica paisagem do mesmo-de-antes. Não conseguiu. Seus olhos trombaram com os olhos da frente, dele, incrivelmente abertos. Era a primeira vez em que se olhavam nos olhos. Provavelmente, compartilharam um ou outro instante em que pensaram em forjar um olhar de lado, desses que buscam o conforto das paisagens vazias. O olhar é o fardo da existência. Beijavam-se até então sem que trocassem olhares, como quem tenta não admitir a existência do outro. Não estavam lá, e flutuavam na leveza fantástica do mundo fabuloso dos cegos. Seus olhos, porém, estavam agora demasiadamente próximos. A paisagem do olhar do outro era total. Já não sabiam mais há quanto tempo se olhavam e, provavelmente, pela primeira vez, pareciam acostumar-se com o peso da existência. E isso já não importava. Seus olhos berravam. Alto, talvez demais para que pudessem ouvir a música que continuou tocando até as primeiras horas da manhã, quando a chegada do silêncio parece ter passado despercebida pelas pálpebras desatentas de alguns.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-3597547744253996481?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/3597547744253996481/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=3597547744253996481&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/3597547744253996481'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/3597547744253996481'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/03/o-berro-do-olho.html' title='O Berro do Olho'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/Re-xG_QaNXI/AAAAAAAAAA8/QD0tbbjijuo/s72-c/eye.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-1150650255434864043</id><published>2007-03-02T22:38:00.000-03:00</published><updated>2008-12-10T13:32:47.419-02:00</updated><title type='text'>As fotos</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/RejXRdn9eII/AAAAAAAAAAw/52AcVDpevsA/s1600-h/sorriso.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5037512878223882370" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/RejXRdn9eII/AAAAAAAAAAw/52AcVDpevsA/s320/sorriso.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Tinha o hábito de querer a felicidade que via nas fotos. Olhava para dentro de sua bolsa de valores morais que carregava consigo desde a infância, ainda que com a displicência de quem os esquece de vez em quando, como que para arrumar espaço para sentimentos mal mastigados. A desordem da bolsa a deixava confusa, e o deslumbre de algum objeto que se assemelhava com a inveja tornou-se demasiado fosco para que fosse levado a sério. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Sim, ela sabia que aquelas pessoas felizes das fotos não eram sempre felizes, que talvez não fossem felizes nem naquele momento da foto, em que parecem felizes. As fotos são construções de realidades, são representações. Uma tentativa humana frustrada de transformar a beleza orgásmica de instantes devorados pelas mandíbulas pouco razoáveis do instante seguinte, trancafiando-os na segurança de uma jaula de papel-cartão. Álbuns de fotografias são zoológicos de instantes, provavelmente presos demais para se reproduzirem em cativeiro. Mas mesmo assim ela queria roubar aquilo, com toda a força do seu ser, cada vez que via um álbum de fotografia, ou mesmo uma só foto, queria para si aquela felicidade, a qualquer preço. Mas sempre sorria, com um sorriso automático demais para ter saído da velha bolsa da infância, e dizia:&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Que bonita! E é lindo esse lugar, onde é?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Estava presa, não importava onde fosse, não importava onde passasse suas férias, estava presa a um lugar. À insatisfação.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Provavelmente não era só essa realidade artificial forjada por instantes trancafiados em fotografias o que a incomodava. Olhava para suas próprias fotografias com olhos velhos, usados, tanto quanto os momentos de que tentava lembrar. Girava seus olhares de um lado para outro de suas próprias fotos, como que se tentasse remover-lhes esse pó que contagia como que por epidemia todos os momentos entulhados nos depósitos pouco conservados de passado que às vezes revisitamos, quase sempre com alguma frustração nostálgica. Sim, era o pó que embaçava as fotos, e incomodava os olhos.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;A felicidade que via nas fotos de amigos era de uma limpeza impecável. Ou ao menos, era assim que se sentia. Sentia, pois não sabia descrever bem o sentimento que lhe vinha. Sabia simplesmente que o que via ali era belo, tanto quanto incômodo. Via essas fotos com olhos recém-nascidos, lavados por lágrimas que poderiam até ter de fato caído. Mais do que isso, percebia nesses instantes, trancafiados que estavam para não fugirem para a selva pouco visitável do passado, momentos novos, de presente absoluto, como se tais instantes tivessem nascido e vivido desde sempre em cativeiro. As fotos de felicidade dos outros pareciam mais reais que a memória empoeirada que guardava em algum arquivo de felicidade do cérebro.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Vagava agora por uma daquelas ruas de qualquer beleza turística, transitando de momento em momento como que vendo, um por um, as mortes ainda precoces destes momentos que se vão antes de se transformarem em algo. Ela não sabia definir bem este algo. Fingia orgasmos de felicidade enquanto ouvia frases de outros que nelas se pretendiam eternos. E ela queria acreditar nessa eternidade. Se esforçava, quase sempre em vão. Era jovem, em sua mal resolvida adolescência, mas parecia querer a eternidade dos velhos, que viveram o suficiente para tomar conhecimento de que algumas de suas memórias sobreviveram a décadas de bombardeios de tempo, e ainda vivem, ainda que empoeiradas, bem conservadas no presente.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;As férias eram para ela o período do ano reservado para a fabricação de felicidade, e o tempo parecia bombardear essas raras chances de vida real - porque, para ela, não poderia haver nada de real naquele cotidiano repetitivo de cada dia, que não aparecia nos álbuns de fotografia nem nas conversas de bar - de forma impiedosa. Sentia-se angustiada. Jogava no lixo um bom pedaço de realidade por mera incompetência. Não sabia existir.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Passou a última noite de viagem com amigos, em um dos bares famosos da cidade. Havia pedido para que um garçom lhes tirasse uma foto com vista para a paisagem urbana do fundo, que registrava uma torre alta e larga, de um branco meio sujo pelo tempo, e que era monumento turístico da cidade. O garçom lhes pediu para que sorrissem. Ela esticava seus lábios de forma a mostrar parcialmente os dentes, e assim permaneceu, durante os longos cinco segundos entre o flash da câmera, e o esforço sobre-humano do sorriso que abria, espontaneamente, para o desconhecido de avental já meio sujo, de fim de expediente.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;Co-autora: Ana Emília Cullen&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-1150650255434864043?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/1150650255434864043/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=1150650255434864043&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/1150650255434864043'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/1150650255434864043'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/03/as-fotos.html' title='As fotos'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/RejXRdn9eII/AAAAAAAAAAw/52AcVDpevsA/s72-c/sorriso.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-4725235003704091691</id><published>2007-02-20T06:42:00.000-02:00</published><updated>2007-02-21T05:23:56.717-02:00</updated><title type='text'>Sobre rock, jabotis e casacos vermelhos</title><content type='html'>&lt;a href="http://www.billbasquin.com/images/red%20coat%20B%20002.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://www.billbasquin.com/images/red%20coat%20B%20002.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Às vezes acho que nosso cérebro é um grande álbum de fotografias. Mas não falo de memórias de amigos ou familiares. Falo de fotos da pessoa aleatória, dessas com que trombamos nos deslizes do dia-a-dia. Ao longo da vida, colecionamos pessoas, rostos, gestos e personalidades e, de tal forma, que os tratamos como se estivessem intrinsecamente relacionados. Criamos um laço quase inquebrável entre a memória e o novo que irrompe a todo instante a nossa frente, como que na esperança de que o tempo, ou seja, o futuro, não fosse mais do que repetição. E na realidade, a memória não é mais do que isso. A esperança da repetição.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Quando encontrei-me com a garota do casaco vermelho e botas marrons, meu cérebro não poupou esforços para transformá-la em redundância dos meus vários passados. Transformou sua saia jeans em repetição da personagem do filme da semana passada, e fez de sua voz, que oscilava graciosamente de palavra em palavra, a voz de uma garota que não cheguei a conhecer na quinta série do colégio, pois que, na época, eu ainda estava sem palavras.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Mas o mais belo era o casaco vermelho, que eu não sabia de que passado vinha. Era dessas coisas que simplesmente fazem sentido, e nossa preguiça não costuma fazer questão de vasculhar a poeira dos nossos cérebros em busca de significados com cheiro de mofo. Simplesmente deixa as coisas fazerem sentido. Aliás, viram sentido de si próprias. O casaco vermelho me lembrava do casaco vermelho, e isso o tornava ainda mais mágico.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Olhei para ela várias vezes, inicialmente para vê-la. Depois, para ser visto. Era uma garota desconhecida de casaco vermelho em um show de música em plena noite de segunda-feira, e tudo o que tínhamos em comum não era mais do que fabricação dos frankensteins de restos de lembrança morta que eram as minhas memórias. Costurava pedaços de pessoas em minha mente, e tentava conversar com esses pedaços em meu cérebro, como se pudesse assim conhecê-la dentro de mim antes de conhecê-la do lado de fora.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;E assim nos conhecemos. Profundamente. Conversamos por horas, sobre rock e jabotis, granadas e quintais de casa. Conheci cada gesto, cada cara e toda resposta inesperada que ela dava para cada pergunta burocrática que eu pudesse fazer. Daí minha surpresa ao vê-la bruscamente chamada ao palco. Ameaçou sentar-se em uma cadeira mas, com um violão preso ao pescoço, se sentiu incomodada e preferiu ficar de pé. Ainda teve que tirar o casaco vermelho antes de cantar com a voz daquela garota da quinta série do colégio que eu não cheguei a conhecer.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Voltou depois de cinco músicas e quase esbarrou em mim indo para o bar. Olhei para ela e fiz menção de chamá-la como se fosse um absurdo não cumprimentá-la afetuosamente, como amigos ou amantes de longa data. Interrompi-me. Não a conhecia e tinha que fingir que não a conhecia.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Pensei em ir embora sem mais palavras. Subi as escadas que davam para a saída, mas voltei com todas as palavras na ponta da língua, e que teriam sido lançadas ao ar, se não fossem dissolvidas antes pela saliva. Pela saliva, ou pelo garoto alto, com barba malfeita que conversava com a garota do casaco vermelho em frente ao bar. Ou talvez fosse pela música ingenuamente alegre da banda que subia agora ao palco, e que eu desafinava com minha tragédia fora de contexto. Voltei a subir as escadas.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Algumas semanas depois, me encantei com uma moça que tocava violão em uma festa de formatura. Ela vestia um casaco vermelho, e me lembrava vagamente de alguém. Alguém que não tocava violão. Simplesmente conversava comigo, sobre rock e jabotis.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-4725235003704091691?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/4725235003704091691/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=4725235003704091691&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/4725235003704091691'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/4725235003704091691'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/02/sobre-rock-jabotis-e-casacos-vermelhos.html' title='Sobre rock, jabotis e casacos vermelhos'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-4483010630920249085</id><published>2007-02-17T07:01:00.000-02:00</published><updated>2008-12-10T13:32:47.589-02:00</updated><title type='text'>Os cacos de vidro</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/RdbGCNiPjdI/AAAAAAAAAAk/B9ui6akWCHs/s1600-h/glass.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5032427374928432594" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/RdbGCNiPjdI/AAAAAAAAAAk/B9ui6akWCHs/s320/glass.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Eu saía do teatro quando ele deixou o gorro cair. É estranho, mesmo após alguns meses em terras canadenses, ainda não acredito que eu possa falar inglês. Ao menos, não de forma improvisada. Frações de segundo se passam para que meu cérebro possa ensaiar um monossilábico "sir!", enquanto eu apontava para o gorro com o dedo indicador em uma linguagem que transbordava qualquer idéia de universal. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ele agradeceu. Perguntou-me sobre um trecho do final da peça, que ele não tinha entendido bem. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Uma vez escrevi sobre a comunicação com estranhos. O silêncio das multidões é como uma vidraça. Alguns tem coragem de jogar-lhe pedras. Recebem de volta cacos de vidro e de berros que tentam lhes indicar sua loucura. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A vidraça é, de fato, a pressuposição da loucura universal. Pairando sobre o mundo em meu pára-quedas imaginário, visualizo um aglomerado gigantesco de formigas andando nas pontas dos pés e amordaçadas pelas bocas para que elas não derramem palavras em seus espasmos involuntários. Todas esperam por passaportes que permitam o trânsito legal entre as fronteiras do eu para o outro. Mas são também muros de Berlim de si próprios. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Sim, a vidraça é a pressuposição da loucura universal. Ao menos, até que seja cometido o primeiro ato de sanidade. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Provavelmente essa é a condição ontológica do estrangeiro. Um eterno primeiro ato de sanidade. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Tornei-me são a partir do momento em que peguei o gorro no chão. O monossilábico "sir!" retirou-me do manicômio das multidões. Ele agora me perguntava sobre o trecho final da peça. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Respondi que também não havia entendido. Rimos como irmãos de berço e nos cumprimentamos como se ainda fôssemos nos ver.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Minutos depois, entro em um ônibus e um homem comenta comigo sobre um anúncio de propaganda, estampado sobre uma das janelas. Na realidade, não comentou comigo. Jogou palavras no ar, esperando que eu pegasse, como se fosse um gorro que caía. Dei-lhe uma resposta monossilábica e deixei as palavras no chão. Tomei o cuidado de não pisar nos cacos de vidro enquanto me mudava para outro assento.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-4483010630920249085?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/4483010630920249085/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=4483010630920249085&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/4483010630920249085'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/4483010630920249085'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/02/os-cacos-de-vidro.html' title='Os cacos de vidro'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/RdbGCNiPjdI/AAAAAAAAAAk/B9ui6akWCHs/s72-c/glass.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-8088158428345427331</id><published>2007-02-12T21:08:00.000-02:00</published><updated>2008-12-10T13:32:47.752-02:00</updated><title type='text'>O gato de olhos azuis</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/RdD3btiPjcI/AAAAAAAAAAU/y21g-qpB_Ao/s1600-h/gt_ol_az.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5030792839224593858" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/RdD3btiPjcI/AAAAAAAAAAU/y21g-qpB_Ao/s320/gt_ol_az.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Já era fim de tarde, daquelas tardes em que as famílias se reúnem após os longos almoços de domingo, quando eles me convidaram a entrar. A casa era de um casal de amigos da família, já de meia idade e uma filha adolescente. Eu visitava como se cumprisse ordens. Não sei de quem. &lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Algumas relações parecem se sustentar por redundância. Aliás, não por redundância. Por precaução. Via a vida como um prédio em construção e aquela família parecia ser parte fundamental da pilastra central de sua própria arquitetura, apesar de nunca ter sido capaz de entender bem como. Agiam como tijolos, e parecia natural que agissem como tijolos. Pedaços de pedra não se questionam. &lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Sim, entrei na casa, e entrei esbarrando em uma ou duas paredes como se fossem três ou quatro. O corredor estreito que dava para a sala se tornava ainda mais estreito com as decorações que se dependuravam por toda a casa, de modo que andava como se não pudesse. Os pés faziam o chão ranger, e não lembrava de ter ouvido o ranger do chão quando eles entraram. Jamais um chão pisoteado havia celebrado tamanha glória contra um pisoteador. Qualquer pisoteador. O chão era uma bota, e me esmagava. &lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Mas não era para tanto. A tragédia do eu era um belo romance ainda a ser escrito e eu gostava de imaginar seu prefácio nas horas vagas, entre um corredor e uma sala. &lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Sentei no sofá da sala com o leve desconforto de uma almofada branca acolchoada enquanto trocava palavras já esquecidas com o casal que se sentava na minha frente como se ouvisse. Teria me esquecido dos minutos seguintes do encontro também, não fosse a filha vinda do porão com um gato nas mãos. Gato recém-acordado, diga-se de passagem, e que talvez se assustasse mais com a presença estranha na casa não fosse o absurdo de se perceber transportado, antes que o tempo pudesse fabricar um instante, de um sonho incalculável para dois braços que faziam da paisagem fantoches enquanto o carregavam rapidamente até o tapete branco no meio da sala. Senti por ele, pois sabia que havia sido retirado de seu sono por minha causa. Aproximei-me para tentar agradá-lo, e percebi seus olhos peculiarmente azuis, observação que devo ter metralhado em voz alta sob a forma de vocábulos. &lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Atenta às minhas aleatoriedades, a garota que me trouxe o gato voltou ao porão. Retornou segundos depois. — Os gatos de olhos azuis tem olhos pouco azuis quando acordam, disse me mostrando fotos do gato, ali com olhos ainda mais brilhantes. Acho que ainda folheava as fotos nas mãos quando minha mente, pouco confortável na almofada branca acolchoada, resolveu descer os degraus até o porão sem se preocupar em consultar o meu corpo. Voltou sem calcular o tempo que levou, trazendo nos bolsos os degraus do porão. Eram nove, mas poderiam ser onze ou doze, que se multiplicavam por duas idas e duas voltas para somarem trinta-e-seis degraus que se subiam e se desciam. E estranhamente, por minha causa. &lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Olhei em seus olhos e percebi que não eram azuis. Eram de uma cor que eu ainda não tinha visto, pois havia me esforçado durante o almoço para não agredi-la com meus olhares. Geralmente, falava com ela as palavras que os silêncios desconfortáveis me pediam para falar, e se não a olhava nos olhos, era simplesmente porque não achei que podia. Agora, pensando, não sei bem explicar. Indiferença, medo, pudor, polidez, são palavras que são significado de si próprias, mas pouco mais do que isso. Acho que não olhei em seus olhos antes por achar que seus olhos seriam frágeis demais, em seus quinze anos nublados, para tolerarem a agressão de serem vistos. Ser visto é tornar-se o mundo do outro. É a fração de instante em que um impera sobre os sentidos do outro. Tudo isso me fazia sentido desde que não fosse pensado. Distraído, não pensava. Então não olhava. &lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ela mesma havia falado pouco até então. Falava agora dos olhos azuis do gato como se não houvesse mais do que falar. E talvez de fato não houvesse, no pequeno dicionário de palavras que se forma entre duas pessoas tão distantes, mas que olham de tão perto nos olhos da outra. A ponto de ver um gato de olhos azuis. &lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Não me lembro do que falamos depois, e fui embora com um terço de olhar pela janela do carro. O gato provavelmente voltou a dormir depois de uns nove degraus.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-8088158428345427331?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/8088158428345427331/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=8088158428345427331&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/8088158428345427331'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/8088158428345427331'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/02/o-gato-de-olhos-azuis.html' title='O gato de olhos azuis'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_TX5uzq5Tz2k/RdD3btiPjcI/AAAAAAAAAAU/y21g-qpB_Ao/s72-c/gt_ol_az.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-3669399111474269629</id><published>2007-02-10T05:09:00.000-02:00</published><updated>2007-02-10T05:31:28.831-02:00</updated><title type='text'>Um filme sem chão</title><content type='html'>&lt;a href="http://calipso.blogs.sapo.pt/arquivo/Silencio.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 294px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" height="188" alt="" src="http://calipso.blogs.sapo.pt/arquivo/Silencio.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Esqueci que eu deveria escrever alguns textos curtos de vez em quando. Pra não criar expectativas de que eu vá escrever longos contos todos os dias. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Saio agora de um filme, como sempre. Me senti desconfortável com a história, pois não se definia. As cenas de suspense eram subitamente interrompidas por lances de comédia, com piadas que culminavam em cenas de suspense. A idéia central nunca era definida. Era uma crítica às drogas e ao totalitarismo do governo norte-americano, mas também falava de múltiplas identidades, ou não falava de nada. Era como a descrição de um lugar-nenhum e eu não sabia como me portar perante o lugar nenhum. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Meu saco de juízos de valor parecia estar bagunçado. As pessoas em geral vêem nos dramas a possibilidade de exibirem suas posturas morais, como manequins da religião na vitrine da existência. Eu já não tinha mais postura. Eu poderia dizer o profano ou gritar o sagrado, jamais perceberia a diferença. Procurava a poltrona confortável da moral mas tropeçava a cada passo no chão duro e frio do filme. Talvez, nem chão.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Senti-me enjoado e saí sem falar nada.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-3669399111474269629?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/3669399111474269629/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=3669399111474269629&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/3669399111474269629'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/3669399111474269629'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/02/um-filme-sem-cho.html' title='Um filme sem chão'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-2974603425760414814</id><published>2007-02-07T05:45:00.000-02:00</published><updated>2007-02-16T04:54:41.524-02:00</updated><title type='text'>O genocídio diário de imagens</title><content type='html'>&lt;a href="http://www.johnchakeres.com/SWG/images/White%20Wall.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 291px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" height="262" alt="" src="http://www.johnchakeres.com/SWG/images/White%20Wall.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://static.flickr.com/48/121373721_e23f01a962.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Estava num cinema, vendo um filme qualquer. A sala era certamente menor do que aquilo a que a majestosidade soberba de outros cinemas maiores que seus filmes lhe havia acostumado, causando uma vaga sensação de derrota pessoal a partir do momento em que entrou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Para alguém que se acostumou a berrar para o mundo o desapego material, associando palácios à necessidade de subir-se degraus - ou, pior, degraus por onde não se pode subir, reduzindo o homem a admiração da beleza estranha das coisas que estão além do que os olhos podem ver -, este hábito foi subitamente surpreendido pela sensação de incômodo não premeditada criada pelo tamanho sutilmente errado desta sala, suficientemente estreita para que seus vários eus não pudessem deixar de notar-se uns aos outros. Deixava de ser uma multidão distraída para tornar-se uma incoerência.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Repreendeu a si mesmo de forma discreta, de modo que as vozes já um tanto irritadas de si para sua mente não fossem transportadas para sua garganta em algum tipo de espasmo comunicativo, que outros chamariam de grito. Sua amiga, que estava a seu lado, nada ouviu além dos murmúrios que ecoavam pela própria sala, em seu quase-silêncio de rio de palavras que não se importam umas com as outras. Se murmúrios fossem audíveis, seriam contraditórios. Incoerentes.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;As paredes vermelhas, revestidas com um veludo listrado de preto, porém, compensavam, de certa forma, a humildade inicial da sala. Isso deu-lhe um certo conforto, ainda que efêmero, pois que percebia isso tendo a sensação de se encontrar em uma espécie de cubículo monárquico lotado demais para comportar qualquer atributo de majestade, enquanto a visão das pessoas, sentadas ao sol de quase nenhuma luz e olhando fixadamente para uma tela pálida que ainda secava a tinta do filme anterior, tudo isso criava-lhe um cenário que mais parecia fazer parte de algum estranho culto religioso. Sentou-se na poltrona razoavelmente acolchoada com a conhecida sensação de solidão daqueles que subitamente percebem que desconhecem a próxima reza a ser cantada, como pedra humana no meio do caminho avassalador dos rituais. O desconforto que sentia não era muito diferente do da criança de seis anos que se vê paralisada com o medo de morte ao se dar conta de que não conhece as regras de um corre-cotia da vida. Todos esperam que a cotia corra. Para ele, o mundo era a cotia. E ficava parado, como se correr fosse seu fracasso. Como se existir fosse seu fracasso. Na realidade, provavelmente fingia-se de morto em pleno instinto animal.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Hoje ele percebia que o incômodo não era tanto o da perda de controle sobre o instante, ou sobre o imediato, mas sim, o da sensação de que alguém poderia tê-lo avisado sobre as regras. Havia sido esquecido.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Certas imagens - como a parede branca que não se altera com o caminhar rápido do cotidiano, a pia azul clara, já velha, que tem sua beleza nostálgica negligenciada pelo sono da manhã e pelas reflexões noturnas, ou a árvore retorcida do cerrado que se confunde entre tantas e desaparece aos olhos geometricamente retos da modernidade - são imagens que nosso olhar-atrás-de-olhar captura desavisadamente, criando uma superlotação cerebral de memórias. A existência só se torna viável por meio de um genocídio diário de imagens.&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ele pensava neste cemitério de momentos e via o túmulo de sua própria imagem. Não havia sido simplesmente esquecido. Tinha sido confundido com paredes brancas e pássaros pardos. Assassinado pelo olhar distraído do mundo. Distraiu-se enfim com o apagar precipitado das luzes do cinema.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-2974603425760414814?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/2974603425760414814/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=2974603425760414814&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/2974603425760414814'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/2974603425760414814'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/02/o-genocdio-dirio-de-imagens.html' title='O genocídio diário de imagens'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-7334846187830072850</id><published>2007-02-05T03:39:00.000-02:00</published><updated>2007-02-05T04:00:09.983-02:00</updated><title type='text'>A pilastra que estava na frente da poesia</title><content type='html'>&lt;a href="http://100censura.br.tripod.com/pilastra.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 282px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" height="150" alt="" src="http://100censura.br.tripod.com/pilastra.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;O metrô corria cada vez mais rápido, como que se fugisse das palavras apressadas dos dois. Duas horas de conversa jamais são suficientes quando se tenta tocar as unhas dos dedos das mãos nos pés da realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou cada vez mais convencido de que essa troca incessante de palavras mal-distribuídas por entre gavetas de silêncio que nossa sociedade chama de 'conversa' não é mais do que um constante cuspe de partículas de realidade. Tentamos descobrir o outro. O outro tenta se revelar. Nenhum dos dois sabe como, mas todos acham que isso é possível. &lt;div&gt;&lt;p align="justify"&gt;Falta apenas uma única estação. As palavras se atropelam em uma tentativa última de tentarem fazer sentido. Se o leitor quer uma imagem, pense em um quebra-cabeça infinito que tem a arrogância - ou ingenuidade, sinônimos arrogantes e ingênuos demais para se admitirem - de se imaginar completo antes de um abrir e fechar de portas. Ele fala em filmes, brisas e chineses como se estivessem interligados. Ela responde com sorrisos, valores morais e olhares de lado como se fossem coisas completamente diferentes. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;A porta do metrô se abre ao som da frustração de palavras que ficaram para trás. Se deslumbres de real foram vistos, serão esquecidos pelas amnésias impostas pela grande bolsa de besteiras que é o mundo que nos obriga a lembrar de métodos para o uso de maçanetas e nos faz esquecer dos métodos de fabricação de momentos. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Ele salta de um lado para o outro da porta do metrô como se precisasse de passaporte. A porta se fecha e prende consigo meio suspiro que ficou por ali, mais inspirado do que expirado. Ele dá alguns passos adiante antes de olhar para trás querendo copiar a poesia daqueles olhares de despedida que ele deve ter visto em algum filme óbvio. Seus olhos apressados, porém, acabam trombando em uma pilastra de metal que estava ali distraída. O choque poderia ter derrubado a pilastra, e com ela, todo o chão do universo. Ao invés disso, caiu a poesia, sem fazer barulho suficiente para que alguém se importasse.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-7334846187830072850?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/7334846187830072850/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=7334846187830072850&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/7334846187830072850'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/7334846187830072850'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/02/pilastra-que-estava-na-frente-da-poesia.html' title='A pilastra que estava na frente da poesia'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-4209202208278089897</id><published>2007-02-02T06:49:00.000-02:00</published><updated>2007-02-02T19:05:28.782-02:00</updated><title type='text'>O circo precisa de lágrimas</title><content type='html'>&lt;a href="http://www.geocities.com/a_d-assumpcao/desenhos/palhatm1r.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 216px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" height="264" alt="" src="http://www.geocities.com/a_d-assumpcao/desenhos/palhatm1r.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ele conversava com uma amiga. Como de costume, tentava fazê-la rir com a estratégia de sempre de retirar as palavras do lugar e recolocá-las onde ninguém espera. Para ele, o riso funcionava como uma espécie de termômetro de si próprio, de modo que o silêncio do outro era como uma espécie de negação do eu.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Hoje, porém, ela ria pouco. Não sabia se ela estava entediada ou com sono. Talvez preocupada demais com assuntos mais sérios para ouvir piadas tão tolas. Ele tinha consciência do fato de que freqüentemente a falta de riso do outro não era necessariamente sua culpa. Consciência, porém, não é sinônimo de controle. Trazia consigo como herança psicológica de algum momento mais ou menos traumático da infância a sensação perene de proprietário do monopólio de culpas do mundo. Era uma esponja absorvente de erros e falhas, e se as paredes de uma conversa exibiam rachaduras, era por negligência de sua própria engenharia do eu.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Sua auto-consciência tentava transportar para ela suas coleções de angústias. Erguia em sua frente um espelho monumental, como que para nela refletir suas próprias rachaduras. Sim, sabia que o mundo não era diferente dele. Um encanamento absurdo, que vazava não se sabia aonde e aumentava diariamente a conta de água da existência. Não adiantava. A tristeza da platéia de um circo é a razão de ser do palhaço. Cria o riso como torneira da lágrima.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Mas nessa conversa não havia lágrima. Disparava a comédia como uma metralhadora e recebia não mais do que risos que para ele eram apenas automáticos, que vinham por obrigação e abafavam o sonoro ruído do tédio que estava ali em algum lugar.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Frustrado, muda o tom da conversa. Pergunta sobre o estudante de direito, com quem ele achava que ela tinha terminado o namoro. Na verdade, não haviam terminado, posto que sequer haviam começado. A incerteza a maltratava, posto que não sabia se existia alguma relação. Falava isso e lembrava o outro, o artista plástico. Esse era louco, pior que o primeiro. Lhe comprava um sorvete e se dizia apaixonado, mas no dia seguinte lhe falava da ex, e que pensava em voltar. Ela agora deixava as expectativas tomarem conta de si, deixando também o dia-atrás-de-dia frustrar cada momento antes esperado com o horror do nada que acontece a cada minuto, como que em um assassinato sistemático de instantes a sangue frio. Enfim, ela se desespera ao lembrar-se de que passava exatamente pela mesma situação a dois anos atrás. Sente-se presa como que em uma gaiola de tempo, aquário das repetições eternas. Torna-se redundância. Entra em prantos.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Em seu circo de conselhos, ele fala em viver o presente. — A frustração é dos futuristas. Os indecisos são fábricas que inundam o presente com suas chaminés de fumaça preta de dúvidas. As redundâncias são mitos criados pelos desatentos.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Ela se acalma. Ele conta uma piada. O rosto, ainda molhado de lágrimas, consegue rir, apesar do desespero ainda berrado por seus olhos. Na realidade, ria por causa do desespero. Ele era o palhaço da platéia perfeita, e sabia disso.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Duas lágrimas ainda caíram incontidas antes que ela risse da piada seguinte.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-4209202208278089897?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/4209202208278089897/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=4209202208278089897&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/4209202208278089897'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/4209202208278089897'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/02/o-circo-precisa-de-lgrimas.html' title='O circo precisa de lágrimas'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-2475499417460176620</id><published>2007-01-31T17:00:00.000-02:00</published><updated>2007-01-31T17:17:00.844-02:00</updated><title type='text'>Estou me guardando pra quando o carnaval chegar...</title><content type='html'>A manchete online da Folha de S. Paulo estampava ontem em primeira página que o assassino do cinema - aquele, que matou três em um cinema de São Paulo, em 1999 - teria sua pena escandalosamente reduzida em 60 anos.&lt;br /&gt;Cumpriria 49, ao invés de 110.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem em São Paulo sai de casa neste exato instante logo após ter lido a mesma manchete no jornal. Convencido pelo medo, traz consigo, pendurado em um cinto de couro avermelhado, já desgastado pelos anos, um revólver, calibre 38.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegando em seu ponto de ônibus habitual, espera impaciente por 23 minutos. Parece uma eternidade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-2475499417460176620?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/2475499417460176620/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=2475499417460176620&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/2475499417460176620'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/2475499417460176620'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/01/estou-me-guardando-pra-quando-o.html' title='Estou me guardando pra quando o carnaval chegar...'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-1078732974025962506</id><published>2007-01-30T05:43:00.000-02:00</published><updated>2007-01-31T17:00:06.630-02:00</updated><title type='text'>O teatro esquecido de nós para nós mesmos</title><content type='html'>&lt;a href="http://www.indianartcircle.com/rameshwarbroota/images/rbroota_19.jpg"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 168px; CURSOR: hand; HEIGHT: 283px; TEXT-ALIGN: center" height="327" alt="" src="http://www.indianartcircle.com/rameshwarbroota/images/rbroota_19.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Após uma longa reprise do dia em minha mente, saio do banho murmurando versos aleatórios. Estava um pouco desconfiado de que havia, enfim, perdido minha habilidade de falar. Bom, não de falar. Eu digo, de colocar palavras ordinárias em uma sequência tal que possa, ao menos por alguns, ser chamada de espetáculo. Aquilelas coisas que pasmam. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Acho que trato minha existência como se fosse uma constante ameaça de esquecimento. Ajo como se tudo o que sou possa ser esquecido a qualquer instante. Já está se esquecendo. Minha vida é um constante ato de lembrar. Ou de conhecer de novo. Reinventar o que não pode ser lembrado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Tenho em mente uma imagem de um prédio de um bilhão de andares. Coloco um tijolo. Esbarro no do lado, que derruba com ele mais dois. Coloco mais quatro, derrubando mais três.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Geralmente me satisfaço quando chego ao orgasmo poético, no quarto ou quinto verso aleatório — aquela sensação de conquista do verso perfeito que transforma o indivíduo no ser humano mais forte do universo, ainda que por três segundos. Um único verso, que existiu para ser belo. E foi belo para ser esquecido. Jamais será escrito.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Não encontro o verso.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ando pela casa. Enquanto meu cérebro mantém meu corpo em movimento burocrático, colhendo segundas vias de um cotidiano registrado em cartório, eu vasculho minhas memórias. Quero frases inesperadas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Subitamente, me deparo com o espelho. Continuo a andar, como se não me importasse. Solto uma frase de um filme que não é meu. Agora, é como se o filme se fundisse com aquele momento solto de uma rotina entediante, ou como se a rotina entediante se fundisse com um momento vago do filme. Acho que o belo é alterar o significado de um instante ao penetrá-lo com outro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A sala era escura. Já era noite, e as luzes estavam apagadas mais por preguiça do que por capricho. Um sofá, duas mesas, algumas cadeiras e uma televisão, pareciam ter sido organizados milimetricamente, como que querendo aproveitar o espaço em todas as suas possibilidades. O espelho - fatiado em três pedaços, como que para refletir uma visão esquartejada do mundo - era estreito e alto, e estava preso na parede, do lado esquerdo da porta que dava para a cozinha.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Os filmes, em geral, garantem o significado de seus instantes por meio de paisagens, cores e trilhas sonoras. A vida altera o significado de seus instantes ao tropeçar em imagens que o cinema do acaso insiste em passar. Bom, não que o cinema do acaso seja o único. Na rua dos nossos cérebros, existem vários outros, muito menos casuais.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Sobre a fusão de imagens, acho que ainda durou mais alguns instantes. Continuei andando e o som do meu pé se arrastando no carpete da sala me lembrou do chão e, com ele, do próximo passo-atrás-de-passo que o dia-atrás-de-dia exige. Volto a minha realidade nua, e sinto sede. Quero beber água e percebo que estou procurando por um copo no armário errado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ando em círculos pela cozinha pois já não lembro o que procurava. Tomo consciência da peculiaridade do fato. Invento uma platéia, um eu-em-multidão, que vê nisso um espetáculo. Aplaudo minha própria cena insólita como se fosse um circo de mim mesmo. Aliás, um circo não. Um verso. Enfim.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Bebo um copo d'água, ainda morna, e o deixo em cima da pia. Volto para o meu quarto, e já não há mais platéia.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-1078732974025962506?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/1078732974025962506/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=1078732974025962506&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/1078732974025962506'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/1078732974025962506'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/01/o-teatro-esquecido-de-ns-para-ns-mesmos.html' title='O teatro esquecido de nós para nós mesmos'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-7374769510311927987</id><published>2007-01-28T05:28:00.000-02:00</published><updated>2007-01-28T05:40:14.334-02:00</updated><title type='text'>O francês que falava com formigas</title><content type='html'>&lt;a href="http://www.reacaopublicidade.com.br/img/formigas.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 226px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" height="132" alt="" src="http://www.reacaopublicidade.com.br/img/formigas.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;div&gt;&lt;a href="http://www.reacaopublicidade.com.br/img/formigas.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Às vezes, tenho a impressão de que palavras são proibidas. Digo, no sentido de alguns contextos específicos, ou mais precisamente, o contexto algum. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Posso ser mais claro. Parece haver uma espécie de barreira que me separa das pessoas aleatórias que andam no meio da rua e que, como uma polícia de palavras, me proíbe de falar. Ao menos, sem a autorização devida de uma boa desculpa burocrática, tal como "para que lado fica o ponto de ônibus?".&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Em um filme, uma mulher esbarrava em um homem aleatório na rua e reclamava. — Eu não quero ser uma formiga. Formigas esbarram-se umas nas outras, dia após dia, sem tomar conhecimento de si. Não sei se a mulher do filme protestava contra a completo isolamento do indivíduo perante a multidão ao seu redor, ou se era contra a barreira invisível que separa o indivíduo aleatório do outro. Na dúvida, fico com a segunda possibilidade, que me convém.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Aliás, andar em silêncio no meio da multidão de anônimos que é a rua é como um ritual sagrado. Andamos na expectativa de não esperar por nada. Nenhuma interrupção em nosso passo-atrás-de-passo concentrado que se soma com pensamentos aleatórios que tentam, tanto quanto possível, ausentarem-se do mundo ao seu redor. Supõe-se que o mundo, ali, não interessa. Andar na rua é andar em lugar nenhum.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Daí minha surpresa quando, hoje, deparei-me com o francês. Estava com um amigo esperando por uma pizza quando ele veio, como se pudesse. Não tinha nenhum papel assinado pelo presidente da república, nenhuma autorização especial do governo. Nem mesmo um uniforme. Perguntou de onde éramos, como se rompesse uma bolha surreal. A bolha do apartheid entre o nós e o outro. É como se a visão periférica do olho quissesse invadir o foco central.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O choque foi menor do que eu pensava. Durou dois segundos. — Brasileiros, respondemos em bom inglês — lembrando que estamos em Toronto, cidade de qualquer país. Ele era magro, alto, cabelo talvez curto demais e um rosto que se aproximava do clichê francês, mas peculiar demais para um clichê. Falava em inglês difícil, com sotaque que, por azar, o fazia parecer uma espécie de geek. Sotaques não respeitam as personalidades, pensei comigo mesmo. Perguntou das nossas vidas e da política brasileira. Respondemos testando seu conhecimento de América Latina, dando-lhe uma chance para se encabular, enquanto perguntávamos sobre sua vida e a política na França. Nunca tivemos a expectativa de que saíssemos da superficialidade. Ele em nenhum momento justificou-se pela quebra do apartheid. Nós, não perguntamos. Falamos sobre aquilo que surgia, como que trazido pela maré das conversas sem pauta.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Conversamos por uma hora. Nos despedimos sem trocar contatos. A conversa aleatória não tem telefone. Está em toda parte. Foi embora e ainda pudemos ver andar, ao longe, o homem que transformava formigas em gente.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-7374769510311927987?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/7374769510311927987/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=7374769510311927987&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/7374769510311927987'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/7374769510311927987'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/01/o-francs-que-falava-com-formigas.html' title='O francês que falava com formigas'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-8383932519198144773</id><published>2007-01-27T19:36:00.000-02:00</published><updated>2007-01-27T19:58:54.391-02:00</updated><title type='text'>O Barão de Munchausen</title><content type='html'>&lt;a href="http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/aventuras-do-barao-munchausen/aventuras-do-barao-munchausen-poster02.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 166px; CURSOR: hand; HEIGHT: 225px; TEXT-ALIGN: center" height="339" alt="" src="http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/aventuras-do-barao-munchausen/aventuras-do-barao-munchausen-poster02.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;As aventuras do barão de Munchausen. Filme do Terry Gilliam, mesmo diretor dos filmes do Monty Python e dos Doze Macacos. Munchausen é um idealista que subverte o racionalismo iluminista do século XVIII/XIX da Europa com suas fantasias anárquicas. Grandes monstros marítimos engolem os personagens, balões chegam a lua, cabeças lutam contra seus corpos em busca da onipotência.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;É verdade, o iluminismo criou a ilusão de que conhecemos. Qualquer coisa além dos seus muros é imediatamente rotulada de ficção ou psicopatologia crônica.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Munchausen está certo. E no entanto... não me sinto preso.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-8383932519198144773?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/8383932519198144773/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=8383932519198144773&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/8383932519198144773'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/8383932519198144773'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/01/o-baro-de-munchausen.html' title='O Barão de Munchausen'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-1435413408778122698</id><published>2007-01-26T18:22:00.000-02:00</published><updated>2007-01-26T18:28:40.307-02:00</updated><title type='text'>Rindo para não deixar de existir...</title><content type='html'>"Dou uma volta pelos blogs, grandes egos, críticos do que não conhecem nem querem conhecer, de circunstâncias que ignoram, de vida convencional, folgada e composta. Mas de que se queixam? Deviam rir mais. Deles mesmos, até." &lt;a href="http://misspearls.blogspot.com"&gt;misspearls.blogspot.com&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os blogs se misturam. Se entrelaçam. Se perdem uns nos outros tais como as personalidades de pessoas que não sabem mais quem são.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, resolvi trazer esse pedaço de blog para cá por me lembrar de um pedaço de um livro que está lá e que se juntou com um pedaço de idéia minha que está aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas riem de si próprias. Verdade. Acho que é uma espécie de tentativa desesperada de continuarem existindo. Ao menos, existindo socialmente. Ou seja, existindo. Dizem que cada pessoa tem uma face, uma máscara, uma persona, para cada pedaço de conversa no qual podem vir a se trombar, nesses acidentes cotidianos que são os esbarrões de pessoas com pessoas. Você espera uma máscara do outro tanto quanto o outro espera uma máscara de você, e a vida não é mais do que conversas acidentais que podem ser perfeitamente metaforizadas em forma de grandes batalhas em que os soldados - nós - se degladiam - às vezes contra nós mesmos - para fazer de conta que nossas máscaras são reais. Não que não sejam. Não que haja algo por detrás da máscara. Não também que não haja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E soldado que é soldado, perde. A diferença é que, ao contrário da guerra das armas, o soldado das palavras cicatriza sua máscara rindo da própria fala que o outro não autorizou. — Imagina, não foi isso o que eu quis dizer. Minhas palavras tortas são boas ao menos para o riso, mas, de fato, concordo contigo, senhor da razão. Como sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia em que toda palavra for seguida de uma gargalhada, será um dia em que reconheceremos nossa incapacidade de dizer verdades.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-1435413408778122698?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/1435413408778122698/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=1435413408778122698&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/1435413408778122698'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/1435413408778122698'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/01/rindo-para-no-deixar-de-existir.html' title='Rindo para não deixar de existir...'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-4339033144601426285</id><published>2007-01-25T19:33:00.000-02:00</published><updated>2007-01-25T20:42:27.768-02:00</updated><title type='text'>Menino chinês de quatro anos mata 443 frangos a gritos</title><content type='html'>&lt;a href="http://malucaresponsavel.blogs.sapo.pt/arquivo/grito.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 221px; CURSOR: hand; HEIGHT: 259px; TEXT-ALIGN: center" height="357" alt="" src="http://malucaresponsavel.blogs.sapo.pt/arquivo/grito.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Sempre soube que, um dia, isso tinha que acontecer.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um menino chinês de quatro anos de idade foi surpreendido à noite por um cachorro trazido pelo pai. Seu grito parece ter assustado os galos e galinhas de uma fazenda próxima, gerando um tumulto geral que resultou na morte de 443 aves pisoteadas. O dono pede indenização. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;O dormitório destes galos e galinhas, por sua vez, certamente se encontrava mais do que superlotado para causar 443 mortes por pisoteamento. Contudo, nenhum representante aviário se pronunciou com pedidos de indenização ao dono.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O grito é uma forma bastante comum de resposta ao medo. Sentindo-se frágil perante uma ameaça maior, o grito tenta tornar o corpo maior do que si, demonstrar uma força que de fato não se tem e, assim, vencer uma batalha por meio de um blefe. O grito do menino chinês, porém, como uma bala perdida - ou, por que não, um berro perdido? -, parece ter se desviado. Galos e galinhas correram para salvar suas vidas já perdidas perante a ameaça de um berro igualmente perdido.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O medo faz guerra contra o próprio medo. Já diria Michael Moore, o medo é uma arma de destruição em massa. O grito do menino chinês é a bomba preventiva que cai no Iraque, ou a polícia que chega na casa de uma senhora aposentada para verificar se a fumaça de sua chaminé não seria de fato vestígio de uma usina nuclear clandestina. Parece que estamos gritando demais para as sombras, e as sombras podem acabar gritando de volta. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não sei o que aconteceu com o cachorro.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Fonte original: &lt;/span&gt;&lt;a href="http://br.noticias.yahoo.com/s/25012007/40/entretenimento-menino-chines-quatro-anos-mata-443-frangos-gritos.html"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Yahoo&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-4339033144601426285?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/4339033144601426285/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=4339033144601426285&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/4339033144601426285'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/4339033144601426285'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/01/menino-chins-de-quatro-anos-mata-443.html' title='Menino chinês de quatro anos mata 443 frangos a gritos'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-116969792721230782</id><published>2007-01-25T02:00:00.000-02:00</published><updated>2007-01-25T02:05:27.216-02:00</updated><title type='text'>O Barco de Papel</title><content type='html'>Esqueci de avisar que também escrevo contos. Ou, ao menos, conto aos outros que escrevo contos. Escrevi este nesses últimos dias, baseado nas minhas experiências recentes em Toronto, Canadá. Não sei se está pronto mas, por outro lado, nada está.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Barco de Papel&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Acho que às vezes a realidade simplesmente não me é suficiente. Não raramente, frustrado talvez com minha própria incapacidade de tocar o real que existe no mundo –  como se o real fosse o representante da poesia no cotidiano – me encontro observando, com os olhos fixos, essas pitadas de realidade que o passo distraído do mundo nos dá, em seus quandos-em-quandos. No fundo, acho que não se trata de mais do que uma tentativa de auto-ilusão, acreditando ingenuamente que o simples ato de retirar a mim mesmo da distração hipnótica geral das manhãs de terça-feira far-me-ão tocar a realidade mais do que a letargia mental na qual antes me encontrava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez essa impressão seja dada pela sensação curiosa que esses momentos geralmente me passam. É como se estivesse a abrir os olhos, mesmo sob ordens supremas de mantê-los fechados, e me deparasse com uma multidão de pálpebras perfeitamente cerradas, seja por obediência complacente, seja pela esperança de um último retorno ao sono, antes de mais um dia de trabalho. É incrível, aliás, como a melhor forma se superar-se o tédio da sala de espera que é um ônibus ou um metrô – esses espaços de lugar-nenhum que invadem nossa existência com o único propósito de dela saírem o mais rápido possível –, pode ser muitas vezes a própria transformação desse tédio coletivo em espetáculo pessoal. O bocejo desinteressado do garoto olhando a neve caindo pela janela, o olhar semi-morto de um homem para lugar algum sem perceber que o terror de seu rosto não condiz com os pensamentos banais que passam por sua cabeça, ou a mulher que passa toda a viagem do metrô sem virar a página do livro que imagina estar lendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meticulosidade de uma dessas mulheres uma vez me chamou a atenção. Ela tinha entrado no vagão do metrô com sua filha pequena segura pela mão, uma mala relativamente grande dependurada no pescoço cuja grife esportiva não parecia compatível com as roupas nem com o porte físico relativamente frágil da mãe, enquanto a outra mão se segurava à barra metálica do metrô, com o esforço reduzido possibilitado por anos de prática. Parecendo inconformada com a idéia de fazer do momento de locomoção entre um lugar real e outro lugar real – esse meio termo que forma o não-lugar – uma mera sala de espera, reduzindo-se com a massa à letargia de quem pausa à vida como a um filme, resolvera transformar o pequeno mundo em que se encontrava de pé com a filha no vagão relativamente lotado em uma sala de café-da-manhã. Retirava de sua mochila pedaços de pão e bolachas de potes especialmente preparados para tal ocasião, e o fazia com um cálculo de tempo e de movimentos de quem passou toda uma vida realizando aquele ritual pragmático. Segurava mais de um pacote entre os dedos da mesma mão que mantinha seu equilíbrio, enquanto usava a outra mão para alimentar a filha ou abrir a mala esportiva. Quando necessário, largava a barra metálica em momentos calculados, de quem parece ter nas mãos o controle do freio e da aceleração do próprio metrô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na saída, precisávamos andar rapidamente por uma longa escadaria para pegar a conexão com um segundo metrô em outra linha. Chegando à estação, lembro-me de não tê-la visto e, assim, imaginado que deveria naturalmente se demorar pois que carregava consigo toda a lentidão do peso das malas e da filha pequena. Vendo, porém, que o metrô levava alguns instantes a chegar, pensei mesmo que talvez ainda houvesse tempo para que as duas chegassem. Mas essa esperança se desfez em alguns segundos, com a visão das luzes do trem invadindo a estação, como de costume. Ao abrirem-se as portas para a entrada dos passageiros, dei uma última olhada para a boca da escadaria, na esperança de vê-las, em meio à multidão de passageiros atrasados, correndo exaltadamente com suas malas para alcançar o metrô. Ora, qual não foi a minha surpresa quando meu olhar topou, tão rápido quanto na instantaneidade de um susto, com a chegada de ambas que – destoando da massa que corria para não ter que ver sua sala de espera diária aumentada em mais dez minutos – se moviam calmamente, com o mesmo ritmo meticuloso e calculado de antes. Embarcaram no vagão dois segundos antes das portas se fecharem, sem que, por um único momento, parecessem ter se equivocado em seus cálculos diários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o cotidiano sonolento das salas de espera matinais jamais me pareceu tão próximo de esbarrar na poesia de sua camada mais profunda de realidade quanto o fora ontem. Encontrava-me sentado em um ônibus, quando, olhando para os lados em um de meus surtos de déficit de realidade, eis que deparo-me com uma garota asiática, por volta de seus onze anos, que se distraía fazendo um barquinho de papel. Não sei se foi a beleza da simplicidade do ato, ou se foi seu contexto que me cativou. Abro aqui um pequeno parênteses. Acho que quanto mais envelhecemos, mais o tempo transforma as pequenas belezas em grandes redundâncias. Não há espetáculo que resista a sua repetição constante, quase diária. Passamos a vida tentando superar a redundância, buscando no detalhe quase invisível, microscópico – literalmente, às vezes –, a beleza do jamais visto, o famigerado ‘novo’. Assim, se um ônibus pode ser considerado como um espetáculo auto-suficiente em sua primeira visita, transforma-se facilmente em redundância após seu uso quase diário, de modo que tentamos superá-la, seja por meio de aparelhos portáteis de som, seja por livros ou jornais, seja por meio do espetáculo de nós mesmos, em nossos próprios pensamentos. Mesmo essas pequenas saídas, porém, nem sempre são suficientes. A vida às vezes parece se transformar em um esforço diário pela criação do novo, e o mundo volta a sua existência para a função tão fútil quanto poética de causar espanto e estupefação em seus habitantes distraídos. O fato é que não haveria redundância sem a lembrança. A memória destroi a poesia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A garota do barquinho, em seus ainda onze anos, provavelmente ainda não via em sua vida uma redundância tão grande quanto alguém de vinte. Se dava por satisfeita com o barquinho. Acho que a beleza da cena para um adulto está em ver justamente essa transformação, como que mágica, do simples em fantástico pelas mãos de uma criança. Eu mesmo, que nunca fui muito de me deixar cativar pela beleza fácil das crianças, achei mesmo sedutora a idéia de tentar capturar os olhos da garota, como que se eu pudesse assim apagar da minha memória todo o entulho de redundâncias que me impedia de enxergar o barquinho de papel enquanto barquinho de papel – ao invés de simples parte componente de um cenário temporário da minha vida por onde meus olhos passam, e não param. Continuo então a observá-la e, então, quase derramo lágrimas. Ela havia colocado o barquinho, cuidadosamente, no braço da cadeira do ônibus, deixando-o lá como a um enfeite em uma casa. Era como se percebesse, com uma sensibilidade do tamanho de um poeta morto, que todo o tédio do mundo se encontrava ali, naquele ônibus, que agora tentava ressignificar completamente com o único espetáculo que podia proporcionar. O barquinho de papel representava o fim da redundância. Ficaria lá, repousando serenamente nas marés do trânsito canadense, servindo de fogos de artifício para os olhares desatentos e incrédulos de quem anda nos ônibus da cidade de olhos fechados com pálpebras abertas, preparado para ver o mesmo ônibus, o mesmo banco, a mesma multidão com os mesmos traços genéricos. O barquinho parecia uma arma atômica na guerra contra a distração, passo primeiro em direção ao inédito. Tinha a impressão de que o mal-estar da sala de espera havia sido tamanho para a garota que, tendo encontrado no barquinho sua brilhante solução, sentia a necessidade de compartilhá-lo com o mundo ao seu redor. O pedaço de papel ali repousaria para a contemplação da eternidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao chegar em sua parada, a garota levantou-se. Amassou nas mãos o barquinho de papel e desceu os dois degraus do ônibus de forma automática. Uma mulher alta, de meia-idade, sentou em seu lugar e, prevendo uma longa viagem, tirou um livro da bolsa. Não me interessei em ler o nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toronto. Janeiro, 2007.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-116969792721230782?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/116969792721230782/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=116969792721230782&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/116969792721230782'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/116969792721230782'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/01/o-barco-de-papel.html' title='O Barco de Papel'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-38722962.post-116969761803127235</id><published>2007-01-25T01:20:00.000-02:00</published><updated>2007-01-25T02:05:48.210-02:00</updated><title type='text'>Sobre a Pálpebra ou Mito fundador deste blog.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Pálpebra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;do Lat. palpebra&lt;br /&gt;s. f.,&lt;br /&gt;membrana pregueada revestida de pele que protege e cobre exteriormente os olhos de alguns vertebrados, sendo uma superior (só esta se pode considerar móvel no ser humano) e outra inferior. (Dicionário Priberam)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário do que prega o dicionário com suas ideologias confusas, porém, a proteção concedida pela pálpebra pode não ser mais do que reles ilusão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Meus berros silenciosos não acordam ninguém&lt;br /&gt;enquanto meus olhos fechados são traídos&lt;br /&gt;pela transparência de suas pálpebras." (Eu).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...apesar de outros ainda acreditarem em sua glória na eterna batalha contra o algo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Uma pálpebra,&lt;br /&gt;Mais uma, mais outras,&lt;br /&gt;Enfim, dezenas&lt;br /&gt;De pálpebras sobre pálpebras&lt;br /&gt;Tentando fazer&lt;br /&gt;Das minhas trevas&lt;br /&gt;Alguma coisa a mais&lt;br /&gt;Que lágrimas." (Leminski).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o dicionário tem uma certa razão. A pálpebra "protege e cobre exteriormente os olhos de alguns vertebrados". Exteriormente. Estou ainda a esperar pela pálpebra interna que irá proteger-me contra minhas próprias trevas — muito mais infinitas que o Sol.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/38722962-116969761803127235?l=apalpebra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://apalpebra.blogspot.com/feeds/116969761803127235/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=38722962&amp;postID=116969761803127235&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/116969761803127235'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/38722962/posts/default/116969761803127235'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://apalpebra.blogspot.com/2007/01/sobre-plpebra-ou-mito-fundador-deste.html' title='Sobre a Pálpebra ou Mito fundador deste blog.'/><author><name>Lasevitz</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry></feed>
